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A ARTE DE DIZER NÃO

Um amigo me contou que estava de paquera com outro cara na internet. Durante um bom tempo convesaram todos os dias, trocaram fotos, e a coisa parecia que daria certo. Até o dia em que finalmente conseguiram se ver pela webcam. Meu amigo não soube explicar o que houve, só que sentiu uma enorme repulsa ao ver o cara que até minutos atrás parecia uma aposta certa para um namoro. Era a mesma pessoa das fotos, não havia dúvida, mas vê-lo em movimento e ainda por cima com som teve um efeito deletério nas suas idealizações. Imediatamente ele quis se desvencilhar, mas não sabia como fazê-lo. Afinal, haviam passado muito tempo conversando, e havia um certo laço que os unia. Não dava para simplesmente dizer "não rola", fechar a cam e bloquear o MSN. E o que era mais agoniante era perceber que tamanha decepção só estava do lado de cá da webcam; o cara parecia bem disposto a se encontrar com o meu amigo. Foi então que teve início a mais bizarra manobra para desencorajar uma pessoa que eu já tive notícia. Meu amigo começou a inventar as piores barbaridades possíveis, na esperança de escandalizar e ser dispensado. Disse que era absolutamente afeminado. Que gostava de usar calcinha de renda (detalhe: trata-se de um brutamontes bombado de quase metro-e-noventa). Que era exclusiva e furiosamente passivo. E, o que ele pensou que seria o xeque-mate: que gostava de ser escandaloso na cama. Para seu desespero, todas essas revelações tiveram o efeito de gasolina na fogueira do lado de lá. O cara estava cada vez mais mais entusiasmado e queria porque queria marcar um encontro logo. Meu amigo ficou desesperado, e resolveu engrossar a artilharia na base do agora-vai-ou-racha. Inventou que gostava de kinky sex. Que tinha tesão em coisas tipo fisting, golden shower, fezes e o escambau. Que curtia sexo violento, que tinha a fantasia de ser estuprado, que era adepto de sexo grupal e orgias inomináveis. A situação piorou ainda mais: a essa altura o cara já estava apaixonado. Disse que o meu amigo era o homem que ele sempre sonhara. Que estava disposto a dar casa, comida e roupa lavada em troca de uma vida inteira de sexo bizarro. Aí não teve jeito: rolou o bloqueio súbito mesmo. E meu amigo foi imediatamente tomar um banho com sabão de barra, porque se sentia sujo com toda aquela conversa absurda. É engraçada (ou na verdade trágica) a enorme dificuldade que temos para expressar o que sentimos -- seja esse sentimento tanto algo positivo como negativo. Sofremos para dizer que gostamos de alguém, e sofremos ainda mais para dizer que não gostamos de quem gosta de nós. Vez por outra nos vemos nessa situação de estarmos como que agrilhoados a alguém que nos dedica um sentimento que não conseguimos corresponder, sem jeito para nos desvencilhar, e sofremos com a demora para resolver essa situação. Quando eu fiz intercâmbio, estudei na aula de literatura uma peça de Tennessee Williams chamada "The Glass Menagerie", que contava a história de Tom Wingfield e o seu dilema por libertar-se das garras da mãe manipuladora e da dependência da irmã meio retardada. Lembro-me que numa cena Tom narra que tivera um sonho, no qual estava preso numa caixa de cristal (como a cristaleira da irmã que dá nome à peça), e que tentava sair dali sem quebrar nada, como vira Houdini fazer num espetáculo de mágica. Entendi que esse sonho representava o anseio de Tom de livrar-se da mãe e da irmã, sem contudo machucar seus sentimentos. Só que isso era impossível, e no fim da peça o próprio Tom entende isso. Só psicopatas e gente patologicamente egoísta são capazes de infligir sofrimento sem sofrer também, isso porque quase nunca o fato de não amar alguém significa desprezo pelos seus sentimentos. A verdade é que há níveis distintos e estanques de relacionamentos, e uma dos dilemas mais angustiantes que a vida pode reservar para nós é percebermos que alguém nutre por nós algo de uma forma que não encontra nenhum eco no nosso coração. Lidar com uma situação dessas é uma prova de fogo para a maturidade de qualquer um, e é também o contraste que diferencia os vermes covardes das pouquíssimas pessoas que honram a sua condição de bípedes eretos e dotados de polegares opositores. E o pior é constatar que quase nunca essa covardia tem a ver com o fato de causar sofrimento no outro; na maioria das vezes o que nos assombra é o medo de perder o certo pelo incerto, e nos entregarmos à solidão e à carência depois de despedirmos quem, bem ou mal, supre essas necessidades. Ou seja: no fim das contas nos preocupamos conosco mesmos. Sendo franco (e certamente comprometendo a conclusão desse post), eu já me adianto que acho que só há uma saída para uma situação assim: dizer a verdade, nua e crua, tão logo ela seja descoberta. É sentar, olhar no olho, e usar a própria voz -- não vale mandar escrever cartinha, mandar SMS ou mensagem no Facebook (ou no Orkut, para os defasados). reconhecer o sentimento da pessoa ao mesmo tempo em que expõe a impossibilidade de dar-lhe correspondência. Ser honesto. Se antes não faltou disposição para vir buscar companhia, beijinho e sexo, agora é a hora de ter a honradez de também arcar com a responsabilidade do cativeiro que cultivou (nesse ponto vale ler "O Pequeno Príncipe"). E, o mais importante de tudo: fazer o compromisso pessoal de honrar a palavra, aguentar o tranco da carência e da solidão que virão, e jamais ir perturbar aquela pessoa novamente. Essa via direta é a mais eficaz, claro, mas também é a mais difícil. Requer muita coragem e tato para que não descambe numa cafajestagem insensível, nem caia num enorme ralo em que vai fazer essa história girar, girar, girar e nunca se definir. Para escapar dela, as táticas conhecidas são muitas -- a maioria não tão radical nem tão engraçada como a que o meu amigo empregou na história que eu contei lá em cima. A principal delas é a "Manobra de Penélope": consiste em você ir desfazendo o relacionamento paulatinamente, como quem desfaz uma peça de tricô puxando o fio da meada. São aplicadas doses crescentes de indiferença dia após dia, até que a pessoa perceba que aquela história acabou. Assim, o sexo primeiro torna-se morno, depois cada vez mais esparso até que por fim se extinga de vez. Os beijos se tornam selinhos, que por sua vez vão rareando até também desaparecerem. Por fim o que sobra de um proto-romance vira uma brodagem carinhosa, até o ponto em que se começa a apresentar novos pretendentes para quem outrora foi o amor para a vida. Há ainda o "Tática do Chifre em Cabeça de Cavalo", que é de execução bem mais simples embora tenha como efeitos colaterais provocar gravíssimos distúrbios paranóicos em suas vítimas. Basicamente o procedimento é passar a criar caso com absolutamente tudo que diz respeito à pessoa. Implicar com a roupa. Com o jeito de beijar. Com os amigos. Com o que ela fala, ou deixa de falar. Criticar a família. Enfim, fazer do relacionamento um inferno até que o pobre-coitado peça para sair. Para os veteranos com mais experiência nessa tática, há quem consiga fazer isso tudo só que ao contrário: se tornar passivo-agressivo furioso, e fazer a pessoa se sentir péssima ao convencê-la que é ela -- e não você -- que está pondo o relacionamento a perder. Faça isso por um tempo e então termine com tudo com uma cara compungida (e falsa) de injustiçado. Por fim, no fundo do saco de maldades está o famigerado W.O., ou simplesmente Síndrome da Amnésia Pós-Coito. Jargão esportivo, W.O. é a sigla para walkover: retirada do time de campo, o abandono da partida. Aquele golpe baixo que só já sentiu quem um dia acordou e descobriu que estava namorando sozinho. Cúmulo da covardia e da irresponsabilidade, trata-se de ignorar o fim do relacionamento simplesmente negando-lhe a existência desde sempre, seguindo a filosofia do "se não me lembro, não aconteceu". Fundamenta-se na indiferença que pode ir desde da simples mudança brusca de tratamento (de namorado para amiguinho) até o surto patológico que leva a ligações não atendidas, recados não retornados, MSN bloqueado, Facebook deletado e estranhamento social de uma hora para a outra. Em suma, crueldade em seu grau mais vil. Seja como for, tudo isso nasce do direito (na verdade um dever) de sermos sinceros conosco mesmos e com os outros. Ninguém é obrigado a, sob que pretexto for, beijar e se entregar a alguém só por medo de magoá-la, ou ainda dedicar o precioso tempo da sua vida nutrindo algo por alguém que não é capaz de corresponder à altura. Antes ser mal compreendido e mal falado do que estar mal acompanhado, justamente quando a pessoa certa pode estar por perto e solteira.
Escrito
por Rindu às 13:02
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TOMANDO IMPULSO

Não sei por que eu tenho o hábito de, a cada começo de ano, tecer um vaticínio para os 365 dias que estão vindo em seguida. Não saberia dizer se o que eu digo é realmente uma previsão do que se avizinha, ou o enunciado de uma predisposição minha que vai acabar influenciando o que vai acontecer na minha vida nos meses subsequentes, mas fato é que eu raramente me equivoco. Sabe-se lá de onde vem essa certeza que enche a minha mente com tamanha convicção, e na verdade não acho que isso importe tanto assim. Para mim o que pega é prestar atenção nessa sensação e a partir dela ir comparando com o que vai acontecendo. Em janeiro de 2011 eu declarei que aquele seria um ano difícil, um verdadeiro vale de lágrimas. E olha, eu não poderia ter acertado mais. Foi um ano de muitas conquistas importantes e muita coisa boa, sim, mas também foi um ano que começou e terminou com decepções bem complicadas de serem digeridas. Nada que me matasse, claro, mas com certeza foram experiências que hoje, olhando em retrospecto, me fazem questionar se era mesmo necessário que eu passasse por elas. É foda quando a gente percebe que pessoas que a gente num momento julgou tão importantes mais tarde mostraram-se essencialmente irrelevantes, e que a gente desperdiçou uma quantidade imensa e inútil de energia com elas. Bom, talvez esteja aí a lição: avaliar primeiro, dedicar-me depois. Para 2012, no entanto, o prognóstico é bem melhor. Em resumo, eu diria que será um ano de transformações -- de certa forma semelhante, mas muito melhor, do que 2010 foi. Para que se tenha uma ideia mais clara do que eu estou falando, imaginem passar muito tempo pagando um título de capitalização: uma grana sofrida que todo mês é sacrificada em nome de algo que ninguém sabe para o que serve. Pois bem, em 2012 será o resgate desse investimento. Sacrifícios, esperas, abnegações, privações, tudo isso será compensado nesses próximos meses, podem apostar. Essa convicção é tão forte que eu comecei o ano com aquela sensação de sentir os meus músculos retesarem, preparando-se para dar um grande salto. Em qual direção será esse salto, eu não tenho nem mesmo a mínima noção, mas sinto a necessidade de estar pronto para quando a hora chegar. E isso é um pouco complicado, porque eu ainda não me sinto com as forças plenemante restabelecidas. Então tenho que juntar o restinho de energias que tenho para dar o máximo de mim. Vai ser duro, até doloroso, mas eu sei que o esforço vai compensar. Então vamos que vamos.
Escrito
por Rindu às 12:18
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QUERO NÃO

E já se vai o dia 03 de janeiro, e começamos a considerar definitivamente 2011 como passado. Vamos nos acostumando a falar "no ano passado", ou "em 2011...", enquanto recapitulamos o que aconteceu nos últimos 365 dias e fechamos a contabilidade de perdas, ganhos e aprendizados. Isso me faz pensar como é engraçado esse hábito de classificar os períodos de nossas vidas pelos anos em que as memórias foram acontecendo. Acho que é disso que nasce uma nostalgia meio escapista que é tão comum. Sempre se ouve alguém dizer que gostaria de poder voltar para um determinado ano já bem longínquo no passado, como se aquele conjunto de quatro números encerrasse em si mesmo algum poder mágico de atribuir felicidade. Eu não poderia agir de maneira diferente. Também tenho cá a minha listinha de anos memoráveis e anos execráveis: 1984, 1986, 1991 e 1992, 1995, 1997 e 2007 são anos cujo saldo final foi bem positivo, a ponto de merecerem uma certa nostalgia quando são lembrados; por outro lado 1987, 1989, 1993, 1999 e 2002 merecem um arrepio mesmo à mais sutil lembrança. São anos que só me proporcionaram a alegria de tê-los sobrevivido, e mais nada. À medida em que 2011 se vai, vou percebendo que o gostinho que ele deixa para trás não é dos melhores, não. Não que os últimos anos sirvam como comparação, mas para mim é inegável que 2011 conseguiu a proeza de agregar muito mais lembranças amargas do que 2010, que sempre vai ser lembrado como um ano ruim por tudo o que eu tive que enfrentar. No ano retrasado eu tive que enfrentar um monte de dificuldades e superar um punhado de obstáculos que pareciam por à prova a minha capacidade mental e física. Passei pela a ruptura com as minhas raízes em Brasília e a luta até achar um teto e começar a fazer um ninho em São Paulo. Foi duro, sofri um bocado, mas nem de longe foi tão difícil como 2011. Fato é que o ano passado vai para sempre ser lembrado porque eu quase sucumbi e voltei à tênue fronteira entre a sanidade e a loucura. Nesses últimos 365 dias eu levei cada fibra do meu coração quase ao seu limite máximo de exaustão -- e a perdição completa só não se deu por força da mão de Deus. No último momento eu consegui juntar o que restava de equilíbrio em mim e consegui sair do tubilhão que a minha vida se tornou. Foi por pouco, bem pouco. Agora que estou tratando as feridas e recuperando as forças, percebo assustado a dimensão do que eu encontrei pela frente nesses últimos meses. É impressionante para mim constatar o quanto eu fui ingênuo, mesmo do alto dos meus 36 anos de idade. O quanto eu fui crente numa pretensa retidão de propósitos que, no fim das contas, simplesmente provou-se sordidamente mentirosa. Me fiz de bobo e me deixei usar até o ponto de conhecer da pior maneira possível até onde pode ir o egoísmo e a falta de princípios que só o caráter mais questionável pode urdir. Bom, ficou o amadurecimento, o aprendizado. A verdadeira comprovação da máxima nietzchiana de que o que não nos mata, torna-nos mais fortes (e no meu caso, mais duro). Sigo em frente como tem que ser, peito aberto e consciência limpa, guardando no fundo do coração aquela inquietante certeza escorpiana de que o mundo não é redondo à toa. A lei da ação e da reação é implacável: fatalmente aquilo que fazemos pela frente há de nos alcançar de surpresa, na mesma medida, por trás. Não sei se me serve de consolo imaginar quais cartas a vida guarda na manga nesse jogo meio estranho do aqui-se-faz-aqui-se-paga. Prefiro não pensar nisso até a hora que chegar a minha vez de jogar. Por ora, só sei que voltar para 2011, eu não quero, não.
Escrito
por Rindu às 16:55
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PORQUE ÀS VEZES É MELHOR DEIXAR DE LADO

"Se a gente não tivesse feito tanta coisa, Se não tivesse dito tanta coisa, Se não tivesse inventado tanto Podia ter vivido um amor Grand' Hotel". "Grand' Hotel", Kid Abelha Quem ama perdoa. Essa é uma das máximas mais repetidas em relação à enorme resiliência que é a característica mais marcante do amor. A própria Bíblia já diz que "o amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. (...) Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". No entanto, se engana quem cai na esparrela de achar que essa capacidade de regeneração do amor torna o coração blindado contra qualquer ameaça, porque isso simplesmente não acontece. Tal qual um prego que é fixado numa madeira e depois é retirado, as mágoas também deixam marcas depois que são perdoadas... e essas marcas são cicatrizes duras, insensíveis, pouco flexíveis. De forma que uma ou outra pode acabar passando despercebida, mas se começam a se acumular em grande quantidade, podem acabar comprometendo toda a capacidade de amar de uma pessoa. E para isso acontecer não precisa uma grande catástrofe, não. Fato é que o amor não é algo que é feito para ser posto à prova à torto e a direito. É para ser trazido com as duas mãos, cuidadosamente, com todo o zelo que pede a fragilidade que lhe é peculiar. Quando abandonado à sua própria sorte, o amor se ressente e é daí que surgem suas cicatrizes. Há alguns posts atrás eu escrevi sobre os não-ditos -- e acredito que sejam eles um dos maiores causadores dessas feridas mal cicatrizadas nos corações das pessoas. O amor é algo que tem que ser vivido, não conversado. Quando se tenta oralizar o que se sente por alguém, tudo cai num ralo de relativismo que empobrece e empalidece qualquer emoção. O que deveria durar para sempre, permanentemente se retroalimentando, parece ser largado à míngua, e acaba por definhar. O amor começa a morrer por dentro, até que o que sobra dele é uma casca oca e seca de inércia e formalismo. Por isso que tem horas que o melhor é calar-se. Não atender ao telefone, não responder mensagens, não dizer nada. Quando não há absolutamente nenhuma novidade a ser dita (ou melhor: quando tudo o que precisava ser dito -- e ouvido -- já o foi), o melhor mesmo é não tocar mais no assunto. Deixar para lá, esquecer, para definhar de vez. Ou para guardar para o futuro. Tocar em frente, ou fingir que consegue fazer isso.
Escrito
por Rindu às 16:33
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O SILÊNCIO DEPOIS DA CHUVA
Todo rompimento é traumático. E é assim porque é assim que tem que ser. Rompimentos necessitam ser bruscos, até mesmo cruéis, sob pena de simplesmente deixarem de ser rompimentos para se degenerarem em algo que é só "um tempo". O esparadrapo arrancado de uma vez só da ferida infeccionada causa mais dor, é verdade, mas também bem menos dano do que a ilusão de que aquela situação poderia ser deixada de lado para se resolver por si mesma. Quando a dor rasga nossa alma de cima abaixo, nos debatemos meio cegos, por instinto. Dizemos coisas desconexas. Portas são batidas, paredes esmurradas, e tudo o que há em volta que lembre esse passado recente, cujo esquecimento de repente torna-se urgente, parece precisar ser imediatamente eliminado. Na vida virtual que todos temos, isso se vê principalmente nas redes sociais: uma torrente de exclusões, bloqueios, deletadas acontecem -- que na verdade nem precisavam acontecer. Como um mar de ressaca que inunda o litoral e depois volta ao limite costumeiro da maré, eu também revogo algumas sentenças que a sensatez me mostra serem por demais severas. Rompimentos não significam inimizade; são só o que o seu nome infere: uma despedida definitiva.
Escrito
por Rindu às 17:40
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A ARTE DE DIZER CHEGA

A tradição chinesa atribui a existência da vida ao fluxo de uma energia cósmica que eles chamam de chi, que deve ser mantida constantemente fluindo. Quando o fluxo dessa energia é interrompido, seja por que motivo for, a desarmonia se instala. Surgem as doenças, as loucuras, a tristeza, a morte. Interromper o chi é a receita certa para a catástrofe. O chi tem vontade própria, e embora ele até possa ser condicionado em alguma medida, ele decide sozinho para que lado vai fluir. E é aí que se revela o seu maior poder: na vontade. A vontade é um poder quase ilimitado que todos possuímos. É bem verdade que ele é uma força indomada, porque não conheço quem consiga condicionar o seu querer. A vontade é a única coisa que nos separa do impossível. Querendo, somos capazes de qualquer coisa. Se não temos o poder de condicionar a nossa própria vontade, por outro lado temos como tolher a vontade alheia. Existem mil mecanismos para impedir que a vontade flua como bem entender, e se há alguns que aceitamos como convenções sociais (e esse aceitar acaba tornando essa limitação também parte da nossa vontade), há aqueles que nos são impostos por meio de toda sorte de constrangimentos. Esses sim têm o poder de fazer a existência de qualquer pessoa absolutamente miserável, porque o chi se paralisa. Quem vê a sua vontade agrilhoada por um motivo que não reconhece como necessário nem cabível, sofre. E sofre muito. A reação é imediata: surgem as ansiedades, o mau humor, a depressão, os problemas digestivos. Noites mal dormidas, o constante rilhar de dentes, os choques disparados na sombra. A vida perde a cor e o sabor, e uma nuvem negra parece pairar sobre nossas cabeças. Criado -- ou melhor, amestrado -- como eu fui, acho que posso dizer que mais do que ninguém eu conheço essa sensação. Quando a gente se deixa esquecer continuamente das nossa vontade para fazer a vontade dos outros, abre-se uma verdadeira chaga na nossa alma. Uma ferida que dói, infecciona, e que corrói o nosso estado de espírito até a nossa desfiguração. Passamos a deixar de ser quem somos para nos tornarmos uma criatura ranzinza e tensa. O jeito para isso? Só conheço um: erguer o queixo, plantar o pé no chão, e dizer chega. Arregaçar as mangas e ir à luta sem pedir licença para absolutamente ninguém. Pode parecer assustador -- e é, na verdade -- mas é só na base da ruptura que a gente consegue sentir aquele gostinho de liberdade que há muito tempo esquecemos como é. A partir daí é que vemos como tudo parece mudar. Rejuvenescemos. Tudo parece passar a conspirar para a harmonia, para a paz, para a alegria. A saúde melhora, o sono melhora, a digestão melhora. A vida volta a fluir à nossa volta. O que era trevas torna-se luz. E aí a gente encontra o nosso raio de sol particular.
Escrito
por Rindu às 16:06
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DE VOLTA AO NINHO

Quando eu vim morar aqui em São Paulo, passei a conviver com um monte de gente que também vive separado da família. Gente como eu, mais ou menos na mesma faixa etária e no mesmo momento de vida, que também se propôs a abandonar o ninho e vir para cá atrás de alguma coisa. É engraçado como a gente acaba formando meio que uma comunidade, uns ajudando os outros para tentar contornar um pouco a solidão que invariavelmente vem com a saudade. E olha, é fato: não importa se a família está perto ou longe, ou se a relação que se tem com os parentes é boa ou má, a saudade aperta igual. Sempre que eu posso eu fujo de volta para a minha terra, para a minha casa, para o meio dos meus. Qualquer oportunidade que tenho corro para o colo da minha mãe, e isso é muito importante para mim. Não quer dizer que eu rejeite São Paulo, ou não goste da vida que tenho aqui. Na verdade eu gosto de estar onde eu estou, e também gosto muito dos amigos que fiz nesses quase dois anos. Independente disso eu sinto uma necessidade tremenda de recarregar as minhas baterias nas minhas raízes de vez em quando. É lá que eu me lembro de quem sou, do que é realmente importante para mim, e me sinto revigorado para enfrentar os leões diários que eu tenho matado por aqui ultimamente. Na maioria das vezes fazer esse retorno ao ninho não é uma tarefa fácil. Fora a questão tempo e dinheiro que ela demanda (afinal foram muitos feriadões que eu poderia ter aproveitado numa praia que eu dediquei a voltar para o Quadradinho, né?), há também a questão do desgaste psicológico. Afinal, sejamos francos: poucas coisas têm mais poder de arrasar ou irritar a gente do que a nossa família. E quando a gente passa muito tempo longe, criando as nossas próprias manias e estabelecendo o nosso próprio ritmo de vida, voltar a submeter-se aos nossos pais, sacrificando privacidade e liberdade, pode ser uma verdadeira tortura. Mas querem saber? Eu acho que ainda assim vale a pena. Eu percebo o quanto minhas angústias e carências parecem se curar quando eu estou ali em casa, ouvindo aquele ruído que tanto me lembra a infância e a adolescência. Os cheiros, a comida da Venina, o simples fato de eu estar de volta em casa parece ter um intenso poder restaurador em mim. Feridas fecham-se, a cicatrização de traumas e desgastes parece se acelerar, e vou me sentindo mais forte a cada dia. Voltar para casa sempre teve o efeito de interromper uma queda, e ser uma catapulta para me impulsionar de volta para cima. E olha, não pensem que isso é assim porque a minha família é pefeita, não. Os que me conhecem há mais tempo (ou lêem o Quarto 1222 desde os seus dias mais sombrios) estão carecas de saber que a minha família é tudo, menos certinha. E sabem que eu, tanto quanto muita gente que eu conheço por aí, também fui abandonado, perseguido, humilhado, escorraçado, ofendido e agredido por aqueles que eu mais amo -- e achava que deveriam me amar de volta na mesma medida. Eu poderia viver a minha vida em função de nutrir esse rosário de mágoas, mas num dado momento preferi agir de maneira diferente. E sou forçado a admitir que absolutamente tudo na minha vida mudou a partir do dia em que eu resolvi colocar tudo isso para trás, e passei a focar no que há de bom no fato de eu ter uma família. Acabou que eu encontrei aí um tesouro inestimável, cujo valor em muito supera o custo de tantos atritos do passado. Uma verdadeira fonte revigorante, que hoje é um dos maiores motivos para eu dar graças a Deus por estar vivo. Conheço muitas pessoas que parecem não terem sido capazes ainda de superar esses percalços que todo mundo conta na vida. Vivem aqui sozinhos como exilados, num constante esforço de dar as costas para o que deixaram no passado. Elegem amigos como a sua família, numa tentativa meio frustrada de se convencerem (ou se enganarem) que esses, por melhores que sejam, são capazes de suprir o que na verdade só a família é capaz de fazer por nós. Amo meus amigos, e alguns deles são de fato considerados uma proto-família para mim. Mas também sei que não há laço de amor no mundo que supere o poder de um laço de sangue -- por pior que ele possa ser. Já percebi que quando uma pessoa se separa de suas raízes, seja por vontade própria ou por se deixar levar pela vida, começa a definhar por dentro. Endurece, torna-se insensível, descrente, até mesmo cínico. Acaba por perder-se paulatinamente num abismo de carências praticamente insuportáveis que vai sendo cavado na sua alma com o passar do tempo. Esse processo não ocorre despercebido. Mesmo de maneira inconsciente, essas pessoas tentam desesperadamente suprir essa lacuna de referenciais que surge. E é nesse cenário que surgem um monte de relacionamentos co-dependentes, vazios de propósito e sentimento, alimentados por uma inércia simbiótica alienante da verdade, obsessiva e meio doentia. Ou ainda a anulação do próprio self em favor do meio: surgem os guetos, as tribos e com eles o abandono de valores e morais adquiridos desde sempre. Frequentemente isso acaba numa vida promíscua e auto-destrutiva, onde é bem comum drogas e álcool comporem esse quadro trágico. Lembrar-nos de quem somos num contexto tão adverso como o que enfrentamos aqui, longe dos nossos referenciais, é uma tarefa muito difícil. Antes, tudo parece nos levar a esquecermos a nossa própria identidade, nossos sonhos, nossos valores, a moral que nos foi passada desde o primeiro dia da nossa existência. Andamos como que na beirada de um abismo, onde é muito fácil escorregar e ser tragado por esse turbilhão que ruge à nossa volta. Resistir a isso fica cada vez mais difícil quando lutamos sozinhos, e é aí que entra em ação o poder revigorante que só vem das nossas raízes. É por isso que é imperioso que se tenha uma real disposição ao perdão: se grande é a mágoa, maior é o custo do perdão, sem dúvida nenhuma. Mas muito maior ainda é o benefício que se obtém dele. O esforço de se auto-afirmar precisa ser constante, é verdade, e igualmente grande tem que ser o sacrifício de perdoar o que para muitos seria imperdoável. Afinal, amar é perdoar. E eu já descobri que muitas vezes o amor verdadeiro não nos deixa ficar esperando por um pedido formal de perdão de quem nos machucou. O perdão é algo que é dado não por merecimento do perdoado, mas por magnanimidade de quem perdoa. E nesse ponto vale lembrar que "magnanimidade" vem do latim magna anima, ou seja: a alma maior. Perdoar é tentar ser maior do que a ofensa e, muitas vezes, maior até mesmo que quem está sendo perdoado. Acreditem: o perdão liberta muito mais quem perdoa do que quem é perdoado; palavra de quem já viveu essa experiência. Uma vez me disseram que guardar uma mágoa é como tomar veneno para que outra pessoa morra. Por mais engraçado que esse absurdo seja, é a melhor descrição do que é ser rancoroso. Por pior, mais louca, desajustada e problemática que a nossa família seja, ela ainda assim é a nossa família. Somos frutos daquela árvore, e queiramos ou não, é dali que conseguiremos retirar a verdadeira força para enfrentar a vida. Colo de mãe não tem preço, mesmo que ela seja uma megera enfurecida. E por fim, vale enumerar os três argumentos que, para mim, são os definitivos: (1) perdão se dá e se recebe em vida; (2): mágoa é dívida que só é saldada perdoando-se. E por fim (3): ninguém vive para sempre.
Escrito
por Rindu às 13:20
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MY OWN PRIVATE SUNSHINE

Tenho um amigo que é daquelas pessoas que parecem estar o tempo todo debaixo de um facho de luz. Um raio de sol particular, que faz com que ele resplandeça uma alegria e um otimismo que gente como eu -- sorumbática e soturna por natureza -- simplesmente não entende de onde vem. É impressionante: na incerteza, na adversidade, nas guinadas bruscas que também a vida dele dá, lá está ele com seu sorriso radioso e franco, ao passo que eu provavelmente estaria desmoronando. É de se invejar. Em geral gente feliz demais me irrita. Sou meio como aqueles cachorros velhos e rabugentos, que rosnam para os filhotinhos mais alegres que ainda não experimentaram o fel da existência. Mas com esse meu amigo, é diferente. De uma maneira estranha, a alegria dele não me ofende, mas me faz bem. Se não me alegra também, pelo menos me apazigua -- e é por isso que eu me pego ansiando por encontrá-lo quando a coisa parece ter ficado preta para o meu lado. Começou em janeiro deste ano, depois de eu ter passado por uma das maiores decepções que eu já experimentei nesta vida. Juro que ele seria a última pessoa que eu quereria encontrar naquele momento, porque nessas horas o melhor é a gente guardar as nossas chorumelas para nós mesmos. Mas ele me ligou, insistiu, marcou um encontro e quando eu menos dei por mim, estava aos prantos bem na sua frente, no pátio do vão do MASP. E então veio a grande surpresa: ele chorou comigo. Chorou sorrindo, mas chorou de coração. Partilhou daquilo que estava me corroendo por dentro sem julgamentos ou críticas, só acolhimento. E no final me deu um abraço que renovou o meu dia. Hoje em dia ele está longe. Mas como o conceito de longe relativizou-se com a existência da internet, acho que temos mantido mais contato agora do que antes, quando ele ainda morava em São Paulo. E estando ele também numa situação extrema, tendo que passar por uma série de adaptações e enfrentando novidades todos os dias, a nossa partilha parece ter aumentado. Choramos juntos às vezes, mas rimos juntos um bocado também. E eu estou louco para poder ir vê-lo lá na casa nova dele assim que puder. Porque, né? férias no Caribe do lado de alguém tão especial não tem preço. Foi ele que me perguntou recentemente por que eu não escrevia "umas coisas mais alegrinhas". Achei graça disso na hora, confesso, porque essa sugestão dele me pareceu completamente sem sentido. Ora, eu escrevo o que sinto, e se não fizer isso o que sai são textos sem alma, rasos, mortos. Perguntei a ele o que seria de Clarice Lispector sem o seu niilismo, ou de Erico Veríssimo sem o seu fatalismo. O que seria de mim sem meu existencialismo? Depois da nossa conversa, eu fiquei um tempo pensando no que ele me disse. "A boca fala daquilo de que o coração está cheio", diz a Bíblia, e isso me fez refletir se não é chegada a hora de eu pelo menos tentar focar um pouco mais no contorno prateado nas nuvens negras que às vezes enxergo no meu horizonte (ou bem em cima da minha cabeça), do que na sua negritude em si. É um exercício a se fazer... e que não há de ser dos mais fáceis porque ando bem acostumado a dar uma de Hardy Har-Har. Não acho que os posts ficarão piores. Só mudarão o foco.
Escrito
por Rindu às 12:45
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NAS GARES DA VIDA

Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, o SBT exibia uma série em desenho animado que eu adorava: "Marco, dos Apeninos aos Andes". Era um anime que contava a história de um menino italiano cuja mãe havia emigrado para a Argentina, e com o passar do tempo parou de dar notícias. Então o garoto resolve ir atrás dela sozinho, numa aventura repleta de um dramalhão dos mais lacrimosos. No caminho ele tem um monte de contratempos, sofre um bocado, chora outro tanto, e no final das contas encontra a mãe quase morta. Mas ao vê-lo, a mulher cria novas forças para enfrentar uma cirurgia, fica boa e então volta com o filho para a Itália. Em meio a tantas lágrimas diárias, eu me lembro que uma das cenas que mais emocionava era a da partida da mãe, no porto de Gênova. Todos se despediam ainda quando o navio começava a se mover, e Marco tentava manter-se próximo da mãe correndo pelo pier até que tudo o que restava era mar, e ver o navio afastar-se em direção a América do Sul. Eu chorava a cântaros assistindo essa cena. Eu nunca prestei para despedidas, não. Admito que o letting go não é uma das minhas maiores habilidades. Embora essa imagem do navio se afastando seja muito emblemática, para mim são as gares, e não os píeres, os cenários mais significativos de despedidas. Isso porque ao passo que na imensidão de um navio quem parte frequentemente está distante de quem fica, a única coisa que separa o passageiro de um trem de quem se despede dele na plataforma são os limites do vagão. E enquanto não chega a hora da partida, eles podem se ver, conversar, até se tocar. A cerimônia do adeus em sua mais pura essência, que só se interrompe quando o trem apita e começa a se mover lentamente, soltando um lamento doloroso pelas saudades que carrega. Eu acho que a vida é muito semelhante a isso. Frequentemente nos vemos como numa gare a dar adeus, experimentando o paradoxo da presença e da ausência simultâneas que só a iminência da despedida nos traz: a alma já sofre com a saudade, embora quem vai partir ainda esteja bem ali na nossa frente. Então buscamos estocar lembranças com o desespero de quem tenta salvar seus bens da destruição de um incêndio, porque sabemos que cada abraço, cada olhar, cada beijo, pode ser o último. Rezamos com todas as forças do nosso coração para que esse último momento dure para sempre, mas não tem jeito. Ele termina mais cedo ou mais tarde. De uma hora para outra sentimos o tranco da separação, e pouco a pouco nos vemos apartados de quem tanto amamos. É verdade que ainda tentamos resistir. Corremos pela plataforma tentando acompanhar o trem que se vai, mas ela tem um fim. A partir dali só existe a saudade. Quem está partindo ainda põe-se para fora da janela do vagão, tenta desesperadamente conservar na retina essa última imagem de quem fica, busca por um último abraço... até que entende que não há mais como isso acontecer, e que só resta resignar-se e enfrentar o novo que se aproxima. Isso não depende de quem vai, nem de quem fica. É o maquinista do trem -- ou a própria vida, num sentido figurado -- quem decide que é chegada a hora do adeus consumar-se. A nós, só restam as lágrimas.
Escrito
por Rindu às 12:48
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SO HARD

"Nobody said it was easy Oh, it's such a shame for us to part Nobody said it was easy None ever said it would be so hard Oh, take me back to the start." "The Scientist" Coldplay
Escrito
por Rindu às 12:44
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O GRANDE ABISMO DOS NÃO-DITOS

O discurso é como uma nau que faz vela com um destino certo, traçado. Uma viagem que se inicia com a pretensão de terminar bem. Mas nessa travessia o imprevisto pode acontecer: tormentas, nevoeiros, vagas monstruosas que parecem abrir o ventre do mar para engolir todo o barco. Um vento inesperado que pode fazer o mastro se partir, a vela rasgar. O leme que se perde, ou o casco que simplesmente se rompe e põe tudo a pique para sempre. As palavras têm esse poder dúbio: ou são certeiras como uma flecha, ou são como sereias que confundem os marinheiros, roubando-os de seu curso para fazê-los vagarem para sempre pelo mar, sem saber onde estão nem para onde devem ir. Quando o discurso termina sem alcançar o seu propósito e tudo o que resta é repetir o que foi dito (e que não merece ser repetido, sob pena de perder o seu significado), surge o não-dito. Um silêncio cheio de angústia e significado, encarcerado para sempre na mente e no peito de quem é forçado e engoli-lo sofridamente, todos os dias, sempre com a esperança de que ele simplesmente deixe de existir um dia e cesse de corroer-lhe as entranhas. É a perene tortura do ver, ter ao alcance das mãos ou de um clique no computador, querer puxar papo, e não o fazer porque... não há nada de novo a dizer. E a repetição é a banalização do sentimento que dá significado às palavras. O não-dito é grande, é pesado. Ele nos consome por inteiro. Quem está às voltas com ele não pensa, não come, não dorme, não vive. Apenas fica em seu redor, tentando aplacar-lhe a demanda insaciável pelo que simplesmente não pode -- e não será -- dado. Um eterno choro de criança faminta que ribomba diuturnamente na alma, e que tentamos em vão pacificar sem satisfazer. Em busca do que já foi dito antes, vale ler e-mails que foram arquivados. Músicas. Filmes... qualquer coisa que nos faça lembrar -- mas nunca repetir -- o que já foi dito. E que de tão precioso é ainda tão valioso até hoje. O não-dito tem o poder de nos dotar de poderes extra-sensoriais. Ou pelo menos tem o poder de nos fazer crer que os possuímos. Na ausência de palavras, usamos a imaginação para tentar ver ou saber o que não está ao nosso alcance, nem é da nossa conta. Lemos pensamentos, encontramos entrelinhas. Enxergamos no silêncio do outro todo um mundo de coisas que podem sequer existir. E assim vivemos consumidos dias inteiros. Exangues. Tudo esperando que um dia a ponte de palavras se reconstrua. Ou o tempo passe, e essa história simplesmente deixe de existir.
Escrito
por Rindu às 12:19
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QUATRO VEZES NOVE

"Sunday morning I'm waking up Can't even focus on a coffee cup Don't even know who's bed I'm in Where do I start? Where do I begin?"
"Where Do I Begin" Chemical Brothers Peço uma licença do meu propósito de originalidade com o Quarto 1222 para começar este post de aniversário com a mesma música que eu usei no post de aniversário em 2005 (ou 2006, não me lembro bem). Faço isso porque essa música traduz de maneira certeira como estou me sentindo hoje, que completo 36 anos. Trinta e seis... o tempo passa, e isso é assustador. Este ano passado foi um ano de batalhas. Começou no front, e foi assim dia após dia, semana após semana, mês após mês. Foi um ano de vitórias, claro: terminei a minha pós-graduação com láureas, cresci um monte, aprendi outro tanto... Mas também juntei na minha alma muitas cicatrizes bem dolorosas. Olhando em retrospecto, fico me perguntando se no fim das contas todas essas vitórias do ano que está terminando não foram, na verdade, vitórias de Pirro: mais perdi do que ganhei. Não sei dizer agora, que ainda estou enterrando mortos e recolhendo feridos, ainda ouvindo o canhoneio ribombando sobre a minha cabeça. Dizem que uma guerra é um acontecimento que tem o poder de transformar para sempre uma sociedade. Mesmo gerações nascidas depois do conflito vivem sob o seu estigma, transmitido aos mais jovens pelos mais velhos. Exemplo disso são os países da Europa, onde até hoje famílias inteiras vivem como se estivessem sob o regime de privação e racionamento que lhes foi imposto nas guerras mundiais. Acho que comigo o efeito está sendo semelhante. Olho para mim mesmo depois de tanta coisa que tive que enfrentar, e já sou capaz de enxergar aqui e ali cascas grossas de insensibilidade e dureza que vão se formando na minha alma. E sobretudo, uma certa racionalização sobre aquilo que realmente merece o dispêndio da minha energia. Sim, eu também estou aprendendo a viver em racionamento, como o sobrevivente de uma guerra. Chego aos trinta e seis com a alma estropiada, mas livre de autopiedade. Estou cansado, sim, e muito ferido, mas em boa parte marcado por um pragmatismo que nunca antes me foi característico. Uma certeza acerca da necessidade de simplificar a vida, jogar fora pesos mortos, abrir espaços nos compartimentos da minha vida -- nem que para isso eu tenha que cortar na carne (e quase sempre será isso que acontecerá). Abrir espaço, arejar o peito, e seguir em frente. Depois de um certo estágio da vida, não há muitas alternativas além dessa.
Escrito
por Rindu às 14:01
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OS QUE FICAM E OS QUE VÃO

Todas as vezes que eu passo pela Avenida 23 de Maio, aqui em São Paulo, eu me distraio olhando para os prédios de apartamentos que vão passando. Fico imaginando como deve ser morar num lugar que dá vista para uma avenida movimentada como aquela, sempre tendo na janela uma paisagem inquieta e em transformação. São carros e mais carros que estão sempre indo, indo, indo, dia e noite, sabe-se lá para onde. A impressão que eu tenho é que naqueles apartamentos mora uma grande sensação de abandono, porque parece que ali nada permanece -- só quem está ali na janela, assistindo àquele constante espetáculo de indiferença. Deve ser estranho ser a única coisa que fica, quando tudo ao seu redor parece estar indo embora. A vida vivida numa eterna e infinita despedida. E isso não é uma coisa boa de se sentir, não. Se a vida é fundamentada no binômio escolhas e despedidas, essa última parte é sem dúvida nenhuma a mais difícil e dolorosa. Despedir-se não é fácil. Dar adeus é uma experiência que marca profundamente tanto quem vai quanto quem fica, porque significa uma ruptura muito grande. Quem vai tem que encontrar forças para enfrentar o impensável, todo um mundo de incertezas à sua frente... já quem fica tem que catar os seus cacos para assimilar a ideia de que as certezas de outrora já não são mais tão certezas assim. E que tudo que ficou no lugar são lacunas, imensas lacunas. Verdadeiros abismos na alma. Já fui o que partiu, e muitas outras vezes fui o que ficou. E olha, acho que eu tenho como dizer com tranquilidade que a dor da despedida é mil vezes pior para quem fica do que para quem vai. O momento crucial da partida dói igualmente em todos que têm que dizer adeus. Mas passado esse instante, a vida vai adquirindo nuances muito diferentes para uns e para outros. Para quem vai, por exemplo, imediatamente se descortina todo um mundo novo a ser explorado. Não há tempo a se perder em autopiedade, porque o esforço para se criar referenciais passa a ser de urgência absoluta. E nessa busca por referenciais, surgem novos amigos, novas experiências, a excitação de poder recriar-se de uma maneira completamente diferente do que sempre fora até então. E isso tudo ajuda muito no processo de ir deixando o passado no lugar que é todo dele: no passado. Pouco a pouco, tudo o que era tão precioso outrora vai sendo encaixotado na memória, e deixado de lado num cantinho da alma. Lembranças, afetos, hábitos, vão todos sendo guardadinhos ali com todo o carinho e zelo que merecem, mas cada vez mais longe da realidade do dia a dia. Tipo como naquelas caixinhas de lembranças da infância que todo mundo tem no fundo do armário, e só abre de vez em quanto para matar saudade. Aliás, esse é o sentimento que fica em quem parte, depois da despedida: a saudade, que é a lembrança boa do que se foi para não mais voltar. E não a nostalgia, que é o anseio pelo retorno do que não tem mais volta. Essa costuma cruelmente ficar reservada para quem fica: a nostalgia se instala na alma de quem fica e ali cria raízes, drenando de maneira implacável as forças para viver. Afinal, ao contrário das novidades a serem desbravadas por quem partiu, quem fica tem que lidar com todo um mundo repleto de lacunas que foram deixadas para trás. Tudo à volta são espaços vazios que antes foram preenchidos por aquela pessoa tão querida, e que agora não está mais ali. Uma enorme sensação de vácuo que oprime a alma como uma garra gelada e faz o coração ficar miúdo, enquanto ata um nó permanente na garganta. E meu, como isso dói. A casa em que ecoam vozes que não estão mais ali. Os lençóis ainda com o cheiro de quem partiu. Roupas esquecidas nos armários, a caligrafia em papéis espalhados por todos os lados. Um recado perto do telefone, uma lista de compras, uma anotação na margem de um livro, qualquer coisinha sem importância parece trazer consigo um pedaço da alma do ausente, e tem efeitos devastadores no coração de quem ficou. A caixa de suco pela metade na geladeira. O tubo de desodorante já no final, e que por isso ficou para trás. Correspondências que chegam, pessoas que perguntam por notícias. Músicas. Filmes. As baladas que seriam perfeitas se não fosse a ausência de quem se foi... Tudo, absolutamente tudo impede que a ferida da separação se feche. O passado se recusa com petulância a ficar no passado, e acabamos agrilhoados às lembranças que parecem penetrar a nossa pele como tatuagens. Indeléveis, permanentes. E todos os dias, como Prometeu castigado, o suplício se renova com a mesma intensidade. E não tem jeito: vai ser assim até que quem sofre resolva por um fim nessa situação. Pelo que eu sei, só há uma maneira de se lidar com a perda de quem partiu: criar na própria vida todo o contexto de uma partida também. Claro que isso não envolve fazer as malas e picar a mula em termos absolutos, mas sim reconhecer o fim de um ciclo e tentar buscar no que restou os elementos para a construção de uma existência completamente nova. Ou seja, despedir-se do passado e também lançar-se ao futuro. Dar-se a chance do novo. Lógico que o período do luto é inevitável. Chorar as pitangas faz parte da vida, e é uma fase muito necessária para que possamos chegar do outro lado desse vale de lágrimas. Mas isso tem que ter um prazo para terminar, uma hora em que se diz "chega" e se ergue a cabeça. Areja-se a casa, e passa-se a acolher o que a vida tem para nos oferecer. Então é chegada a hora de encaixotar as lembranças. Guardar tudo com carinho, mas fora das vistas. Gravar as fotos num DVD e apagá-las do computador. Separar os livros, tirar as roupas dos armários, jogar fora o que não é mais necessário estar à nossa volta. Pôr tudo em caixotes, que vão para o fundo do armário, ou para algum outro lugar longe do nosso caminho. Deixar a energia circular, seguir em frente, e assumir de maneira inalienável o protagonismo da existência. Tocar em frente. Porque a vida é curta demais, e os perigos de que acabemos vivendo como mortos são enormes.
Escrito
por Rindu às 02:56
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PRIMEIRO OS COPOS

DEPOIS OS TALHERES. ENTÃO OS PRATOS, E POR FIM AS PANELAS. NESSA ORDEM. SEMPRE. Essa é uma regrinha boba para lavar louças, que eu aprendi quando vim morar sozinho. Parece uma coisa à toa, mas é o que garante que os copos não fiquem com um cheiro desagradável de comida, ou foscos com a gordura da esponja. Isso sem contar que poupa bastante água e detergente. É impressionante como coisas tão banais como essa ajudam a construir a harmonia no mundo à nossa volta. Eu pensava nisso quando lavava a minha louça hoje de manhã: como tudo na vida tem um fluxo pré-determinado, uma ordem natural das coisas, que impõe-se sobre a nossa vontade de maneira implacável. É claro que todos somos livres para subverter as coisas como bem entendermos, mas ao fazermos isso devemos ter em mente que teremos que pagar um determinado preço. No caso da louça, por exemplo, podemos começar pelas panelas, claro. Mas depois não poderemos nos queixar dos copos embaçados e mal-cheirosos. Ou do detergente e água gastos a mais para enxaguar a esponja entre uma peça e outra. Uma amiga costumava me dizer que viver a vida é como fazer brigadeiro: as coisas têm que acontecer num ritmo certo, na hora certa, do jeito certo. Se temos pressa e nos precipitamos, queimamos a língua. Se tentamos retardar o processo e conter a evolução das coisas, teremos como resultado um doce queimado e empelotado. E meu Deus, como isso é certo! E isso não é sabedoria de botequim, não. Na Bíblia, o Capítulo 3 do Livro do Eclesiastes fala exatamente isso, só que de maneira muito mais poética: "Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz". Afoito como sempre fui, acho que essa foi uma das mais preciosas lições que a vida me ensinou: estar atento para perscrutar os ventos do destino, e não resistir em soltar as amarras para me deixar seguir com o fluxo da minha vida. Isso, claro, é um baita exercício de fé e abnegação, porque são experiências que sempre trazem a reboque renúncias e despedidas... mas não posso esquecer que também me proporcionam muitas descobertas e crescimento. Fato é que quando alguém tenta resistir a essa força motriz da existência, fatalmente acontece algo semelhante ao engavetamento numa estrada congestionada. A partir do ponto de estagnação, passam a se acumular desventuras em série. Tudo sai do lugar, nada faz sentido, e a harmonia passa a ser algo que simplesmente não existe mais. E é aí que a depressão passa a nos rondar "como um leão que ruge, buscando a quem devorar", usando uma outra figura bíblica. Pensar nisso me lembra o tanto que é difícil dizer adeus, sair dessa nossa zona de conforto momentânea. Em outras palavras, largar o trapézio que nos dá tanta segurança hoje, para então nos lançarmos no vazio à nossa frente até alcançarmos o próximo trapézio... O tempo todo tentando esquecer que no circo das nossas vidas quase nunca há redes de proteção.
Escrito
por Rindu às 17:29
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