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CHEGOU A HORA?

Por conta de um monte de circunstâncias bem peculiares, eu passei toda a minha infância e adolescência muito empenhado no esforço de ser o filho perfeito. Assimilei ao máximo os anseios e valores dos meus pais, muitas vezes chegando ao ponto de tomar para mim, sem qualquer contestação, muitas das projeções que eles criaram por conta própria. É claro que não estou dizendo que fui um anjo de candura e não dei trabalho algum -- afinal, ser teimoso e opinativo sempre foi um dos meus maiores defeitos. A verdade é que ao longo dos anos eu fui me aperfeiçoando no paradoxo de cultivar uma personalidade forte ao mesmo tempo em que desempenhava o papel de filho ajuizado que a gente vê nos seriados da TV. Não digo isso para expressar arrependimento, até porque não me arrependo de nada (ou de quase nada). Agir como eu agi foi uma escolha deliberada minha. Não acredito que meus pais são culpados por terem tecido sonhos para mim; afinal, não é justamente isso que pais fazem? Há, contudo, um único arrependimento que eu ainda trago comigo, cujos desdobramentos me atormentam até hoje: eu ter aberto mão dos meus sonhos e ter prestado vestibular para Direito ao invés de Arquitetura. Corrigir ou contornar esse único erro que eu cometi em 1993 tornou-se uma tarefa que consome boa parte das energias da minha vida. Já cansei de escrever aqui sobre o quanto eu abomino o fato de ser advogado. Nada contra quem trabalha com Direito por vocação e é feliz com isso, mas para mim essa profissão sempre foi algo imposto goela abaixo, algo que eu tinha que aceitar por força de contingências que me subjugavam. Eu me sentia violado por ter que trabalhar com o que eu não gosto, só porque é esse o diploma universitário que eu conquistei, e porque eu precisava ganhar dinheiro. Com o passar do tempo eu acabei por me acostumar com a contrariedade e a insatisfação, quase que assimilando-as como parte do meu caráter. Paulatinamente eu fui me tornando amargo e queixoso, reafirmando para mim mesmo uma desesperança profunda pela vida como uma maneira de alimentar uma resignação auto-imposta. Viver assim foi me endurecendo por dentro. O fatalismo tornou-se uma das minhas maiores características, e o sarcasmo a minha maior defesa. E isso transpirava por todos os meus poros: já me apelidaram de "Garoto-Enxaqueca", e se referiam à minha conta no Twitter como "o muro das lamentações". De certa forma eu sou como uma prostituta que aprende a abstrair do seu metiê, ao ponto de cair no sono enquanto completos estranhos usam e abusam de seu corpo. Como ela, também eu aprendi a roubar a minha alma para algum lugar isolado, longe da realidade, para que não se corrompesse junto com o resto que eu vendia por uns trocados. Assim , apesar de toda lamentação, apesar de toda frustração, em algum lugar de mim eu mantinha acesa a esperança de que algum dia a minha vida mudaria. E, aos trancos e barrancos, muitas vezes foi pensar nisso que me manteve com a cabeça fora d'água nos dias ruins. Foi em busca dessa libertação que eu me meti a vir para São Paulo, jogando para o alto uma vida principesca em Brasília. Me aventurei numa pós-graduação longa, cara e trabalhosa, que eu até então tinha somente uma vaga impressão do que se tratava. Aceitei enfrentar a solidão, o isolamento de todos que eu amo, além de encarar o terrível retrocesso de voltar a viver dentro de um terno, ir mais uma vez fazer juramento na OAB e virar advogado. Chorei lágrimas cujo amargor só eu conheci. E mesmo sem saber por que ou para onde, eu segui em frente. Parar pelo meio do caminho eu não podia, e voltar para o lugar de onde eu vim era impossível. Dois anos se passaram enquanto eu vagava sem rumo pelo deserto. E quando já ensaiava me dar por vencido, e pensava seriamente em tirar o meu time de campo, as previsões que eu fiz para 2012 parecem começar a se cumprir. Pela primeira vez na vida eu recebi uma oferta de trabalho que não tem nada a ver com o Direito. Confesso que a princípio ouvi a proposta com uma certa descrença. Afinal, gato escaldado tem medo de água fria, e eu bem que já coleciono uma série de decepções no meu histórico. Não foi uma nem duas vezes que pensei estar finalmente embarcando num emprego que transcendesse o título de advogado que parece me marcar a testa como ferro quente, só para já no primeiro dia de trabalho descobrir que mais uma vez tinha sido vítima da miopia alheia. Parecia que eu era a única pessoa do mundo que enxergava que eu podia fazer muito mais coisas, e de forma muito melhor, do que simplesmente bancar o advogado. Acabava me sentindo como a prostituta que achou ter encontrado um emprego digno, para depois descobrir que na verdade só tinha mudado de cafetão. Só que essa semana, quando eu ouvi do meu futuro chefe que os planos dele para mim não tem nada a ver com processos, contratos ou licitações, meus olhos brilharam. Será a minha tão aguardada libertação? Ainda estou com os pés atrás, claro, porque quem pouco espera pouco se decepciona. Mas agarrei essa oportunidade com unhas e dentes, e mentiria se negasse que já estou cheio de planos. Pode parecer inacreditável para quem só conhece a minha persona lamuriosa, mas a verdade é que eu sou um cara bem otimista. Talvez cultivar um certo fatalismo fosse uma estratégia para manter os meus pés no chão. Começo na nova ocupação na próxima segunda-feira, e só posso agradecer a Deus por ter me guiado tão certeiro na minha cegueira e confusão. Parece que enfim posso afirmar que se puta fui, puta não sou mais: encontrei um marido que me vê como eu sou, e vou sair da zona. Desejem-me sorte.
Escrito
por Rindu às 18:43
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UMA PARADA DE ZUMBIS
Domingo passado à noite eu estava tomado por um espírito aventureiro, disposto a desafiar a morte. Encarei o frio e a garoa, e fui cumprir a missão de fazer a cobertura de um concerto da Orquestra Bachiana Filarmônica na Sala São Paulo para o Rindurama. Além do prazer de ouvir música clássica de qualidade de graça, eu fui prestigiar o maestro Cláudio Cohen, que é o regente do Teatro Nacional Cláudio Santoro de Brasília e veio reger a Bachiana Filarmônica a convite do seu diretor-artístico, o pianista e também maestro João Carlos Martins. O concerto estava marcado para as nove da noite. Mas como eu tinha que já estar na Estação Julio Prestes por volta das sete e meia, achei que ainda era seguro ir de metrô até a Estaçaõ da Luz e me aventurar rua afora para completar o caminho. Ledo engano. Eu geralmente não recomendo a ninguém andar à toa por aquela região, ainda mais à noite. Aquelas ruas vivem repletas de mendigos, bêbados, gente muito mal encarada e ainda muitos viciados em crack. Facilitar por ali é quase a mesma coisa que pedir para se meter em alguma confusão. Aquele pessoal anda sempre num estado tão alterado, que já passaram do ponto de ter algo a perder. Na boa, ser roubado é o menor dos males que podem acontecer a algum incauto que vá parar ali na hora errada. A notícia que ouvimos aqui no centro é que a Prefeitura estourou a cracolândia no começo do ano, e libertou definitivamente a Luz da multidão de zumbis que assombravam a vizinhança. Mas eu vi que a coisa não é bem assim, não. Os viciados estão lá ainda; a única diferença é que agora a polícia não lhes dá mais trégua. O tempo todo se ouvem sirenes e passam patrulhas em alta velocidade, empenhadas em dispersar os grupos que se formam. Os viciados se movem lentamente de um lado para o outro, fugindo das luzes vermelhas das viaturas, saindo de um lugar e indo se aglomerar em outro -- para logo em seguida serem enxotados dali e novamente se colocarem em marcha. E isso parece seguir a noite toda, um jogo de gato-e-rato entre viciados e polícia que não dá paz a ninguém. No meio do caminho entre a Estação da Luz e a Praça Julio Prestes, já passado aquele ponto em que seguir em frente é tão arriscado quanto voltar para o começo e pegar um taxi, dei de cara com um grupo de umas trinta pessoas sob a marquise da Estação Pinacoteca. Me deparar com aquilo me gelou a espinha, porque àquela hora e naquele lugar aquele grupo só poderia ser de viciados. Por sorte uma viatura chegou rápido, rotolights e sirene ligados, e encostou a uns vinte metros deles. E foi então que eu vi a cena mais impressionante da noite. Aquela gente não saiu correndo em fuga, como era de se esperar. Simplesmente começaram a andar lentamente para o outro lado da rua, quase sem se dar conta da presença dos policiais. Era um caminhar sem vontade, sem rumo, sem alma. Uma gente de olhos vazios, arrastando atrás de si grilhões invisíveis, pesadíssimos. Todos eram como cascas secas, corroídas pela droga, meros resquícios opacos das pessoas que um dia foram. Enquanto estava parado ali, observando aquela marcha de zumbis, me perguntei se algum deles realmente estava naquele lugar porque queria. Se algum seria capaz de negar que o crack lhes destrói, ou ainda protestar pelo direito de poder se drogar -- e em última análise também se matar -- em paz. A impressão que tive foi que não: mesmo sem ter conversado com uma daquelas pessoas, não tive dúvidas de que muito mais do que dignidade, ou qualquer conforto material, eles eram desprovidos de vontade. O vagar desleixado do seu caminhar os traía. Foi uma das experiências mais assustadoras que eu já tive aqui em São Paulo. Essa visão me fez pensar o quanto poder vícios têm sobre cada um de nós. E não estou falando só dos vícios de natureza química, como o cigarro, as drogas ou o álcool, porque se formos pensar bem veremos que vícios menos confessáveis (e identificáveis) são até mais perniciosos do que esses. Comida, sexo, afeto ou aprovação pública têm tanto efeito devastador na dignidade humana quanto o crack mais poderoso. No fim das contas, eu cheguei à conclusão de que é muito fácil se perder no labirinto que cada um de nós traz dentro de si mesmo.
Escrito
por Rindu às 12:56
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KÁTIA CEGA TINHA RAZÃO
Eu não sei se acontece com todo mundo, mas posso dizer que para mim é quase uma constante: um dia qualquer eu acordo, olho para o teto do meu quarto, e me sinto tomado por uma enorme sensação de despropósito. E aí, danou-se: passo o dia arrastando esse sentimento atrás de mim como os grilhões de uma alma penada. Não estou falando daquele dilema hamletiano do "ser ou não ser, eis a questão", muito bem traduzido pelo desespero "oncotô, oncovô?" que também vira e mexe dá as caras por aí. O despropósito a que me refiro é mais daquele tipo "não está sendo fácil viver assim", que a gente lembra tão bem na voz lamuriosa da Kátia Cega (oi, anos oitenta!). Ou, para os mais eruditos, nos versos de "Meus Oito Anos", de Casimiro de Abreu: "Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!" É aquela vontade de dar um chega para o mundo e voltar para os dias da infância, onde tudo parecia tão seguro, tão previsível, tão magicamente providenciado para a nossa felicidade. Nos deixamos levar pela fantasia de que dá para parar de brincar de ser adulto, e simplesmente fazer as coisas voltarem para o jeito que foram um dia. Mas logo vem um choque de realidade como um balde de água gelada, geralmente na forma da lembrança da hora de ir para o trabalho, ou do saldo em vermelho no banco, e ficamos desacorçoados por um bom tempo. É como se de repente nos déssemos conta do abismo bem à nossa frente, separando a vida como gostaríamos que ela fosse e a vida como é. Olha, eu tive uma infância bem legal, mas não acho que foi das mais floridas. Eu não fui daquelas crianças risonhas e serelepes de propaganda de margarina, afinal o existencialismo é parte constituinte do meu caráter desde que eu me conheço por gente. Ainda assim, eu tenho saudades do tempo em que as minhas únicas grandes preocupações eram as provas bimestrais do colégio, e para qual praia meus pais iriam me levar no verão. Hoje o buraco é bem mais embaixo: as férias não são mais de três meses por ano, mas só de trinta dias -- e olha lá. E se eu quiser viajar para um lugar legal, que trate eu mesmo de organizar as minhas contas desde muito cedo, driblando aqui e acolá as 32156465432465 despesas que eu tenho todo mês. Eu como o que eu quiser, e não mais o que me mandarem comer. Isso pode soar bom e excitante num primeiro momento, mas se pensarmos que, por outro lado, se eu não me mexer eu não como nada -- ou se não cuidar de mim mesmo vou parar no hospital com uma infecção alimentar -- a coisa toda perde boa parte do encanto. A comida não aparece mais na minha geladeira como num passe de mágica, nem a roupa suja regenera-se limpa e passada dentro dos meus armários. Se eu quero as coisas providenciadas na minha vida, que as providencie eu. E isso cansa. "Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora?"
"José" Carlos Drummond de Andrade Tenho uma prima que também teve uma infância fantástica, quase totalmente vivida numa redoma de vidro. E mais ou menos na mesma época em que eu resolvi vir para São Paulo, ela decidiu largar a vidinha pacata e protegida que tinha em Uberlândia e se mudar para Brasília, para correr atrás da sua realização pessoal e profissional. Igual foi para mim, para ela também a vida de cigano, acampado dentro da própria casa, teve o seu fascínio. Até a constante falta de grana, e as inúmeras vontades e planos frustrados por conta disso, também tiveram o seu charme. Nos parecia heróico olhar para o nosso passado e dizer "olha como agora eu sou adulto, e estou construindo a minha vida do nada". Mas aí a memória nos brinda com flashbacks da aurora das nossas vidas, e o resultado é uma tremenda crise de abstinência. Não importa o quão maduros achamos que somos, ou o grau de comprometimento com o nosso futuro que achamos que temos: somos arrebatados por uma birra digna do tempo em que queríamos largar o passeio no trem fantasma bem no meio, mas não podíamos. Aí não tem jeito. Naquele tempo, como hoje, o remédio amargo é exatamente o mesmo: engolir o choro, ter paciência, e seguir em frente. Não há outra alternativa. No último feriado que passei em Brasília, quando vi minha prima chorar ao se despedir da mãe, da sobrinha e da irmã que voltavam para Minas, me lembrei do meu pranto no aeroporto ao retornar para São Paulo depois das últimas férias. Eu sabia exatamente o que ela estava sentindo, e foi inevitável sentir um nó na minha própria garganta. E repeti mais uma vez para mim mesmo que é assim que tem que ser. Que é assim que se cresce. Que tudo isso há de ser recompensado um dia. É o único remédio.
Escrito
por Rindu às 17:17
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VÁ VER "XINGU"
Fui assistir "Xingu", o filme do Cao Hamburger sobre a saga dos irmãos Villas-Bôas pelo extremo oeste do Brasil. Olha, um filmaço. Recomendo sem medo de ser feliz. Inclusive, acho que ele deveria ser o filme indicado pelo Brasil para concorrer ao Oscar no ano que vem. Sério mesmo, acho que já chegou a hora de dar um tempo dessa onda pobreza-e-bandidagem-carioca que anda resumindo a produção cinematográfica brasileira. Se eu, que sou nativo, já estou cansado de só ver favelado suado e desbocado nesses filmes, que dirá os estrangeiros que devem achar isso tudo muito estranho (e bem pouco lírico). A fotografia foi muito bem pensada, a ambientação de época está impecável. Felipe Camargo está extremamente convincente como Orlando Villas-Boas, o que só confirma a sua reabilitação ao posto de grande ator que o talento dele faz por merecer. O roteiro não tem sobressaltos, e a história transcorre de maneira lógica e linear, envolvendo a plateia numa atmosfera respeitosa -- mas não ufanista -- de um período heróico da história recente do nosso país. As qualidades são inúmeras. Mas apesar de ser muito bom, "Xingu" não deixou de lado uns vícios que parecem ser recorrentes em tudo que é filme brasileiro. Não fiquei surpreso por ver que ele também não deixa de ter um ou outro peitinho surgindo do nada, como se a história necessitasse desse tipo de recurso para ser interessante. Claro que eu não estou contabilizando como "peitinho" as inúmeras índias mostradas peladas, até porque essa imagem não traz absolutamente erotismo algum. Mas quando mostram índias fazendo strip-tease para mostrar que tanto Leonardo (Caio Blat) quanto Cláudio Villas-Bôas (João Miguel) tiveram romances na selva, eu acho que é uma apelação desnecessária. É como se o roteirista tivesse ficado com preguiça de pensar numa maneira menos lúbrica de contar a história. Outra coisa que eu achei que pesaram a mão foi na constante presença de álcool -- notoriamente da boa e velha cachaça -- junto dos irmãos Villas-Bôas pelo filme afora. Beleza, a gente entende: os caras estavam no meio do mato, longe de tudo e de todos, e provavelmente o que havia para distraí-los era uma caninha amiga e um bom fumo de rolo. Mas se o filme apela tanto para a exaltação do heroísmo da família de sertanistas, acho que não precisava mostrá-los praticamente o tempo todo com um garrafa de pinga debaixo do braço. Além de não pegar bem, todo mundo sabe que lá fora não se admite que heróis tenham sido cachaceiros. Só bandido é representado enchendo a cara e pitando como uma puta apaixonada. Se um dia os americanos fizerem um filme sobre Abraham Lincoln, por exemplo, que eles têm quase como a reencarnação de Jesus Cristo, eu aposto que ele só vai aparecer tomando limonada. E sem açúcar, ainda por cima. Mas isso são só detalhes. O filme conta uma história bem amarrada, com começo, meio e fim, e faz justiça à memória de três homens que, praticamente sozinhos, conseguiram deter em grande parte o genocídio a que os índios estavam condenados no Brasil da primeira metade do Século XX. E em se tratando de terras tupiniquins, onde a amnésia histórica parece ser endêmica, Cao Hamburger faz um serviço e tanto à posteridade.
Escrito
por Rindu às 18:18
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CADÊ A GRAÇA?

Outro dia o pessoal do Pânico na TV resolveu facilitar com a Susana Vieira e o namoradinho mágico-quase-ator dela, e o resultado foi um escândalo que reverberou um bom tempo pela internet. No meio do salseiro, valeu tudo: até ressuscitaram um texto atribuído ao Wagner Moura que circulou na internet há alguns anos, questionando a ética do tipo de humor que anda fazendo sucesso hoje em dia. Não sou fã da Susana Vieira, nem do Wagner Moura, e muito menos do namorado-mágico-ator. Mas concordo com eles quando dizem que ultimamente alguns pretensos humoristas estão cruzando a fronteira do razoável. Não gosto de assistir ao Pânico na TV, e nem qualquer outro programa que só consegue oferecer um humor imbecil e apelativo. Quando comparo o que eu vejo com o humor inteligente e refinado de Chico Anysio, Jô Soares a até mesmo d'Os Trapalhões, sinto uma tremenda pena do público de hoje em dia. Em março o meu irmão e a minha cunhada vieram me visitar aqui em São Paulo. Como sempre, eles tinham planos para a curta estada: queriam ir a um show de stand-up comedy. Como o Comedians Bar fica do outro lado do meu quarteirão, fomos para lá. Quando o show acabou, eu confesso que fiquei me perguntando que diabos eu tinha ido fazer ali. Esperei um tempão na fila para entrar, paguei caro por tudo, e no fim das contas não achei graça de quase nada. Tudo o que vi foram pretensos comediantes desesperadamente tentando convencer a plateia de que eram engraçados, sempre à custa de achincalhar outras pessoas muito além do limite do razoável. Nenhum deles trouxe o foco para si mesmos, protagonizando a própria piada -- só os outros, até mesmo gente da plateia, mereciam ser alvos das infâmias. Houve risos, claro. Mas não era aquele riso solto, de gente que estava realmente se divertindo. O que se ouvia era um riso nervoso, de quem internamente torce para que aquela tortura acabe logo sem machucar mais gente. Igualzinho ao que eu via no colégio, quando a galera do fundão resolvia pegar alguém para Cristo. Quando isso acontecia, quem estava em volta ria como parte de uma estratégia para não chamar atenção para si, e acabar se tornando a próxima vítima. Naqueles tempos, como agora, riso verdadeiro era privilégio exclusivo de quem estava protagonizando o linchamento, e mais ninguém. Hoje já se sabe que aquelas "brincadeirinhas inocentes" do pessoal do fundão na verdade eram bullying, puro e simples. E esse é um assunto bem em voga ultimamente: praticamente não passa um dia sequer sem que se fale alguma coisa sobre os efeitos nefastos desse tipo de violência. Crianças e adolescentes que passam por esse tipo de humilhação têm uma baixa severa no rendimento escolar e adquirem sérios problemas de auto-estima, o que pode inclusive levar ao suicídio. Vendo o que eu vi no Comedians naquele sábado, fiquei pensando qual seria a diferença entre o "humor" que estavam apresentando ali no palco, e o bullying nosso de cada dia que se vê nas escolas. Cheguei à conclusão que o único diferencial deve ser a plateia pagante: se o show é gratuito, então é violência moral; se é pago, aí vira stand-up comedy à brasileira. Invariavelmente tracei um paralelo entre os que andam se dizendo "humoristas" por aí e os idiotas que compunham a turma do fundão no meu colégio. E num e noutro grupo eu detectei as mesmas gigantescas falhas de caráter: necessidade de exaltar a auto-estima à custa do ridículo alheio é uma delas, e talvez a mais danosa. Ou seja, tudo indica que na verdade os dois são farinha do mesmo saco, daí fico pensando se a carreira de comediante é a única saída para aquela gente sem noção e sem futuro conseguir se dar bem na vida. É impossível falar dos abusos desse tipo de humorismo sem lembrar do imbroglio Rafinha Bastos x Wanessa Camargo, e o seu filho ainda não nascido. Muito se falou naquela época que o patrulhamento do politicamente correto estava censurando a liberdade de expressão do humor, e que o Rafinha Bastos foi um pobre injustiçado pego para bode expiatório. Que apesar da sua piadinha ter sido insensível, grosseira, de péssimo gosto e de baixíssimo nível, não passava de uma piada, e mais nada. Beleza. Só que aí o tempo passou, e o Rafinha Bastos foi ser entrevistado no programa da Marília Gabriela. Para minha surpresa, quando o assunto Wanessa Camargo veio à tona, o rapaz começou a chorar feito uma mulher. Entre um soluço e outro, lamentou que o pai dele estava sendo execrado publicamente em Porto Alegre, por conta da proporção que o escândalo tomou. Se disse magoadíssimo com a insensibilidade do mundo, já que aquilo era uma grande injustiça com o velho e -- pasmem -- com ele mesmo, Rafinha Bastos. Para vocês verem como são as coisas: quando expôs uma mulher grávida e indefesa ao ridículo num programa de grande audiência, Rafinha Bastos acha que tudo o que fez foi manisfestar a sua arte, fazer humor da mais alta qualidade. Mas aí quando o pai dele também foi exposto da mesma forma, e pela mesma causa, a coisa toda passou a ser uma violência cruel. Na verdade, um paradoxo e tanto. Eu me embolei de rir quando assisti à entrevista porque vi que a minha avó estava coberta de razão quando dizia que o mundo não é redondo à toa: de fato, tudo o que se faz pela frente invariavelmente acaba nos atingindo pelas costas (ou pelo rabo acima). Foi ridículo ver um homem de mais de um-e-noventa se lamuriar em rede nacional, porque naquela hora toda a marra do pretenso grande comediante tinha virado fumaça. O que restou foi o choro de um menininho manhoso, que não queria mais continuar na brincadeira sem graça que ele mesmo criou. A manifestação da típica covardia dos bullies. Mas o que mais me causa estranheza mesmo é ver o quanto o público não tem mais qualquer noção de valores para avaliar esse lixo que lhe é atirado à cara todos os dias, à guisa de arte. Aliás, ando cada vez mais convencido de que ninguém mais quer saber de arte. Não há mais lugar no mundo para o belo, o harmônico, para a técnica apurada. O que o povão quer mesmo é sangue, é brutalidade, é aniquilamento. Como os romanos nos dias da decadência do Império, hoje em dia qualquer coisa anda servindo para tirar a patuleia do torpor que só uma existência inútil e superficial provoca numa pessoa. Daí a explicação do tremendo sucesso que a pancadaria sanguinolenta do MMA tem obtido. Ou de músicas que fariam artistas populares do passado, como Cartola e Lupicínio Rodrigues, quererem cometer suicídio. Ou ainda da palhaçada desses "comediantes". Só deve valer mesmo pelo espetáculo. Porque graça, não tem nenhuma.
Escrito
por Rindu às 19:57
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A UNANIMIDADE BURRA

Se gostar de fazer filas fosse sinal de civilidade, o brasileiro seria o povo mais civilizado do mundo. Só que não é. Fazer fila à toa é sinal de estultice. Burrice. Retardamento mental do último grau. Sério, eu fico pasmo com o apego viceral que essa gente tem por esperar em pé por alguma coisa, mesmo sem motivo nenhum. Parece que ficam todos bem ansiosos, olhando em volta em busca de uma oportunidade de formar uma fila. E tenho certeza de que se essa oportunidade não aparece, o pessoal se organiza bem rápido e dá um jeito de criar uma. As filas são uma verdadeira instituição brasileira, das mais estimadas, que cada cidadão aprende a almejar desde bem cedo. Para a gentalha, estar numa fila deve ser sinal de status. Como se ficar parado atrás de uma pessoa fosse uma honra indescritível. Na Missa de Páscoa deste ano eu vi os fiéis se levantarem em tumulto para formarem uma fila para a comunhão -- e isso quando o padre mal havia terminado a consagração! O homem ainda estava lá no altar arrumando as coisas, minutos ainda para começar a distribuir as hóstias, e na frente dele já havia uma turba inquieta, parada como um bando de idiotas por minutos a fio. Todos esperando por algo que aconteceria quando tivesse que acontecer, nem mais cedo, nem mais tarde. Juro que aquilo tirou a minha concentração das minhas orações. Fiquei refletindo quais seriam as razões para aquele bando de gente burra achar razoável ficar plantado ali na frente. Seria medo de as hóstias acabarem? Não era possível, porque além do fato daquela ser uma missa solene (a mais importante da cristandade), era evidente que a igreja nem estava tão lotada assim. Ou seria a ilusão de que quanto mais rápido comungassem, mais cedo a missa terminaria? Será que aquele povo todo ignorava que a missa tem o seu ritmo próprio, dura invariavelmente por volta de uma hora, e só termina depois da bênção final? Não era possível; eu tinha certeza que o pessoal ali sabia disso muito bem. Primeiro porque obviamente não eram católicos de primeira viagem, e segundo porque não eram de nenhum rincão pobre e inculto -- afinal, isso aconteceu na Paróquia São Gabriel Arcanjo, no coração do abastadíssimo Itaim Bibi. Ou seja: pobres e incultos nunca. Mas burros, com certeza. Outro lugar em que a estultice clama aos céus por vingança são os aeroportos. Meu Deus, alguém por favor me explica por que é que um bando de gente idiota gosta de ficar plantado na frente do portão de embarque, sendo que os assentos são marcados? Eu tento e tento, mas não consigo entender isso! Ficam ali um tempão, cada vez mais cansados e impacientes, só para depois terem o desgosto de ouvir que primeiro embarcarão os passageiros marcados nas poltronas das últimas fileiras. Aí eu não resisto: sambo na cara da estupidez da galera, e passo sorridente na frente de todo mundo vindo direto do lugar onde estava confortavelmente sentado esse tempo todo. Outra: o avião pousa, mal termina de taxiar, e quase todo mundo já está de pé, se acotovelando para pegar suas coisas nos bagageiros, antes mesmo das portas se abrirem. O que passa na cabecinha oca dessa choldra? Será que acham que se saírem primeiro do avião serão os primeiros a pegar as malas na esteira, como se as bagagens fossem entregas conforme a ordem de chegada no salão de desembarque? Eu fico bem sentado, quietinho e ouvindo música, propositalmente alheio aos olhares atravessados de quem está agoniado do meu lado, tenso porque não consegue se juntar à histeria coletiva ao redor. Só me mexo quando a fila realmente começa a andar: aí eu me levanto calmamente, pego a minha mala no bagageiro e, sem parar de me mover um instante sequer, saio direto do avião. E não consigo conter um sorriso de sarcasmo quando passo por aquela multidão de bobos parados em volta da esteira das bagagens, esperando mais um tempão até que ela resolva começar a se mover.
Escrito
por Rindu às 18:55
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UMA HISTORINHA PARA SER ILUSTRADA

Era uma vez um menino. Quando ele nasceu, os seus pais ficaram bem felizes. Afinal, era uma criança linda, com cinco dedinhos em cada mão e em cada pé, e uma pele lisinha e cheirosa que todo mundo gostava de abraçar bem forte. Só tinha um probleminha: o menino nasceu sem cabeça. Isso mesmo: sem cabeça! Acima dos ombros não havia nada. Por causa disso, os pais dele não podiam ver nenhum sorriso, nenhuma careta de sono ou de fome, e às vezes isso os deixava meio tristes. Mas logo deram um jeito. Alguém teve a brilhante ideia de colocar um balão no lugar da cabeça do menino. Então tudo ficou perfeito! Primeiro escolheram um balão bem bonito, vermelho e brilhante que nem as bolas que a gente pendura nas árvores de natal. Depois desenharam dois olhos bem grandes, e um sorriso bem largo. Pronto! Agora o menino tinha uma cabeça. Todo mundo ficou feliz de novo. Não tinha como olhar para o sorriso do menino e não sorrir junto com ele. A mãe do menino vivia enchendo ele de beijos, e o pai ficava bem orgulhoso assistindo ele correr para todo lado quando brincava no quintal. Só que de vez em quando o balão se soltava, e saía voando por toda parte. Aí era um problemão, porque todo mundo percebia que embora o menino estivesse bem ali pertinho, na verdade a sua cabeça estava voando bem longe dali. Quando isso acontecia, o menino sentia como se não tocasse mais o chão com os pés. Era como se estivesse levitando, ou voasse levado pelo vento. Era como se estivesse sonhando acordado! Ele até ouvia as pessoas chamando por ele, mas nem ligava. Fingia que não era com ele, porque era tão mais legal voar perto das nuvens! Outras vezes, o balão parecia perder o gás, e ficar meio murcho. Aí o menino não queria mais brincar, nem rir, nem pular, nem voar para lugar nenhum. Não tinha mais sonho nenhum, nem mesmo quando ele dormia. Tudo o que ele queria era ficar sozinho, bem encolhido num cantinho do quarto dele. Quem estava acostumado a vê-lo sempre sorrindo, estranhava porque nessas horas os seus olhinhos pareciam ficar menores, apagados... e o sorriso sem vida, quase tristonho. Era de partir o coração. Mas aí aos poucos o menino ia melhorando. A cada dia ele tentava encher a sua cabeça com coisas boas: a brisa da manhã que entrava pela janela do seu quarto, o cheiro do perfume que a mãe dele usava, e um pedacinho de nuvem que ele tinha guardado bem escondido depois que tinha saído voando pela última vez. Cada uma dessas coisas ia fazendo o balão ficar mais cheio, mais brilhante, mais alegre novamente. Até que um dia... que beleza! O menino saía do seu quarto, bem feliz e cheio de vontade de brincar. E enquanto corria para todo lado, torcia para chegar logo a hora de sair voando por aí de novo.
Escrito
por Rindu às 19:11
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BEETLEJUICE, BEETLEJUICE, BEETLEJUICE!
E aí que tudo vai bem, às mil maravilhas. Você está no processo de conhecer aquela pessoa especial, que aliás vem se tornando ainda mais especial à medida que o tempo passa. A intimidade vai crescendo, as piadinhas internas vão se formando, e a vontade de se ver mais e mais vai ficando ainda mais intensa. E para isso não há obstáculo grande o bastante para impedir essa aproximação. Tempo é criado, oportunidades aparecem do nada, distâncias se relativizam, impedimentos são postos de lado. Tudo é pretexto para encontrar, para deixar aquele que outrora era um perfeito estranho entrar completamente na nossa rotina, na nossa vida. Um dia você acorda e se dá conta que essa convivência, embora aparentemente excessiva, é muito gostosa. Fica evidente que as coisas passam a ter menos graça se aquela pessoa especial não está por perto para compartilhar o momento, e percebemos que a vida passa a ficar num compasso de espera para o próximo encontro. Ao mesmo tempo, o mundo em volta parece ficar extremamente desinteressante. Não há mais por que olhar por aí, paquerar, continuar no mercado -- afinal de contas, a sensação é que a vaga que tínhamos na nossa vida já foi preenchida, e não faz mais sentido manter a plaquinha do "Procura-se" pendurada no portão. E aí a gente comete a maior burrada de todos os tempos, e pomos tudo a perder. Sem nos darmos conta do tamanho do desastre que se prenuncia, completamos o ritual de vodu que fatalmente vai por fim a tanto encanto -- algo bem parecido com a invocação do encosto Beetlejuice, do filme "Os Fantasmas se Divertem": enchemos o peito de ar, olhamos nos olhos do outro, e pronunciamos de boca cheia as três palavras malditas: "EU TE AMO" Pronto. Fim. Pode chorar pelo leite derramado e começar a procurar por aquela plaquinha do "Procura-se" que você tinha tirado do portão. É questão de muito pouco tempo para ela ter que voltar para lá. Eu sinceramente não sei o que é que acontece. Um amigo certa vez me disse que o "eu te amo" é uma frase repleta de pieguice burguesa, que mancha o que antes era tão novo e excitante com o mofo do velho, do previsível, do comum. Outro já pegou mais pesado: disse que quando confessamos amar alguém, levantamos a bandeirinha branca de rendição incondicional na queda de braço do jogo da sedução. Ou seja, o primeiro a confessar estar amando é o mais fraco, e por isso passa a ser digno de desprezo por parte do seu adversário (?!). Isso sem contar nas favas contadas que o relacionamento se torna, o que logo descamba para o paradigma de que a grama é mais verde do lado de lá da cerca. Acaba tudo na base de invariavelmente buscar novos desafios, depois de não haver mais nada que nos atice nas atuais paragens. O que outrora era uma sangria desatada de vontade de cativar, de estar próximo, de conviver, passa a ser toldado por uma indiferença modorrenta. A rotina parece se estabelecer engessada, e do encanto sobra só a inércia. Mais nada. É uma situação frustrante. Para não cairmos nesse ralo, acabamos condenados a manter indefinidamente em suspenso algo que na verdade queremos muito ver apoiado em terreno firme. Aí sempre aparece quem diga "ah, mas você se precipitou, teve pressa e queimou a língua" -- vamos ser francos: poucas coisas são mais irritantes do que ouvir um comentário desses. Afinal, quando é que somos avisados de que chegou essa tal hora cabalística, em que podemos enfim admitir livremente a existência de um sentimento que já está ali há tempos? Ou seja, qual o sentido de dissimular o que se sente? Orgulho? Medo de perder? Sinceramente, eu não sei a resposta. O gênero humano é tão complexo que eu há muito desisti de tentar compreender suas reais motivações. Prefiro ir vivendo a vida.
Escrito
por Rindu às 16:39
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EIKE SAUDADE!
Nossa, sumi mesmo! Do começo de fevereiro para cá foram quase dois meses da mais completa ausência aqui do Quarto 1222. Olha que eu até entrava de vez em quando para dar ver se havia algum comentário; mas como nesse tempo todo só encontrei um para aprovar, percebi que não estava mais fazendo falta mesmo. É isso, ou meus leitores se extinguiram de vez, vai saber. Bom, vontade para escrever não faltou, garanto: o que faltou mesmo foi tempo. Aconteceu que enquanto eu passava as minhas férias em Brasília, me convenceram a tentar uma vaga no tão aguardado concurso do Senado Federal. Como o salário é muito bom (mas muito bom MESMO), o trabalho não parece ser mau, e estabilidade na vida todo mundo quer, eu resolvi brigar com vontade. Voltei da casa dos meus pais com a mala pesada de tantos livros, e meti as caras nos estudos com uma gana que eu mesmo não reconhecia em mim. Depois de muita Ritalina, serões no trabalho estudando, ansiedade e expectativa, no último dia 11 de março eu fiz a prova mais estranha do mundo. Sério, foi um concurso bizarro. Perguntaram umas coisas muito nada a ver, e na minha prova não caiu nada de muita coisa que eu dava por certo que cairia. Foi daquelas provas que a gente sai com um baita WTF?! brilhando na testa, sabe? Como eu terminei a prova antes do tempo permitido para levar o caderno de questões, não pude conferir o gabarito para saber se fui bem ou mal. Na verdade, nem queria fazer isso: prefiro saber logo de cara se passei ou não do que ficar me odiando por só constatar os erros bobos que cometi depois que Inês era morta. Agora me resta torcer e esperar o resultado sair no dia 18 de abril, para então saber se terei que fazer a segunda fase no dia 28. Passado o concurso, eu confesso que eu fiquei um bocado de tempo só querendo viver a minha vida no dolce far niente, e nem queria saber de blog coisa nenhuma. Mas esse tempo passou e eu estou aqui, e trazendo uma novidade: abri outro blog. Calma: não estou abandonando o Quarto 1222 depois de dez anos, UMA DÉCADA INTEIRA de histórias, sangue, suor e lágrimas. O que eu fiz foi abrir o R.i.n.d.u.r.a.m.a. (www.rindurama.wordpress.com) para exercitar ali um jornalismo de crítica que eu aprendi a gostar de fazer na pós-graduação que fiz em 2010. Nele escrevo sobre São Paulo, falo das coisas que vi e experimentei por aqui, numa pegada meio de dar o caminho das pedras para quem quiser se aventurar a fazer o mesmo. Escrevo ali sem pretensões, mas com capricho e carinho. Então se alguém aí (se é que alguém ainda lê o Quarto 1222) quiser me dar uma mãozinha e divulgar o blog, ler, comentar, sugerir pauta, criticar, eu vou agradecer um monte. Vai que disso acontece a mudança de carreira que eu tanto tenho buscado nos últimos anos, né?
Escrito
por Rindu às 16:18
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O CHEIRO DE ESPERANÇA
Aconteceu outro dia, inesperadamente. Estão pintando a galeria de arte que fica no saguão do prédio onde trabalho, e quando a porta do elevador abriu minhas narinas foram invadidas pelo cheiro de tinta fresca. Pode parecer estranho, mas na mesma hora o meu coração deu um salto de alegria. Aquele cheiro para mim é o cheiro da esperança, da iminência de muitas coisas boas. A razão disso está bem ali nas minhas memórias mais queridas. Lembro de quando os meus pais resolveram pintar a nossa casa, nos idos de 1984. Eu tinha oito anos, e fiquei fascinado com o caos que se instalou à minha volta. O cheiro de tinta, pintores por todos os lados, e todos os dias a surpresa de chegar da escola e encontrar um cômodo pronto, muitas vezes diferente de como era antes, era uma alegria sem fim para mim. Aquela aura de transformação, de mudança, de recomeço, tinha todo um encanto diferente. E o cheiro de tinta para sempre ficou marcado como o prenunciador de boas surpresas. Nada mais apropriado ter essa sensação ainda no primeiro mês do ano. Ando sentindo como se a minha casa espiritual -- ou o meu castelo interior, como dizia Santa Teresa D'Ávila -- estivesse sendo pintado. Antigas paredes sujas, manchadas de mofo e angústias, agora estão ganhando novas cores, mais vivas, mais alegres, mais intensas. Uma promessa de recomeço. E isso é tão bom.
Escrito
por Rindu às 12:32
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A ARTE DE DIZER NÃO

Um amigo me contou que estava de paquera com outro cara na internet. Durante um bom tempo convesaram todos os dias, trocaram fotos, e a coisa parecia que daria certo. Até o dia em que finalmente conseguiram se ver pela webcam. Meu amigo não soube explicar o que houve, só que sentiu uma enorme repulsa ao ver o cara que até minutos atrás parecia uma aposta certa para um namoro. Era a mesma pessoa das fotos, não havia dúvida, mas vê-lo em movimento e ainda por cima com som teve um efeito deletério nas suas idealizações. Imediatamente ele quis se desvencilhar, mas não sabia como fazê-lo. Afinal, haviam passado muito tempo conversando, e havia um certo laço que os unia. Não dava para simplesmente dizer "não rola", fechar a cam e bloquear o MSN. E o que era mais agoniante era perceber que tamanha decepção só estava do lado de cá da webcam; o cara parecia bem disposto a se encontrar com o meu amigo. Foi então que teve início a mais bizarra manobra para desencorajar uma pessoa que eu já tive notícia. Meu amigo começou a inventar as piores barbaridades possíveis, na esperança de escandalizar e ser dispensado. Disse que era absolutamente afeminado. Que gostava de usar calcinha de renda (detalhe: trata-se de um brutamontes bombado de quase metro-e-noventa). Que era exclusiva e furiosamente passivo. E, o que ele pensou que seria o xeque-mate: que gostava de ser escandaloso na cama. Para seu desespero, todas essas revelações tiveram o efeito de gasolina na fogueira do lado de lá. O cara estava cada vez mais mais entusiasmado e queria porque queria marcar um encontro logo. Meu amigo ficou desesperado, e resolveu engrossar a artilharia na base do agora-vai-ou-racha. Inventou que gostava de kinky sex. Que tinha tesão em coisas tipo fisting, golden shower, fezes e o escambau. Que curtia sexo violento, que tinha a fantasia de ser estuprado, que era adepto de sexo grupal e orgias inomináveis. A situação piorou ainda mais: a essa altura o cara já estava apaixonado. Disse que o meu amigo era o homem que ele sempre sonhara. Que estava disposto a dar casa, comida e roupa lavada em troca de uma vida inteira de sexo bizarro. Aí não teve jeito: rolou o bloqueio súbito mesmo. E meu amigo foi imediatamente tomar um banho com sabão de barra, porque se sentia sujo com toda aquela conversa absurda. É engraçada (ou na verdade trágica) a enorme dificuldade que temos para expressar o que sentimos -- seja esse sentimento tanto algo positivo como negativo. Sofremos para dizer que gostamos de alguém, e sofremos ainda mais para dizer que não gostamos de quem gosta de nós. Vez por outra nos vemos nessa situação de estarmos como que agrilhoados a alguém que nos dedica um sentimento que não conseguimos corresponder, sem jeito para nos desvencilhar, e sofremos com a demora para resolver essa situação. Quando eu fiz intercâmbio, estudei na aula de literatura uma peça de Tennessee Williams chamada "The Glass Menagerie", que contava a história de Tom Wingfield e o seu dilema por libertar-se das garras da mãe manipuladora e da dependência da irmã meio retardada. Lembro-me que numa cena Tom narra que tivera um sonho, no qual estava preso numa caixa de cristal (como a cristaleira da irmã que dá nome à peça), e que tentava sair dali sem quebrar nada, como vira Houdini fazer num espetáculo de mágica. Entendi que esse sonho representava o anseio de Tom de livrar-se da mãe e da irmã, sem contudo machucar seus sentimentos. Só que isso era impossível, e no fim da peça o próprio Tom entende isso. Só psicopatas e gente patologicamente egoísta são capazes de infligir sofrimento sem sofrer também, isso porque quase nunca o fato de não amar alguém significa desprezo pelos seus sentimentos. A verdade é que há níveis distintos e estanques de relacionamentos, e um dos dilemas mais angustiantes que a vida pode reservar para nós é percebermos que alguém nutre por nós algo de uma forma que não encontra nenhum eco no nosso coração. Lidar com uma situação dessas é uma prova de fogo para a maturidade de qualquer um, e é também o contraste que diferencia os vermes covardes das pouquíssimas pessoas que honram a sua condição de bípedes eretos e dotados de polegares opositores. E o pior é constatar que quase nunca essa covardia tem a ver com o fato de causar sofrimento no outro; na maioria das vezes o que nos assombra é o medo de perder o certo pelo incerto, e nos entregarmos à solidão e à carência depois de despedirmos quem, bem ou mal, supre essas necessidades. Ou seja: no fim das contas nos preocupamos conosco mesmos. Sendo franco (e certamente comprometendo a conclusão desse post), eu já me adianto que acho que só há uma saída para uma situação assim: dizer a verdade, nua e crua, tão logo ela seja descoberta. É sentar, olhar no olho, e usar a própria voz -- não vale mandar escrever cartinha, mandar SMS ou mensagem no Facebook (ou no Orkut, para os defasados). Reconhecer o sentimento da pessoa ao mesmo tempo em que expõe a impossibilidade de dar-lhe correspondência. Ser honesto. Se antes não faltou disposição para vir buscar companhia, beijinho e sexo, agora é a hora de ter a honradez de também arcar com a responsabilidade do cativeiro que cultivou (nesse ponto vale ler "O Pequeno Príncipe"). E, o mais importante de tudo: fazer o compromisso pessoal de honrar a palavra, aguentar o tranco da carência e da solidão que virão, e jamais ir perturbar aquela pessoa novamente. Essa via direta é a mais eficaz, claro, mas também é a mais difícil. Requer muita coragem e tato para que não descambe numa cafajestagem insensível, nem caia num enorme ralo em que vai fazer essa história girar, girar, girar e nunca se definir. Para escapar dela, as táticas conhecidas são muitas -- a maioria não tão radical nem tão engraçada como a que o meu amigo empregou na história que eu contei lá em cima. A principal delas é a "Manobra de Penélope": consiste em você ir desfazendo o relacionamento paulatinamente, como quem desfaz uma peça de tricô puxando o fio da meada. São aplicadas doses crescentes de indiferença dia após dia, até que a pessoa perceba que aquela história acabou. Assim, o sexo primeiro torna-se morno, depois cada vez mais esparso até que por fim se extinga de vez. Os beijos se tornam selinhos, que por sua vez vão rareando até também desaparecerem. Por fim o que sobra de um proto-romance vira uma brodagem carinhosa, até o ponto em que se começa a apresentar novos pretendentes para quem outrora foi o amor para a vida. Há ainda o "Tática do Chifre em Cabeça de Cavalo", que é de execução bem mais simples embora tenha como efeitos colaterais provocar gravíssimos distúrbios paranóicos em suas vítimas. Basicamente o procedimento é passar a criar caso com absolutamente tudo que diz respeito à pessoa. Implicar com a roupa. Com o jeito de beijar. Com os amigos. Com o que ela fala, ou deixa de falar. Criticar a família. Enfim, fazer do relacionamento um inferno até que o pobre-coitado peça para sair. Para os veteranos com mais experiência nessa tática, há quem consiga fazer isso tudo só que ao contrário: se tornar passivo-agressivo furioso, e fazer a pessoa se sentir péssima ao convencê-la que é ela -- e não você -- que está pondo o relacionamento a perder. Faça isso por um tempo e então termine com tudo com uma cara compungida (e falsa) de injustiçado. E o outro que vá se internar num manicômio, com os nervos em frangalhos. Por fim, no fundo do saco de maldades está o famigerado W.O., ou simplesmente Síndrome da Amnésia Pós-Coito. Jargão esportivo, W.O. é a sigla para walkover: retirada do time de campo, o abandono da partida. Aquele golpe baixo que só já sentiu quem um dia acordou e descobriu que estava namorando sozinho. Cúmulo da covardia e da irresponsabilidade, trata-se de ignorar o fim do relacionamento simplesmente negando-lhe a existência desde sempre, seguindo a filosofia do "se não me lembro, não aconteceu". Fundamenta-se na indiferença que pode ir desde da simples mudança brusca de tratamento (de namorado para amiguinho) até o surto patológico que leva a ligações não atendidas, recados não retornados, MSN bloqueado, Facebook deletado e estranhamento social de uma hora para a outra. Em suma, crueldade em seu grau mais vil. Seja como for, tudo isso nasce do direito (na verdade um dever) de sermos sinceros conosco mesmos e com os outros. Ninguém é obrigado a, sob que pretexto for, beijar e se entregar a alguém só por medo de magoá-la, ou ainda dedicar o precioso tempo da sua vida nutrindo algo por alguém que não é capaz de corresponder à altura. Antes ser mal compreendido e mal falado do que estar mal acompanhado, justamente quando a pessoa certa pode estar por perto e solteira.
Escrito
por Rindu às 13:02
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TOMANDO IMPULSO

Não sei por que eu tenho o hábito de, a cada começo de ano, tecer um vaticínio para os 365 dias que estão vindo em seguida. Não saberia dizer se o que eu digo é realmente uma previsão do que se avizinha, ou o enunciado de uma predisposição minha que vai acabar influenciando o que vai acontecer na minha vida nos meses subsequentes, mas fato é que eu raramente me equivoco. Sabe-se lá de onde vem essa certeza que enche a minha mente com tamanha convicção, e na verdade não acho que isso importe tanto assim. Para mim o que pega é prestar atenção nessa sensação e a partir dela ir comparando com o que vai acontecendo. Em janeiro de 2011 eu declarei que aquele seria um ano difícil, um verdadeiro vale de lágrimas. E olha, eu não poderia ter acertado mais. Foi um ano de muitas conquistas importantes e muita coisa boa, sim, mas também foi um ano que começou e terminou com decepções bem complicadas de serem digeridas. Nada que me matasse, claro, mas com certeza foram experiências que hoje, olhando em retrospecto, me fazem questionar se era mesmo necessário que eu passasse por elas. É foda quando a gente percebe que pessoas que a gente num momento julgou tão importantes mais tarde mostraram-se essencialmente irrelevantes, e que a gente desperdiçou uma quantidade imensa e inútil de energia com elas. Bom, talvez esteja aí a lição: avaliar primeiro, dedicar-me depois. Para 2012, no entanto, o prognóstico é bem melhor. Em resumo, eu diria que será um ano de transformações -- de certa forma semelhante, mas muito melhor, do que 2010 foi. Para que se tenha uma ideia mais clara do que eu estou falando, imaginem passar muito tempo pagando um título de capitalização: uma grana sofrida que todo mês é sacrificada em nome de algo que ninguém sabe para o que serve. Pois bem, em 2012 será o resgate desse investimento. Sacrifícios, esperas, abnegações, privações, tudo isso será compensado nesses próximos meses, podem apostar. Essa convicção é tão forte que eu comecei o ano com aquela sensação de sentir os meus músculos retesarem, preparando-se para dar um grande salto. Em qual direção será esse salto, eu não tenho nem mesmo a mínima noção, mas sinto a necessidade de estar pronto para quando a hora chegar. E isso é um pouco complicado, porque eu ainda não me sinto com as forças plenemante restabelecidas. Então tenho que juntar o restinho de energias que tenho para dar o máximo de mim. Vai ser duro, até doloroso, mas eu sei que o esforço vai compensar. Então vamos que vamos.
Escrito
por Rindu às 12:18
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QUERO NÃO

E já se vai o dia 03 de janeiro, e começamos a considerar definitivamente 2011 como passado. Vamos nos acostumando a falar "no ano passado", ou "em 2011...", enquanto recapitulamos o que aconteceu nos últimos 365 dias e fechamos a contabilidade de perdas, ganhos e aprendizados. Isso me faz pensar como é engraçado esse hábito de classificar os períodos de nossas vidas pelos anos em que as memórias foram acontecendo. Acho que é disso que nasce uma nostalgia meio escapista que é tão comum. Sempre se ouve alguém dizer que gostaria de poder voltar para um determinado ano já bem longínquo no passado, como se aquele conjunto de quatro números encerrasse em si mesmo algum poder mágico de atribuir felicidade. Eu não poderia agir de maneira diferente. Também tenho cá a minha listinha de anos memoráveis e anos execráveis: 1984, 1986, 1991 e 1992, 1995, 1997 e 2007 são anos cujo saldo final foi bem positivo, a ponto de merecerem uma certa nostalgia quando são lembrados; por outro lado 1987, 1989, 1993, 1999 e 2002 merecem um arrepio mesmo à mais sutil lembrança. São anos que só me proporcionaram a alegria de tê-los sobrevivido, e mais nada. À medida em que 2011 se vai, vou percebendo que o gostinho que ele deixa para trás não é dos melhores, não. Não que os últimos anos sirvam como comparação, mas para mim é inegável que 2011 conseguiu a proeza de agregar muito mais lembranças amargas do que 2010, que sempre vai ser lembrado como um ano ruim por tudo o que eu tive que enfrentar. No ano retrasado eu tive que enfrentar um monte de dificuldades e superar um punhado de obstáculos que pareciam por à prova a minha capacidade mental e física. Passei pela a ruptura com as minhas raízes em Brasília e a luta até achar um teto e começar a fazer um ninho em São Paulo. Foi duro, sofri um bocado, mas nem de longe foi tão difícil como 2011. Fato é que o ano passado vai para sempre ser lembrado porque eu quase sucumbi e voltei à tênue fronteira entre a sanidade e a loucura. Nesses últimos 365 dias eu levei cada fibra do meu coração quase ao seu limite máximo de exaustão -- e a perdição completa só não se deu por força da mão de Deus. No último momento eu consegui juntar o que restava de equilíbrio em mim e consegui sair do tubilhão que a minha vida se tornou. Foi por pouco, bem pouco. Agora que estou tratando as feridas e recuperando as forças, percebo assustado a dimensão do que eu encontrei pela frente nesses últimos meses. É impressionante para mim constatar o quanto eu fui ingênuo, mesmo do alto dos meus 36 anos de idade. O quanto eu fui crente numa pretensa retidão de propósitos que, no fim das contas, simplesmente provou-se sordidamente mentirosa. Me fiz de bobo e me deixei usar até o ponto de conhecer da pior maneira possível até onde pode ir o egoísmo e a falta de princípios que só o caráter mais questionável pode urdir. Bom, ficou o amadurecimento, o aprendizado. A verdadeira comprovação da máxima nietzchiana de que o que não nos mata, torna-nos mais fortes (e no meu caso, mais duro). Sigo em frente como tem que ser, peito aberto e consciência limpa, guardando no fundo do coração aquela inquietante certeza escorpiana de que o mundo não é redondo à toa. A lei da ação e da reação é implacável: fatalmente aquilo que fazemos pela frente há de nos alcançar de surpresa, na mesma medida, por trás. Não sei se me serve de consolo imaginar quais cartas a vida guarda na manga nesse jogo meio estranho do aqui-se-faz-aqui-se-paga. Prefiro não pensar nisso até a hora que chegar a minha vez de jogar. Por ora, só sei que voltar para 2011, eu não quero, não.
Escrito
por Rindu às 16:55
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PORQUE ÀS VEZES É MELHOR DEIXAR DE LADO

"Se a gente não tivesse feito tanta coisa, Se não tivesse dito tanta coisa, Se não tivesse inventado tanto Podia ter vivido um amor Grand' Hotel". "Grand' Hotel", Kid Abelha Quem ama perdoa. Essa é uma das máximas mais repetidas em relação à enorme resiliência que é a característica mais marcante do amor. A própria Bíblia já diz que "o amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. (...) Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". No entanto, se engana quem cai na esparrela de achar que essa capacidade de regeneração do amor torna o coração blindado contra qualquer ameaça, porque isso simplesmente não acontece. Tal qual um prego que é fixado numa madeira e depois é retirado, as mágoas também deixam marcas depois que são perdoadas... e essas marcas são cicatrizes duras, insensíveis, pouco flexíveis. De forma que uma ou outra pode acabar passando despercebida, mas se começam a se acumular em grande quantidade, podem acabar comprometendo toda a capacidade de amar de uma pessoa. E para isso acontecer não precisa uma grande catástrofe, não. Fato é que o amor não é algo que é feito para ser posto à prova à torto e a direito. É para ser trazido com as duas mãos, cuidadosamente, com todo o zelo que pede a fragilidade que lhe é peculiar. Quando abandonado à sua própria sorte, o amor se ressente e é daí que surgem suas cicatrizes. Há alguns posts atrás eu escrevi sobre os não-ditos -- e acredito que sejam eles um dos maiores causadores dessas feridas mal cicatrizadas nos corações das pessoas. O amor é algo que tem que ser vivido, não conversado. Quando se tenta oralizar o que se sente por alguém, tudo cai num ralo de relativismo que empobrece e empalidece qualquer emoção. O que deveria durar para sempre, permanentemente se retroalimentando, parece ser largado à míngua, e acaba por definhar. O amor começa a morrer por dentro, até que o que sobra dele é uma casca oca e seca de inércia e formalismo. Por isso que tem horas que o melhor é calar-se. Não atender ao telefone, não responder mensagens, não dizer nada. Quando não há absolutamente nenhuma novidade a ser dita (ou melhor: quando tudo o que precisava ser dito -- e ouvido -- já o foi), o melhor mesmo é não tocar mais no assunto. Deixar para lá, esquecer, para definhar de vez. Ou para guardar para o futuro. Tocar em frente, ou fingir que consegue fazer isso.
Escrito
por Rindu às 16:33
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O SILÊNCIO DEPOIS DA CHUVA
Todo rompimento é traumático. E é assim porque é assim que tem que ser. Rompimentos necessitam ser bruscos, até mesmo cruéis, sob pena de simplesmente deixarem de ser rompimentos para se degenerarem em algo que é só "um tempo". O esparadrapo arrancado de uma vez só da ferida infeccionada causa mais dor, é verdade, mas também bem menos dano do que a ilusão de que aquela situação poderia ser deixada de lado para se resolver por si mesma. Quando a dor rasga nossa alma de cima abaixo, nos debatemos meio cegos, por instinto. Dizemos coisas desconexas. Portas são batidas, paredes esmurradas, e tudo o que há em volta que lembre esse passado recente, cujo esquecimento de repente torna-se urgente, parece precisar ser imediatamente eliminado. Na vida virtual que todos temos, isso se vê principalmente nas redes sociais: uma torrente de exclusões, bloqueios, deletadas acontecem -- que na verdade nem precisavam acontecer. Como um mar de ressaca que inunda o litoral e depois volta ao limite costumeiro da maré, eu também revogo algumas sentenças que a sensatez me mostra serem por demais severas. Rompimentos não significam inimizade; são só o que o seu nome infere: uma despedida definitiva.
Escrito
por Rindu às 17:40
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