"When you try your best
but you don't succeed
When you get what you want
but not what you need
When you feel so tired
but you can't sleep
Stuck in reverse

And the tears come streaming
down your face
When you lose something
you can't replace
When you love someone
but it goes to waste

Could it be worse?

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

And high up above
or down below
When you're too in love
to let it go
But if you never try
you'll never know
Just what you're worth".

"Fix You"
Coldplay.








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AGOSTO DE DEUS


#sqn

Eu odeio o mês de agosto. E não sei explicar por quê.

O ano começa a ir ladeira abaixo e algo se quebra dentro de mim. A vontade de viver -- assim mesmo, de sair da cama, de fazer coisas, de ver gente -- some quase que por completo. Cada dia nasce com a tarefa hercúlea de me arrastar para fora da cama e contornar a tempestade de pensamentos desanimadores e desesperados que rodopiam na minha cabeça como num liquidificador. Tudo me irrita, tudo me entristece, tudo passa a ser insuportável. 

É impressionante o quanto eu perco o entusiasmo pela vida. Até mesmo os pequenos prazeres do cotidiano se tornam insuportáveis: acordar, malhar, trabalhar, ver gente. Só quero ser deixado em paz.

Antes de me mudar para São Paulo, eu culpava a seca que se abate sobre Brasília nessa época pelo meu mau humor constante. Bom, uma vez em São Paulo, passei a culpar o frio, a chuva, as noites longas e escuras. Se antes a minha alma parecia secar, depois me sentia como mofado. Não tem jeito: esse estado de espírito me acompanha onde eu for. E tenho para mim agora que o problema não é o lugar, nem mesmo a época do ano: o problema sou eu. Se fosse morar em uma praia paradisíaca na Polinésia Francesa, provavelmente eu ainda assim acabaria me sentindo inexplicavelmente miserável.

Fazer o quê, além do que sempre fiz antes? Esperar passar é o melhor caminho porque é o único caminho que conheço.



 Escrito por Rindu às 18:22
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PERDIDO NO TEMPO


Tem um filme com o Christopher Reeve e a Jane Seymour chamado "Em algum lugar do passado" ("Somewhere in time", para quem quiser ver no Imdb), que conta a história de um sujeito que viaja no tempo para encontrar a mulher por quem se apaixonou. O personagem de Reeve -- um autor teatral chamado Richard Collier -- se apaixona pela foto da personagem de Jane Seymour -- uma atriz chamada Elise McKenna -- que estava exposta no museu de um hotel. Fuçando nos arquivos do lugar, ele descobre que ela havia vivido ali oitenta anos antes. Então fica obsecado em encontrá-la.

Ele descobre um livro que diz que viagens no tempo poderiam ser possíveis pela força da mente. Segundo o autor, bastava que o viajante se cercasse de coisas da época que queria visitar e se concentrar bastante que acabaria lá. Collier faz isso e consegue acordar em 1900. Encontra McKenna e os dois vivem um grande amor. Só que no final do filme ele acha uma moeda de 1979 no bolso do paletó, e volta para o presente de repente. Não consegue se auto-hipnotizar e morre de inanição tentando.

Me lembrei desse filme hoje porque cochilei assistindo TV, e quando acordei, estava passando uma reprise de E.R. Não sei explicar por que, foi uma experiência perturbadora. De repente eu me senti como se tivesse sido arrancado do presente e atirado em 1996, ano em que aquele episódio foi gravado. Fiquei me lembrando onde e como estava naquela época, aos 20 anos de idade, e foi inevitável me perguntar se eu gostaria de voltar para lá, se pudesse.

Não, não gostaria -- a resposta me veio tão rápida quanto cristalina. Há quase duas décadas eu caminhava num terreno tão pantanoso da minha existência que não há promessa de juventude recuperada que possa me fazer querer voltar para lá. Sério, eu vivia um inferno de auto-recriminação e complexo de inferioridade tão profundo que a mera lembrança me causa arrepios. Odiava meu corpo, me achava horrível, não tinha amigos e estava completamente perdido na vida. Não é de admirar que, alguns anos depois, mergulhei numa depressão que por muito pouco não me matou.

Hoje estou com quase 40 anos, e francamente: não poderia estar melhor. Estou mais centrado, mais tranquilo, mais seguro, mais feliz. Gosto do que vejo no espelho, mesmo apesar do cabelo cada vez mais grisalho. E, na real, até acho que essa cabeleira cinza é um charme hahahahaha!

Então me levantei, desliguei a televisão, e deixei 1996 lá no passado onde ele pertence. Fui almoçar e tocar a minha vida de hoje, porque ganho mais fazendo isso. E beijos.



 Escrito por Rindu às 16:15
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A DOCE AMARGA SAUDADE


Estando metido há quase dois anos (meu Deus, já?!) numa relação à distância, a saudade passou a ser uma companheira tão constante quanto incômoda. É um sentimento inevitável, porque ligado à mesma essência do sentimento que fundamenta a relação. E a parte ruim disso tudo é que esse sentimento é igual a uma viuvez que nunca se resolve. Afinal de contas, eu estou permanente e deliberadamente preso a uma pessoa que não está do meu lado. A maioria do tempo, só tenho minhas lembranças para me alentar.

E se a falta em si já não bastasse, essas memórias impedem que o vazio da ausência se resolva com o passar do tempo, como acontece numa viuvez normal. Antes, elas se revigoram a cada reencontro. Na prática, eu sou um Prometeu condenado pelos deuses a ter meu fígado devorado por um abutre a cada dia, para tê-lo regenerado à noite e ver o suplício reiniciar na manhã seguinte.

É claro que o contato virtual no Whatsapp e no Facetime servem como um paliativo. Mas não passam disso. Jamais letras ou a imagem na tela de um celular substituirão o toque, o calor da pele, o cheiro, a proximidade. Ninguém abraça máquinas.

Talvez por covardia travestida de instinto de auto-preservação, eu tentei lidar com essa saudade metabolizando-a. A cada dia eu me esforçava em quebrá-la em pedaços pequenos para assimilá-la. Reafirmava o meu compromisso na minha consciência, mas tentava minimizá-lo das camadas mais profundas da minha mente. Não que eu tenha saído por aí como se descompromissado fosse, mas talvez tenha chegado ao ponto em que eu me mantinha na relação mais por inércia do que por apego. E esse era um campo minado. Mantendo minha disposição exposta daquela maneira, era questão de tempo para que alguma coisa séria acontecesse. E vulnerável como eu estava, por insignificante que essa coisa fosse acabaria sendo forte o suficiente para me roubar as bases e perder o chão.

Mas o que me incomodava mesmo era estranhar o meu namorado a cada reencontro. Depois de um mês trabalhando tão arduamente para não sentir sua falta, quando nos encontrávamos eu percebia que ele havia se tornado quase um estranho para mim. Isso durava só alguns instantes, é verdade, mas eram minutos desconcertantes. Era como se eu tivesse -- no sentido de 'ser obrigado a' -- que me reapaixonar o mais rápido possível.  Me sentia como se estivesse retomando a leitura de um livro que eu havia abandonado, e até guardado na estante. E olha, levava um tempo precioso para eu lembrar da história e mais uma vez embarcar no enredo. Tempo demais, na verdade, se considerarmos que os nossos reencontros mensais nos garantiam bem pouco tempo juntos.

Chegou uma hora que não deu mais. Esse esquema de esquenta-esfria foi provocando fissuras inesperadas nas minhas estruturas, e eu percebi que não teria como manter as coisas daquele jeito por muito mais tempo. A cada vez o esfriamento era maior e o reaquecimento mais lento -- e tudo isso por minha culpa. Já se avizinhava o dia em que eu não conseguiria passar do morno-tédio, e a relação toda desmoronaria por ter perdido a sua razão de ser. Era chegado o ponto do "ou termina ou reelabora". E eu preferi reelaborar.

Cortei todos os mecanismos que eu havia desenvolvido para fugir do sentimento de ausência. E me vi sozinho na tarefa de lidar com a saudade que só crescia, agora livre de peias ou drenos. Foi dureza e custou muito, mas acabei percebendo que essa mesma saudade pode ter um lado bom.

Coisa que não acontecia havia tempos, eu me vi novamente sonhando com a pessoa que amo. Sonhando acordado tanto quanto dormindo. As conversas pelo telefone, que antes já estavam esbarrando num protocolismo pro forma, voltaram a carregar um carinho genuíno que havia muito não se fazia sentir. E, melhor do que tudo isso junto: eu mal posso esperar pelo próximo encontro. Imagino o abraço, o aconchego, o estar perto e junto novamente. E morro de antecipação.

Namorar à distância é desgastante, não tem como fugir disso. Mas quando conseguimos usar essa vicissitude em nosso favor, a coisa toda chega a ser recompensadora.



 Escrito por Rindu às 19:13
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EU ESQUECI O QUE VOCÊ FEZ NO VERÃO PASSADO


Aconteceu na semana passada. Era sábado, eu não tinha absolutamente nada para fazer, e resolvi organizar a minha pasta de fotos no computador.

Quem já me conhece sabe que sou meio compulsivo com organização. Então mantenho as minhas fotos classificadas por ano, mês e evento, sucessivamente. Como não dá para fazer isso a cada vez que descarrego o meu celular, tenho uma pasta separada para guardar as fotos que, posteriormente, eu vou arquivar de forma mais detalhada. Nessa pasta também estavam algumas selfies e fotos genéricas que eu simplesmente tirei e que não se relacionavam a nenhum evento específico.

Primeiro eu guardei as fotos dos eventos que eu lembrava quando tinham sido. Depois, descobri que dava para ver a data em que a foto foi tirada nas propriedades de cada arquivo, e então comecei a classificar as fotos genéricas também. E, perdido no meio de tantas selfies que eu tirei quando morei em São Paulo, me peguei tendo inveja da pessoa que elas mostravam -- muito embora aquela pessoa eu eu mesmo.

Sério: eu quis ser aquela pessoa cheia de entusiasmo e alegria que as fotos mostravam. Muito mesmo. Uma pessoa que parecia ter uma vida interessantíssima, sempre muito bem vestida e em companhias agradáveis (ou muito confortável com a própria solidão).

Por vários minutos eu me esqueci completamente que aquele cara não era ninguém extraordinário, era eu mesmo. E, ainda pior: eu me esqueci que algumas das vezes em que tirei aquelas fotos, tão lindas e bem produzidas com filtros mágicos, eu estava me sentindo a pessoa mais miserável do mundo. Que muitas vezes tinha engolido o nó na garganta e escondido os dedos comidos para criar um olhar pernóstico e um sorriso iluminado.

Tive que me forçar a lembrar das decepções, da frustração profissional, da solidão e até das alergias por que passei naquele tempo para conseguir enxergar a realidade. Onde estive e onde estou agora. E só aí fiquei aliviado.

Pelo menos ficaram as lembranças de coisas boas, como o meu apartamento em São Paulo. Vou ter isso em mente quando montar o meu aqui em Brasília. Porque é para frente que se caminha.



 Escrito por Rindu às 17:29
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ESPELHO MEU


Admiro gente que consegue manter um padrão de relacionamento independente das pessoas com quem se relaciona. Gente que consegue se doar sem obter nenhum retorno, que é macia no meio de um espinheiro, que responde com amor à colheita de indiferença e irreverência. Acho que essas pessoas são o sumo do que se prega no cristianismo, além de serem exemplos de equilíbrio, auto-estima, inteligência emocional e autocontrole.

Eu não sou assim. Fato.

Não foi uma, nem duas, nem três vezes em que eu deliberadamente desconstruí sentimentos e relacionamentos porque não conseguia me enxergar no objeto da minha afeição. Muitas vezes agi assim contrariado, apenado, triste, mas ainda assim segui em frente. Sempre tomei para mim a metáfora de Penélope, esposa de Ulisses -- o herói da "Odisseia" --, que de dia tecia uma tapeçaria e de noite a desmanchava. Quando Penélope começa a trabalhar para mim, o relacionamento para. E se ela trabalha demais, desfazendo à noite mais do que eu construo de dia, o relacionamento acaba. É uma questão de tempo.

Pode ser uma questão de timing também. Lembro que nos primórdios do Quarto 1222 eu elaborei o Teoria da Piscina Gelada, numa alusão à brincadeira de mau-gosto em que uma pessoa é incentivada a se jogar numa piscina fria junto com alguém, e descobre em pleno ar, depois de ter saltado, que seria o infeliz que congelaria sozinho. Quando me vejo já dentro da água fria, avalio se fui parar lá por impulsividade minha mesmo, ou se fui iludido a me jogar. Só então decido se reprogramo a rota e espero um pouco mais pela contrapartida da outra parte, no primeiro caso; ou se planejo um meio bem cruel de terminar aquela palhaçada, no caso do segundo.

Guardadas as devidas proporções, isso acontece mais frequentemente do que eu gostaria. Recentemente passei por uma dessas, e depois de muito refletir resolvi colocar a situação sob observação para deliberação posterior. Tirei um anel de compromisso que simbolizava os meus arroubos sentimentais e pus Penélope em ação. O tempo seria o senhor da razão, e se as coisas não mudassem num tempo razoável, o fim era inexorável. Graças a Deus -- e para minha surpresa, de tão cético que estava -- as coisas evoluíram bem e continuam caminhando.

É, a vida ensina a gente. Em outros tempos eu tinha estrilado e jogado tudo para o ar. Mas como diz Caetano, "quando a gente gosta, é claro que a gente cuida". Eu continuo cuidando, sim -- mas sem tirar os olhos da minha imagem no espelho.



 Escrito por Rindu às 18:36
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REALITY SUCKS


Quando eu era menino, lembro da angústia que me dava quando via as malas arrumadas na porta da casa dos meus avós, em Araguari. Aquele era o sinal infalível de que o fim-de-semana estava acabando, e que mais cedo ou mais tarde eu teria que dizer adeus às brincadeiras no imenso quintal cheio de jabuticabeiras, entrar no carro e voltar para Brasília para enfrentar a rotina na escola. Quando via aquela movimentação característica dos meus pais, desejava ter o superpoder de fazer o tempo parar. Queria que o sol nunca mais se pusesse, para que aquele restinho de dia durasse para sempre e eu pudesse viver um pouquinho mais daquele sonho.

Ás vezes a conversa em torno do cafezinho na copa se desenrolava um pouco mais, e eu confesso que uma centelha de esperança de que meus pais desistiriam de voltar para casa naquela hora chegava a aparecer. Mas a alegria, por ilusória, era efêmera: de repente as xícaras iam parar nos pires, os adultos levantavam bem diligentes, e toda a fantasia tinha um final abrupto. Eu suspirava triste e resignado, como quem assiste a popa de um navio se empinar alta no ar antes de ir a pique de uma vez. Não tinha jeito.

O engraçado para mim é ver que hoje, do alto dos meus quase 40 anos, eu continuo tendo os mesmos sentimentos. Ainda não fui capaz de elaborar mecanismos que me façam encarar o fim de algo bom como um fato da vida, e me desapegar sem maiores dores. Sou um homem feito, e ainda carrego dentro de mim aquela criança tristonha que soltava suspiros doídos para alivar a pressão dentro do peito.

Esse fim de semana passado (que, por bondade de Deus, só acabou hoje, terça-feira), foi tão bom que deixou um lastro de chumbo pesando no meu coração. Foram dias em que eu vivi um trailer bem próximo da vida que eu sempre quis para mim. Estive do lado de quem faz a minha existência valer a pena, e não foi só isso. Também presenciei o momento mais especial na vida de um grande amigo, que me deu ânimo para desejar o mesmo para mim. E, ainda por cima, fiz novos amigos, e me diverti numa atmosfera de alegria que me roubou da realidade cotidiana.

Hoje, com as malas perto da porta e a promessa de retorno para a vida real, voltei a sentir o que aquele menininho sentia ao se despedir das jabuticabeiras da casa dos avós.



 Escrito por Rindu às 16:44
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SEU PASSADO MANDA LEMBRANÇAS


É uma lástima: a gente passa uma vida lutando contra o narcisismo, antecipando cada passo, cada contrariedade, cada reação. E num instante de distração, de fraqueza, pronto! -- o velho amigo-da-onça manda lembranças e prova que não passamos de idiotas pretensiosos.

Eu estava embarcando para São Paulo, meio que em cima da hora. E não há nada que mais tire a gente do sério do que estar correndo contra o relógio e dar de cara com uma fila enorme. A da sala do raio X no aeroporto de Brasília estava dando voltas, sem pressa. É engraçado quando ouço que já temos o terceiro maior aerorporto em movimentação de passageiros do país, e vejo que ainda assim os energúmenos colocaram todos -- todos MESMO -- para passarem pelo raio X numa mesma sala. O caos, o caos, sempre. E naquela sexta-feira não estava diferente das demais sextas-feiras nesta cidade -- um caos ainda maior.

Eu olhava para o relógio e sentia um músculo pinçando na minha nuca. Tudo bem que o horário de embarque no cartão da Avianca parecia por demais antecipado (queria conhecer o cara com TOC que estabeleceu essa afobação na empresa), mas quem é que se anima a arriscar discutir com esse tipo de coisa? Mandam a gente chegar num horário e a gente chega, ponto final. E eu ali, naquela fila, não ia chegar no horário coisíssima nenhuma.

Para piorar, ainda estava falando ao telefone quando chegou a minha hora de passar a bagagem de mão na máquina. Me despedi abrupto e, no que mais tarde eu já identifiquei como sendo um recado da fúria de Narciso que se avizinhava, joguei o celular no caixote que me deram. Pus ali a carteira e as chaves e passei pelo detector de metais, que apitou. Voltei, tirei também o relógio e passei de novo. Apitou. Voltei mais uma vez, bufando. Tirei o escupulário, umas moedinhas que encontrei perdidas nos bolsos, tentei mais uma vez. Apitou novamente e dessa vez um cara já me segurou do lado de lá, antes que eu resolvesse ficar nu.

Era um senhor de meia idade, muito sério com o seu detector de metais portátil. Me pediu para ficar em cima de uma plataforma e abrir os braços para me revistar. E foi nas minhas botas que a máquina acusou o perigo: as benditas deviam ter pregos, ou rebites, ou sei lá o quê que disparava o alarme. Achei que tudo estava resolvido, então. Eram as botas. Que me deixassem partir, porque àquela hora era para eu já estar no portão de embarque.

"O senhor vai ter que tirar as botas e colocá-las no raio X", determinou o homem.

Senti uma veia saltar no meu pescoço. Os dentes rilharam, o maxilar teso. Devo ter ficado com os olhos injetados de um ódio sanguíneo. Argumentei que as botas são custosas de tirar e colocar de volta por causa dos cadarços, mas o homem estava irredutível.

"Se eu perder esse vôo, te processo", fuzilei. O homem respondeu resmungando alguma coisa que eu não entendi.

Que babaca, eu.

O cara estava fazendo o trabalho dele, cumprindo ordens que são muito mais antigas do que ele naquela função. Tendo que passar o dia ali lidando com gente apressada que não sabe cumprir as regras sem ter que passar por aquele contratempo, também teve que lidar com o piti de um marmanjo idiota como eu.

Tirei as botas, coloquei-as no raio X, peguei-as de volta, juntei a minha tralha -- não sem antes ser advertido que estava do lado errado da máquina, o que ignorei -- e fui calçá-las sentado num banco que está lá para isso. E já saí correndo para o portão de embarque envergonhado por ter me comportado daquela forma.

O narcisismo é um transtorno de personalidade incurável, mas é contornável. Mas um dos seus componentes -- justamente a chamada fúria narcísica, que geralmente explode em resposta à frustração -- é muito difícil de prever. E, consequentemente, de conter.

Nesse dia eu tive a certeza de que eu estou ainda muito longe de ser uma pessoa legal.



 Escrito por Rindu às 15:35
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DE GRÃOS E DE MILHÕES


Foi engraçado ver o quão rápido o abismo entre a prática e a teoria se abriu intransponível naquela mesa de bar. Até então a conversa girava em torno no descalabro moral em que o PT atirou o país, com vários apartes virulentos sobre como todos os políticos são maldisfarçados biltres, que mereciam serem todos fuzilados. Quem ouvisse a conversa poderia até achar que ali estava a reserva moral do país, a promessa de um Brasil mais ético e mais justo.

Mas aí o garçom entregou a conta, e tamanho moralismo se desfez no ar.

Quem conferiu o que era cobrado percebeu que uma das entradas servidas não havia sido lançada na conta. Estava tudo lá, as bebidas e o resto das comidas, mas aquela entrada que eu nem lembro mais qual era, não estava. Era coisa de uns vinte e cinco, trinta reais a menos na conta.

Bom, ouvindo o que eu tinha acabado de ouvir até aquela hora, achei lógico que alguém prontamente chamaria o garçom para mostrar o erro e pedir que a conta fosse refeita, dessa vez cobrando o prato que havia sido esquecido. Mas não. Um certo olhar ladino transformou a feição de quem calculava o quanto tocaria para cada um. O tom de voz baixou para um nível quase conspiratório, e então passei a ouvir pérolas do dicionário ético do brasileiro médio: "Não tem importância, são só trinta reais" e ainda "O que é que tem? Todo mundo faz isso. Não vamos ser nós os otários". E, por fim, a melhor de todas: "O dono do bar já está lucrando demais com as outras coisas que estão na conta. Isso não vai fazer falta. Já está previsto na margem de perda dele".

Que se danassem os custos do dono do bar, os impostos altíssimos que ele tem que pagar e a matéria-prima que ele utiliza no preparo dos pratos. E que se danassem junto com ele os garçons, que teriam abatido da divisão da taxa de serviço o custo daquele prato. E, por fim, às favas com os valores de honestidade e ética. Afinal, pelo que eu percebi ali, um roubo só passa a ser considerado como tal depois de ultrapassado um determinado valor. Antes disso, é só uma coisa sem importância, que não faz mal a ninguém.

Cresci com a minha avó me dizendo que "quem rouba um grão, rouba um milhão". A verdade é que roubo é roubo, não importa se é um alfinete ou uma barra de ouro. Mas os brasileiros, em geral, parecem que não pensam assim. Percebo que a ética dos nossos compatriotas dita que se uma vantagem vai trazer pouca ou nenhuma perda para terceiros (isso sempre aos olhos do beneficiado, claro), não há problema nenhum em usurpá-la. Não é simplesmente o ato de se apropriar-se do alheio que é reprovável, mas somente a proporção do prejuízo que ele pode causar. E quanto mais difuso esse prejuízo for, melhor ainda -- é disso que nasce a noção de que um bem público, ao invés de pertencer a todos, não pertence a ninguém. E que por isso mesmo pode ser apropriado, depredado ou mal-tratado como se bem quiser.

Já dizia Ruy Barbosa que, no Brasil, "o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto". Não tem como esconder a realidade: vivemos numa cultura que valoriza a vantagem indevida como fruto de uma esperteza que é tida como uma qualidade invejável. Brasileiro bom é aquele que paga um e leva dois (ou três). Que para na fila dupla, ou numa vaga preferencial, só porque se considera fodão -- ou onisciente o suficiente para saber que nenhum deficiente ou idoso vai precisar estacionar ali naquele momento. Brasileiro bom é aquele que fura a fila, ou dá um jeito de ser vip mesmo podendo pagar. Que pega para si aquilo que julga não ter dono, ou que se acha no direito de destruir algo público só porque precisar dele não faz parte da sua rotina. 

Tentar ser honesto nesse país é uma luta inglória. Tento ter por princípio só ter como meu aquilo que realmente eu tenha conquistado ou tenha me sido dado. E ao invés de ser respeitado por isso, tenho que passar a vida justificando o que, aos olhos dos outros, não passa de "otarice" [sic]. Ser otário por opção é uma sina minha. Uma vez quase apanhei dos meus colegas de classe porque disse ao meu professor de física que ele tinha errado a meu favor no cálculo da nota de uma prova. A minha nota foi reduzida (e olha que eu tinha uma dificuldade imensa com física), mas pelo menos aquela era a minha nota. Eu já me acostumei a ser olhado torto quando devolvo uma caneta, ou o troco que veio a mais, ou cumpro à risca a jornada de trabalho que eu sou pago para cumprir.

Voltando à conversa na mesa do bar que eu contei no primeiro parágrafo, é triste constatar que estava ali, sentada conosco, a verdadeira razão de o Congresso Nacional ser o antro que é. Vendo e ouvindo aquilo tudo, percebi o porquê do nosso povo achar justificável reeleger um governo que nem cuida mais de esconder a sua imoralidade. É essa mesma honestidade seletiva do brasileiro, essa ética torta e leniente que se manifestou ante a apresentação da conta errada, que faz com que bandidos ocupem cargos públicos e o Estado seja pilhado sem clemência.

O raciocínio que leva a essa conclusão é simples. A classe política é um retrato fiel de um povo, quer queira, quer não. Não tem jeito. O deputado, o senador, o vereador, o prefeito, governador ou presidente da República não são seres de outro planeta, mas sim pessoas comuns que foram escolhidas para estar nessas posições. Ora, se o homem comum no Brasil acha normal afanar um troco que veio a mais, e acredita que não tem importância abrir um pacote de biscoitos para comer dentro do supermercado e não pagar, por que seus políticos fariam diferente?

"Ah, não!", reagirão alguns ufanistas mais iludidos -- "A proporção é completamente outra! Eles roubam bilhões, e um pacote de biscoitos custa menos de cinco reais!", já posso ouvi-los gritar, enfurecidos. Verdade. Mas é verdade só em parte. Cinco reais não são nada para mim porque o que eu consideraria "muito" está regulado em função dos meus ganhos. Mas se tentarmos pensar fora da casinha só um pouquinho, veremos que esses mesmos cinco reais podem ser uma fortuna para uma pessoa que ganha só um salário mínimo por mês. E, da mesma maneira, cinco milhões podem ser considerados gorjeta para quem está acostumado a lidar com cifras na casa dos bilhões no seu dia-a-dia.

Coloquem na Câmara dos Deputados um cara que acha normal roubar cinco centavos no troco do pão, e em questão de meses ele estará embolsando o seu troquinho milionário como se não houvesse amanhã -- quase sem perceber que o número de zeros do valor afanado aumentou consideravelmente de um caso para o outro. Como dizia a minha avó: quem rouba um grão...



 Escrito por Rindu às 17:55
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ANTES SÓ...


Ter escrito o post "Placas Tectônicas", que eu publiquei aqui embaixo, me fez refletir um pouco sobre as minhas intolerâncias. Ou critérios, vai saber -- eu ainda não sei direito como chamar isso que me faz determinar quem pode se aproximar de mim ou não.

Talvez "intolerância" seja o melhor termo mesmo, pelo menos enquanto eu não consigo pensar num outro melhor. Porque não consigo encontrar no dicionário nada melhor que descreva a profunda repulsa que me toma de assalto quando eu me deparo com pessoas que usam, ou estão sob o efeito de, substâncias narcotizantes. E quanto mais ilegal essa substância for, maior é a repulsa. Repulsa e desprezo, para ser franco.

É terrível para mim admitir isso, porque eu acho (e sempre tem alguém que se incumbe da tarefa de me relembrar isso) que eu não tenho o direito de me sentir assim. Eu não sou bedel do mundo, não fui feito juiz de ninguém e não tenho nada a ver com a vida dos outros.

Certo, certíssimo. Beleza. Mas isso não resolve nada. Não muda a irritação e o asco que nasce no meu estômago quando me vejo na companhia de alguém deliberadamente bêbado. Ou passado de maconha. Ou eufórico no embalo de ecstasy, special K, GHB ou cocaína. Um asco tão grande que chega a me impelir a me afastar o mais rápído possível, como se eu tivesse sido exposto a uma peste virulenta. E que, nos casos mais "graves" -- ou seja, em que a substância em questão é ilegal e foi conseguida da mão de bandidos -- me atormenta com pensamentos sobre a real conveniência de se manter aquela amizade.

Já tentei dissecar esse sentimento, quebra-lo em partes, para poder entendê-lo melhor. Afinal, com a frequência com que vejo gente usando maconha ultimamente (que, aliás, virou um cigarro como outro qualquer), se continuar me comportando assim eu vou acabar tendo que me mudar para o Atol das Rocas e virar um ermitão. Mas confesso que é maior do que eu. Bem maior.

Eu percebo que existe um componente de irritação bem marcante, por conta do estado alterado de consciência e comportamento que a pessoa em questão deliberadamente busca alcançar. Pode ser uma dose a mais de uma inocente tequila, ou uma única carreira de cocaína: é fato que ver um indivíduo se julgar necessitado daquilo para se achar mais interessante e se divertir mais me desperta um profundo desprezo. É como se de repente escancarassem toda a podridão de suas almas para eu ver, um oceano de insignificância. Esse caráter "recreativo" que tentam dar às substãncias entorpecentes, ilícitas ou não, me faz enxergar nas pessoas que as usam uma legião de bobos de moral inexistente e valores tíbios, que se atiram como uma manada de idiotas num lodaçal de euforia artificial. Cara, na boa: se não consegue se divertir sóbrio, faça um favor à humanidade e não saia de casa. Vá ler um livro e dormir cedo.

Isso sem contar que pessoas drogadas em geral são antissociais. É até um paradoxo rotular as pessoas que em geral parecem ser as que mais se divertem nas festas como antissociais, mas é a mais pura verdade. Drogados e bêbados se excluem da companhia de gente sóbria, mesmo que nunca tenha havido qualquer crítica dos últimos à sua conduta de vida. A explicação que encontro para isso é que drogados são carentes de aprovação social. Por isso se cercam de pessoas que vivem segundo a mesma cartilha, entram na mesma onda, e que nunca vão lembrar-lhes do quão patética e desperdiçada a sua vida é.

Há também uma questão sociológica. Para mim, quem consome drogas sustenta bandidos. Jà fui chamado de míope e simplista por ir na onda do Capitão Nascimento, mas sejamos francos: essa é uma verdade incontestável. O armamento pesado que sitia os morros cariocas não foi trazido pelo Papai Noel, foi comprado com o dinheiro da playboyzada do asfalto que queria ficar doidona. E o mesmo se aplica ao revólver que o pivete usa para assaltar no semáforo, e até mesmo a faca que cravam nas costas dos trabalhadores no centro da cidade. E eu só estou usando o Rio de Janeiro como exemplo por uma mera questão de amostragem, já que as ocorrências de lá têm aparecido frequentemente nos noticiários. Isso vale para São Paulo, Brasília, Araguari e até Cumari. E aí não tem jeito: a lógica desse raciocínio me compele a enxergar no emaconhadinho faceiro do meu lado um inimigo da sociedade, porque é um dos que colabora com a crimininalidade que sitia a população honesta e trabalhadora.

Por fim, tem um componente espiritual, energético, esotérico, metafísico, sei lá. Eu sinto que gente que abusa de álcool e usa drogas emana uma energia muito, muito ruim. Já vi muita gente muito legal, de coração bom e sorriso sincerro, amigos mesmo, envoltos numa urucabaca tão forte que me causou arrepios. A mera presença daquelas pessoas, ainda que sóbrias, em geral me causa um baixo astral tão terrível que eu fico ansioso para me afastar. Já tive a experiência de sair com amigos meus que são usuários e, mesmo eles tendo ficado sóbrios o tempo todo que estiveram comigo, quando voltei para casa tive que entrar debaixo do chuveiro para me livrar de uma opressão no peito que eu não sabia de onde tinha vindo. E, querem saber? Acho que não sou só eu que sinto isso, não. Os próprios usuários percebem isso tudo que eu estou descrevendo. Não conheço um só -- ainda que esporádico, recreativo, sei lá qual eufemismo queiram usar -- que no seu dia-a-dia não viva às voltas com remédios tarja-preta para lidar com uma angústia que eles mesmos não conseguem explicar a origem. Lutam para dormir, para acordar, para trabalhar, para sorrir. É triste de se ver.

Já me afastei de muita gente bacana por causa disso. Já tirei da minha vida grandes amigos, com muita história de amizade para contar, porque não dei conta de compartilhá-lo com a "vida louca". Não hesitei de entregar pessoas queridas a turmas do mal porque não estava disposto (ou não tinha forças) para entrar nesse mundo e disputar o meu amigo. Irmãos viraram lembranças distantes e sorrisos amarelos pela vida.

Uma pena, mas é assim. E nem sei se quereria que fosse diferente.



 Escrito por Rindu às 18:32
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FORÇA, FOCO E FÉ


Eu sou um cara que sempre viveu da-manhã-para-a-tarde, no sentido de planejamento de vida. Não que isso tenha sido assim por opção, até porque eu sou do tipo de control-freak que sofre muito com as incertezas que a vida me serve. Mas a verdade é que eu nunca tive a oportunidade de traçar metas distantes e treinar meu olhar para conseguir enxergar a longo prazo. Pelo menos até hoje, tudo na minha vida sempre foi acontecendo aos solavancos, páginas sendo viradas de uma hora para a outra -- e dá-lhe esforço e lágrimas para me adaptar a novas realidades.

Viver assim fez com que eu não me habituasse a criar raízes e assumir compromissos. Se hoje estava aqui e no dia seguinte poderia não estar mais, por que criaria vínculos? Nunca compreendi na prática o que significa esse "para sempre" que todo mundo enche a boca para falar, mas que para mim nunca se aplicou. E como tudo tem seus efeitos colaterais, essa volatilidade na minha vida também teve o seu: eu me tornei um cínico. Aprendi a viver conforme critérios e valores que eu mesmo construí e atribuía ao que me cercava, muitas vezes sem cuidar de explicar para as pessoas que cruzavam a minha vida quais eram eles. A hora que eu achava que algo já tinha dado o que tinha que dar, não titubeava: levantava acampamento, colocava a viola no saco e um sorriso no rosto, e tocava o barco adiante sem dar muitas satisfações. Acho que isso foi a forma com que eu encontrei de fazer uma caipirinha com os limões que a vida me atirava.

Bom, isso foi assim até hoje. Mas parece que está mudando.

Por algumas poucas razões, mas bem relevantes, eu tenho sido confrontado com o "depois e além" pela primeira vez na minha vida. Não convém entrar agora em detalhes sobre as razões disso estar acontecendo -- o farei quando achar que for o caso -- mas há um bom tempo eu tenho sido instado a fitar algo que está lá na frente, embora ainda envolto nas brumas da incerteza.

Caminhar para uma meta ainda tão distante tem sido um desafio que tem demandado determinação, paciência e estabilidade num grau completamente desconhecido para mim até hoje. E, para piorar, isso tudo acontece sem que eu tenha qualquer garantia de que vá, de fato, alcançar o meu objetivo, e que tudo vai ser como eu espero. Pode ser que dê certo, pode ser que não: a mim só cabe seguir escalando essa escarpa.

A experiência está sendo enriquecedora, sobretudo porque eu estou descobrindo que ela é, na verdade, um exercício de renúncia. E, como bom católico que tento ser, eu sei o quanto a renúncia é um desafio que tem o poder de fortalecer o espírito e forjar o caráter de uma pessoa. Então, renunciar a uma porção de coisas que me cerca, e ir me desembaraçando na vida para conseguir avançar em direção a minha meta, é algo que eu sinto que está me fazendo mais forte. E mais feliz. E, de certa maneira, até mesmo mais santo.

E renúncias não são coisas que simplesmente caem no nosso colo. São coisas que deliberadamente escolhemos e tomamos como nossas, por livre e espontânea vontade. Mesmo que doa. Mesmo que achemos que não vamos dar conta do recado a longo prazo. Ainda assim, por difícil que possa ser, arriscamos e pagamos para ver. Soltamos amarras, viramos as costas ao certo em troca do duvidoso, damos a cara a tapa. Corremos atrás de dois pássaros voando depois de abandonar o que já tínhamos na mão. É exatamente aí que acontece o crescimento. Que nos tornamos adultos de verdade.

Sempre ouvi dizer que cada escolha traz consigo uma renúncia, e acho que estou finalmente compreendendo isso. Ou pelo menos tentando com todas as minhas forças, porque nem sempre é fácil. E nem sempre a determinação consegue ser constante. Mas entre derrapadas, empacadas e quedas, volto ao caminho original um pouco mais forte. E isso me anima a seguir em frente, na esperança de que, quando chegar lá na outra ponta, eu vou ser uma pessoa melhor para merecer tomar posse do meu prêmio.

Assim espero. No caminho, força, foco e fé.



 Escrito por Rindu às 20:05
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PLACAS TECTÔNICAS


De uns tempos para cá eu tenho percebido que a idade tem me feito um pouco menos paciente. Ainda menos do que eu já sou naturalmente -- mas, nesse caso, estou me referindo a um tipo de paciência em especial, que é aquela quase abnegação que às vezes somos compelidos a ter com pessoas difíceis.

Eu estou com quase 40 anos, e em geral as pessoas que vão alcançando idades mais maduras dizem que o tempo as forjou mais resistentes e pacientes com as idiossincrasias alheias. Bem, acho que comigo está acontecendo o processo inverso. E não é para menos.

Sei que eu não sou flor que se cheire. Infelizmente nunca fui. Tenho meu temperamento colérico como meu principal adversário nessa jornada terrena, e com o tempo fui percebendo a enorme quantidade de karma negativo que eu joguei para o universo recentemente por causa dele. O saldo das mágoas que semeei com minhas explosões e patadas é tão grande, tão acachapante, que acabei tomando para mim a missão, quase apostólica, de aprender a enxergar as vicissitudes do meu próprio temperamento justamente tentando apaziguar gente que padece do mesmo mal que eu.

Não foram poucas as vezes que percebi a surpresa de quem me conhece bem com a paciência abnegada com que eu lidava com verdadeiros desafios em forma de gente. É verdade que eu não sofria com isso, primeiramente porque sei quem sou -- e, sobretudo, quem fui. E por isso mesmo me sentia obrigado a lidar com essas situações sem julgamentos nem preconceitos. E também porque havia um certo fascínio meu por essas personalidades complexas, às vezes tão contraditórias, que cruzavam o meu caminho. Lidar com essas pessoas era ser como um lapidador, que consegue enxergar o brilho de um diamante por baixo da crosta de rocha que o envolve. Essas camadas de personalidade que escondem pessoas interessantíssimas é algo instigante para mim.

Mas, se por um lado era bom ver o brilho que surgia, por outro a aspereza da rocha bruta começou a me incomodar. E talvez porque tivessem percebido a minha boa disposição para me aproximar, o convívio com essa aspereza foi ficando cada dia mais brutal e sem limites. Não demorou muito eu perceber que relações que antes me traziam um imenso prazer começaram a me causar desconforto.

E eu fui cansando dos pitis. Dos rompantes de bipolaridade. Das pedradas, patadas, alfinetadas. Da grosseria pura e simples, a conhecida má-educação que na verdade muito pouco se deve a um gênio forte ou a uma história de vida complicada.

Se por um lado eu abusava do meu espírito esportivo para dar seguimento à amizade, por outro eu passei a me exasperar para prevenir atritos com os inocentes que porventura também partilhassem da minha companhia, mas não da minha missão. Virei um goleiro de petardos. Olhos e ouvidos atentos para apanhar no ar e neutralizar piadas sem graça, indiscrições escandalosas, muxoxos, respostas atravessadas. Sentia a minha nuca tensa e suada enquanto manobrava horas de conversa para beneficiar pessoas que não querem se comportar de uma forma minimamente cordial e civilizada.

Pois é, o caldo entornou, como não poderia deixar de ser. Mas não se precipitem pensando que isso aconteceu como costumava acontecer há algum tempo, com algum surto meu. Eu mudei, e meus métodos mudaram comigo. Não houve bate-boca. Não houve rompimentos -- pelo menos da minha parte. Até onde eu sei, contatos no Facebook continuaram intocados.

O caldo entornou porque eu resolvi adicionar um pouco de franqueza nessas relações. E vi que passar a dizer o que penso, na hora certa, e tomando o cuidado para não ofender nem acusar, foi um tremendo divisor de águas. Num caso, deixei de aturar birras de um adulto feito. No outro, pus fim aos abusos de quem sente a estranha necessidade expor pessoas ao ridículo perante estranhos para se achar interessante.

Acho que o que a maturidade tem me ensinado é isso: nem tanto a quantidade, mas a qualidade de relacionamentos é o que importa para uma vida feliz. Simples assim.



 Escrito por Rindu às 20:58
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DE VOLTA PARA O MEU ACONCHEGO


Resolvi voltar. Juro.

Desta vez sinto que vai dar para vir aqui no Quarto 1222 com mais frequência, e exercitar as duas coisas que eu mais gosto de fazer: pensar na vida e escrever.

E há muito do que falar. Nesse longo período de intermitências e sumiços, muita coisa aconteceu. Muita transformação.

Acho que amadureci, de alguma forma -- em geral debaixo de muita porrada, aliás como me é peculiar. Mudei, isso não posso negar, e também posso dizer aliviado que mudei para melhor. Estou mais centrado, acho. Os pés mais pesados no chão, para ambos sentidos da metáfora.

Agora respiro mais cadenciado. E tenho tido mais sucesso no esforço de viver um dia de cada vez. Vindo de onde eu vim, passando pelo que eu já passei, conseguir essas duas coisas são vitórias enormes para mim. Dou graças a Deus por elas.

Pois é, agora é ir desenferrujando e lembrando dos bons momentos que passei aqui no meu refúgio. Quem ainda estiver por aí, seja bem vindo de volta.



 Escrito por Rindu às 19:57
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A PERENIDADE DO TRANSITÓRIO


É uma sensação estranha, e perturbadora. Todos os dias, o tempo todo, eu sou acompanhado pela certeza de que o que eu estou vivendo agora vai acabar em breve. Num dia que vai chegar logo. Estou sempre antevendo o momento em que algo novo vai surgir na minha vida e eu vou ter que recomeçar tudo de novo.

Só que esse dia nunca chega. E eu acabo passando a vida com hóspede da minha própria existência, como alguém que guarda as roupas numa mala dentro da sua própria casa. Estou sempre com a sensação de partida iminente, sem me dar conta que eu não comprei passagem para lugar algum.

Eu ainda não compreendi bem como isso funciona, mas tenho a impressão de que sou prejudicado por esse estado de espírito. Afinal, fica evidente que se eu estou convicto de que em breve vou partir, então para que fincar raízes, criar laços? Vivendo de malas prontas, de chapéu na cabeça, não sobra tempo para me vincular a nada.

E sigo a vida buscando chão firme. Cansado de pisar em nuvens, luto para que algum dia eu realmente conquiste o amparo de saber o que vai acontecer no dia seguinte. Ou no ano que vem.



 Escrito por Rindu às 17:16
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ESTAMOS PASSANDO POR PROBLEMAS TÉCNICOS


Atire a primeira pedra quem nunca passou por isso na vida: estar ótimo, tudo vai bem na vida e, do nada, um dia acordar completamente fora do ar. Lerdo. Passado. A cabeça funcionando pior do que celular da TIM na Avenida Paulista.

Eu não sei explicar o que acontece. É um atordoamento que não passa, como se eu tivesse caído e batido a cabeça muito feio. Uma distração que não desperta, numa letargia mental que me faz ver a vida passar em câmera lenta.

É o dia de comer moscas, dar topadas, ser chamado a atenção a todo instante. Um péssimo dia, enfim, para sair de casa. Ou mesmo sair da cama. Em dias em que o gráfico de um eletroencefalograma seria uma linha reta e morta, devia ser permitido faltar ao trabalho. 



 Escrito por Rindu às 17:18
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VOCÊ JÁ ENCHEU AS SUAS TALHAS?


Em tempos laicos como os nossos, a Bíblia tem caído em descrédito para muitas pessoas. Hoje em dia é considerado piegas tê-la como um norteador da vida. E muita gente de renome tem gasto bastante tempo taxando-a como um livro cheio de fantasias, que instila ódio e leva muita gente a falar ou fazer muita besteira.

Quanta injustiça. Para mim é inegável que a Bíblia é uma fonte constante e sempre atual de argumentos profundamente filosóficos, sobre os quais vale a pena construir toda uma conduta de vida. Além disso, a Bíblia é repleta de mensagens de esperança, de perseverança e, é claro, de fé. Mesmo para quem lê com olhos estritamente literários, a Bíblia tem uma riqueza ímpar a revelar. E se considerarmos que isso quase sempre traz a reboque um momento de reflexão, o lucro é garantido.

Das muitas passagens bíblicas que me chamaram atenção, uma tem sido muito lembrada ultimamente: a que conta a história de uma festa de casamento em Caná. Acho que mesmo quem nunca leu a Bíblia é capaz de identificar essa passagem como a que narra o primeiro milagre de Jesus depois do seu batismo e os quarenta dias que passou no deserto. O vinho da festa estava acabando, e a pedido de sua mãe, Ele transforma água para prolongar a alegria dos noivos.

Pois bem, essa passagem sempre me intrigou por uma série de razões:

1- revela que Jesus era bem festeiro e, mais do que isso, gostava de tomar um vinhozinho;

2- mostra a submissão de Jesus à sua mãe. Ela diz a Ele que o vinho acabou, e a resposta dele não poderia ser mais malcriada: "e o que eu tenho com isso?". Pois Maria não se faz de rogada, e simplesmente manda que os empregados façam o que Jesus disser. E Ele, resignado, obedece.

3- mostra a obediência cega dos empregados da festa. Se fosse eu que tivesse sido mandado encher talhas de 60 litros com água, sendo que o que estava faltando era vinho, eu seria o primeiro a fingir que não era comigo. Pois não, os caras cumpriram à risca a missão de fazer não sei quantas viagens ao poço mais próximo para, aos poucos, encherem as tais talhas.

E é esse último aspecto que mais tem me incomodado ultimamente.

Vira e mexe nos queixamos que o vinho da festa da nossa vida acabou-se. Nos vemos angustiados, na penúria, clamando aos céus por alguma providência que nos devolva a bonança. Beleza, temos mais é que pedir mesmo -- afinal, o próprio Jesus foi quem disse para pedirmos sem medo algum. Mas, do nosso lado, será que estamos fazendo a nossa parte para  o que fazemos para isso acontecer, fora pedir, pedir e pedir?

Com a mais absoluta certeza, se olharmos em volta, encontraremos várias talhas de barro vazias que precisam ser enchidas para que o milagre aconteça em nossas vidas. E não há outro jeito de encher essas talhas, senão com muita paciência, esforço e abnegação. São idas e vindas ao poço, carregando baldes pesados, cumprindo uma tarefa que muitas vezes nos perguntamos qual a serventia. É demorado, repetitivo, e aparentemente infrutífero. Mas, ao mesmo tempo, essencial para que a graça de que tanto precisamos, e tanto pedimos, aconteça.

Essas talhas adquirem vários formatos diferentes. Podem ser o esforço de fazer um regime e cumprir uma rotina de exercícios para quem pede a Deus para emagrecer. Podem ser estudar, e estudar, e estudar para quem pede a Deus por uma nova oportunidade de emprego, um salário melhor, uma mudança de carreira. Podem ser o empenho para se tornar o companheiro que a pessoa que você gostaria por companhia para a vida está procurando.

A lição é simples: Deus está na nossa vida, querendo agir... mas esperando que façamos a nossa parte. E, por causa disso, muita gente está morrendo de sede na beira de um poço.



 Escrito por Rindu às 16:47
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