"I'm only happy when it rains
I'm only happy when it's complicated
And though I know you can't appreciate it
I'm only happy when it rains
You know I love it when the news is bad
And why it feels so good to feel so sad?
I'm only happy when it rains

Pour your misery down on me

I'm only happy when it rains
I feel good when things are going wrong
I only listen to the sad, sad songs
I'm only happy when it rains.
I only smile in the dark
my only comfort is the night gone black
I didn't accidentally tell you that

I'm only happy when it rains

You'll get the message by the time I'm through
when I complain about me and you
I'm only happy when it rains

You can keep me company
As long as you don't care

I'm only happy when it rains
You wanna hear about my new obsession?
I'm riding high upon a deep depression
I'm only happy when it rains!".

"I'm Only Happy When It Rains"
Garbage.








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COMO UMA VELA QUE QUEIMA


Quando eu era criança, me habituei a ver a casa dos meus avós frequentada por todo tipo de gente. Virava e mexia, aparecia por lá um pessoal bem pobre, judiado pela vida, que vinha da roça ou da periferia de Araguari só para falar com o meu avô. Eles não vinham pedir dinheiro, nem comida, nem nada: só queriam desabafar sobre as mazelas de suas vidas. Se queixavam de por um emprego perdido, pela família ameaçada pelo adultério, ou pelas drogas, pelo alcoolismo ou a pobreza. Talvez por conta de algum legado de sua longa carreira como Promotor de Justiça, meu avô acabou também se tornando confidente daquela gente -- que, se antes de ele aposentar-se vinham queixar-se das injustiças do mundo, depois passaram também a vir compartilhar suas tristezas.

Lembro-me de muitas vezes eu ter encontrado o meu avô sentado no alpendre do casarão da Rua Quinca Mariano, pacientemente ouvindo o balbucio choroso de velhinhas usando paninhos amarrado na cabeça para prender os cabelos brancos, vestidinhos de chita muito limpos, chinelos gastos nos pés e os rostos crispados pela dor e pela judiação da vida. Elas choravam baixinho, humildes, enxugando as lágrimas com as mãos grossas de quem na vida só conheceu o conforto do cabo de uma enxada, enquanto davam voz aos seus corações entre gestos de quem clama a Deus pela sua desgraça.

Eu mal conseguia compreender o que elas diziam, fosse por causa do choro, do sotaque forte ou da dicção comprometida pelos muitos dentes que faltavam. Na verdade eu não sei nem se meu avô conseguia entendê-las, mas acho que isso não importava nem um pouco: o importante era acolher aquelas pessoas, dar-lhes o conforto de ter alguém que se importasse com elas e lhes oferecesse um ombro para chorar. Raramente eu vi o meu avô dizendo alguma coisa; ele passava quase que o tempo todo olhando nos olhos dessas velhinhas, e de quando em quando pousava a mão em seus ombros, compadecido.

Confesso que eu não tinha noção do papel que o meu avô tinha na vida dessas pessoas até o dia 23 de fevereiro de 1987, quando ele morreu. No dia seguinte, Araguari parou: assim que o corpo chegou de Brasília foi levado para o Tribunal do Júri, que mais tarde foi batizado com o seu nome, para ser velado; antes do enterro houve um Réquiem na Igreja Matriz, que ficou apinhada de gente. O Município decretou luto oficial por três dias, e no dia do enterro algumas escolas não tiveram aula. O cortejo de carros que o levou para o cemitério tinha mais de quilômetro de comprimento, de modo que quando o caixão chegou no Cemitério ainda havia gente na Igreja da Matriz, do outro lado da cidade.

Em meio a tanta gente havia muitas pessoas importantes da cidade, conhecidos da família e parentes vindos de São Paulo ou Belo Horizonte. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi um grupo que ficou discretamente à larga, mas que se lamentava num pranto sofrido por tamanha perda: as tais velhinhas que eu via no alpendre da casa do meu avô, alguns anos antes. Não choravam alto, nem davam escândalo, nem queriam chamar a atenção para si: num canto, com seus paninhos amarrados na cabeça, chinelos e vestidinhos de chita, se despediam como podiam de alguém que, suponho, consideravam um amigo de verdade.

Até hoje, nos dias de finados, encontramos algumas daquelas florzinhas de papel crepom sobre o jazigo da nossa família. Essas provavelmente foram postas ali por alguém que, na sua pobreza, até hoje encontra meios para homenagear meu avô e mostrar que ainda se lembra dele.

Isso me marcou profundamente, porque me fez ver que o que importa não é o dinheiro que se acumula ou o status social que se alcança, mas sim a diferença que fazemos nas vidas das pessoas que cruzam o nosso caminho. E aprendi que para isso não é preciso fazer uma grande obra, ou ter muito dinheiro, ou ser famoso: basta se esforçar por acolher quem quer que seja, e se compadecer de coração pelos infortúnios que atingem quem está à nossa volta.

Desde então eu sempre desejei que, no dia em que eu morrer, eu tenha tanta gente triste pela minha partida quanto teve o meu avô. Quero ser daquelas pessoas que, mesmo depois de muito tempo desaparecidas, ainda são lembradas por quem as conheceu com aquele breve silêncio de quem se lembra de alguém muito querido, e que faz falta.

Num mundo onde o individualismo é quase que uma regra universal, anda cada vez mais difícil encontrar por aí quem se disponha a, de maneira gratuita e desinteressada, abrir o coração para acolher e dar ouvidos a quem precisa. O resultado disso é fácil de se ver: antidepressivos sendo vendidos como Aspirina nas farmácias, os consultórios dos psicólogos lotados, e muita solidão visível nos olhos de quem encontramos pela rua.

Eu quero ser diferente.



 Escrito por Rindu às 13:18
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QUANTA DIFERENÇA!


E aí que faz umas duas semanas que eu troquei de academia, depois de quase cinco anos de fidelidade ali na ACM. Saí de lá e me joguei na Club 22, bem feliz e contente.

Tudo bem que eu até gostava da ACM, daquela coisa de academia de bairro razoavelmente bem equipada e com professores capacitados -- pelo menos quando eu me matriculei lá. E o melhor de tudo: livre de periguetes e playboyzinhos. Mas aconteceu que, ao longo desses anos, a coisa foi se degradando pouco a pouco, até o ponto de chegar um momento em que continuar ali se tornara uma questão de abnegação e renúncia à minha dignidade.

Sério, no dia que eu percebi que não estava no meu contrato ter que malhar numa academia imunda, decadente, e com instrutores escrotos (uns estagiários que achavam que aquilo era a churrasqueira da casa deles), eu capei o gato tão rapidamente que eu mesmo fiquei impressionado. Cheguei na secretaria, pedi a minha alforria, e em dois minutos joguei a minha echarpe e saí trinfante porta afora, para nunca mais voltar.

De certa maneira foi uma pena, porque eu até que deixei alguns amigos legais para trás. Mas a partir do momento que eu vi que essa era a única coisa que ainda me prendia ali, eu admiti que era a hora de ir embora: amigos fazem-se em qualquer lugar, e os amigos verdadeiros permanecem mesmo sem a facilidade da convivência rotineira. E, de fato, não dava mais: de um ano para cá, a ACM emborcou numa decadência tão ferrada que não dava mais para aguentar calado e fingir que não se via nada.

Tudo na sala de musculação era tão imundo que eu saía de lá parecendo que eu tinha trocado um pneu. Aliás, a limpeza da academia era a coisa que mais deixou a desejar. O cara da manutenção parecia que tinha um único pano encardido para limpar com a maior displicência possível tudo o que se via: o chão, os espelhos e sei lá mais o quê. Havia teias de aranha por todos os lados, e ultimamente estava se tornando perturbadoramente comum encontrar insetos amassados e secos por baixo dos halteres e anilhas. O banheiro tinha constantemente um cheiro muito estranho de sebo, e vivia alagado. Nojo, gente. Muito nojo.

A sala de musculação estava ficando uma coisa complicada. Eu cheguei a me cortar no plástico de proteção do estofamento de um equipamento, que estava quebrado havia meses. Aliás, vários equipamentos estavam assim, e ninguém fazia nada -- e ainda achavam que era frescura se alguém reclamava. Isso sem falar que placas de pesos com o respectivo número indicativo das cargas era a exceção das exceções -- o que fazia com que malhar ali também se transformasse num exercício matemático, ou que a coisa ficasse mesmo na base da tentativa e erro.

Mas o que me dava mesmo nos nervos era a constante bagunça: tudo fora do lugar, espalhado pelo chão, e sem ninguém que cuidasse de organizar aquilo. Era um custo encontrar os halteres largados do outro lado da academia, ou pegar anilhas misturadas nos racks com todos os outros pesos. Os instrutores tropeçavam na desorganização, mas ignoravam tudo como se não fosse problema deles -- no que, aliás, eram imitados descaradamente pelo cara da limpeza. Como eu não aguento desordem, no final era eu que estava catando tudo no chão e guardando de maneira organizada -- mas quando percebi que eu estava dando uma de otário porque pagava uma mensalidade que não era barata para só ter aborrecimento, vi que tinha chegado a hora de cantar para subir aquela porra toda.

A Club 22 é mais cara, mas meu: compensa cada centavo. A limpeza é impecável, os equipamentos de ponta, o espaço amplo, arejado. Eu posso fazer qualquer aula da academia sem ter que me aborrecer com planos para isso e para aquilo. E o público... cara, quanta diferença. Depois de cinco anos convivendo com uma rafuagem muito da feia na ACM, eu tenho visto tanta gente linda na Club 22 que isso tem até alterado a minha percepção estética no dia-a-dia. Hoje não é mais qualquer coisa que me impressiona, ao passo que antes já me chamava a atenção encontrar alguém que tivesse os dentes da frente.

Mas à parte disso tudo, o que mais tem me chamado a atenção é a educação do staff da academia. Absolutamente todo mundo faz contato visual, sorriem e fazem questão de cumprimentar, seja quem for. E isso me agonia, porque sabendo o quanto Brasília é uma terra de cavalgaduras chucras, gente muito bruta e mal-criada, imagino o quanto esse pessoal fica no vácuo.

Chega a dar dó.



 Escrito por Rindu às 12:52
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VOLTEI


Pois é, eu voltei.

Depois de um mês fora aqui do Quarto 1222, voltei com um mega post daqueles bem doídos, como muita gente aqui gosta de ler.

Foi mal o sumiço... nesse tempo eu andei ocupado demais tentando não pensar na vida e evitando a fadiga. Fiquei dias e dias e dias lendo blogs vazios e tentando inutilmente evitar o inevitável: mais uma vez fiquei por entender por que certas coisas acontecem comigo.

Não entendeu? Nem eu, para ser sincero. Mas e daí, né?



 Escrito por Rindu às 17:45
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KARMA IS A BITCH


Quando eu tinha dezessete anos, procurei uma psicóloga para fazer um teste vocacional. Já estava na época de eu decidir para que cursos me inscreveria nos vestibulares, e de tanto insistirem que eu deveria fazer direito ao invés de arquitetura, que sempre fora o meu desejo, eu estava deveras confuso.

O resultado do teste não foi nem um pouco conclusivo e nem me ajudou muito, como pode se ver na minha vida hoje em dia. Mas uma parte dele foi extremamente marcante, porque já naquela ocasião trouxe à luz coisas das quais eu só tomaria consciência mais de uma década depois: o teste HTP (house-tree-person).

Para quem nunca ouviu falar desse teste, ele é muito simples: consiste em você fazer livremente quatro desenhos: uma casa, uma árvore, e duas figuras humanas: uma masculina e outra feminina. Por meio desse teste os psicólogos têm como revelar facetas impressionantes da personalidade de um indivíduo, passando desde como ele se situa no mundo à sua volta até como ele se vê e vê os outros ao seu redor.

Não houve nada extraordinário quando eu desenhei a casa e a árvore, mas algo digno de nota surgiu quando eu desenhei as figuras humanas. A mulher eu desenhei primeiro: bem posicionado no meio do papel, o desenho trazia os detalhes do rosto razoavelmente bem traçados, um cabelo arrumado, as mãos bem detalhadas (inclusive com esmalte nas unhas), boca maquiada e pés calçados em sapatos de salto alto firmemente plantados no chão. Havia ainda um colar de pérolas no pescoço, uma blusa e uma saia que denotavam uma proporção minimamente harmoniosa em seu corpo --isso, depois eu soube, representa o equilíbrio entre os campos mental, emocional e sexual.

Já a figura masculina... era o próprio caos.

Apressado porque o tempo para fazer os desenhos já ia terminar, o homem que eu desenhei saiu completamente distorcido. Era uma figura grande, desproporcional, atirada a esmo no papel. Como eu comecei o desenho a partir de uma cabeça muito grande, desenhada um pouco acima da metade da folha, o corpo acabou ficando também grande demais para o espaço que restava, e acabou ficando sem pés, com as pernas inconclusas na altura das canelas.

O cabelo era uns poucos riscos, o rosto trazia olhos arregalados, a boca contrita e rasgada, e os braços estavam erguidos como quem se rende, pede desculpas ou se defende de um ataque. As mãos eram indefinidas, com todos os dedos do mesmo tamanho e em número maior ou menor do que o normal. O corpo não trazia divisões definidas: a linha do queixo era o que separava a cabeça do tronco, que seguia até uma linha da cintura abrupta. As mangas se estendiam até os pulsos e as calças, assim como as pernas, também não tinham fim.

Esses testes HTP são uma fonte riquíssima de interpretações, havendo quem diga que se pode praticamente decifrar uma pessoa completamente a partir desses desenhos tão bobos. Em especial, a análise das figuras humanas que eu criei trouxe luz a uma série de conflitos internos que eu ainda sequer sabia que existiam (alguns inclusive relativos à minha sexualidade), ou que lutava ferrenhamente para esconder.

A interpretação foi categórica: entre outras coisas, a psicóloga me disse que havia graves discrepâncias entre a imagem que eu tinha dos outros (a figura feminina, o "não-eu" no jargão psicológico) e a que eu tinha de mim mesmo (a figura masculina).  Assim: ao passo que eu enxergava os demais à minha volta como seres equilibrados, com todas as áreas de suas existências harmoniosamente coordenadas, eu me via em meio a uma balbúrdia onde o mental e o emocional se duelavam de maneira cruel e completamente apartada do sexual.

E isso não era tudo: enquanto para mim o mundo era feito de pessoas bem situadas, pés plantados no chão e mãos bem-feitas, eu me via numa constante queda, sem pés, sem chão, e desprovido de mãos que pudessem me ajudar a criar vínculos e me firmar no mundo. A própria posição do desenho da figura masculina na folha de papel, quase "caindo" dela, apontava para essa sensação de estar sempre em queda, vendo as coisas passarem por mim sem contudo delas conseguir tomar parte. Frente a isso tudo, os braços em defensiva e os olhos arregalados da figura no desenho praticamente explicam-se por si mesmos.

Saber desse resultado foi uma experiência extremamente pertubadora para mim naquela época, e hoje eu vejo essas observações da psicóloga quase que como uma profecia para as décadas que se seguiriam àquele dia em setembro de 1993. Isso porque toda a harmonia que eu enxergo no mundo encontra o seu fim a um centímetro da minha pele: para qualquer um é algo normal e corriqueiro ter uma relação amorosa estável, uma vida profissional minimamente realizada e uma vida que pelo menos pareça que está cumprindo uma trajetória linear.

Para mim, não é: os meus relacionamentos passam por mim como coisas escorregadias, às quais eu simplesmente não consigo me vincular. As pessoas entram e saem da minha vida como que por passe de mágica, na maioria das vezes completamente ignorantes do estrago que causam. Me falta um chão aos pés, onde eu possa me sentir construindo alguma coisa valiosa e prática para a minha vida; ao contrário disso, tudo o que eu tenho é um trabalho onde a minha mais recente conquista foi terminar de ler todas as mais de 430 páginas do blog Fuck My Life (qualquer relação do título com a minha vida não é mera coincidência). E de resto, a minha vida parece seguir uma trajetória em espiral descendente, seguindo errática e às topadas pelos anos afora. Ou seja, o tipo de coisa que serve perfeitamente de material para um seriado de TV de humor negro.

Mas querem saber? Pode até parecer mentira, mas eu não constato isso com mágoa, ou uma pretensa autopiedade. Acho que depois de tantos anos eu simplesmente aprendi a compreender isso tudo como uma característica meio ingrata da minha vida, mas que dela faz parte. De maneira que cabe a mim aprender a lidar com ela, mais do que negá-la ou me lamuriar pela sua existência. Sei lá, isso tudo pode ser o que algumas religiões entenderiam por karma mais do que uma maldição.

Talvez lutar com tudo isso possa ser um meio de eu me tornar uma pessoa melhor e, quem sabe um dia, mais feliz.

Por favor, torçam por mim.



 Escrito por Rindu às 17:17
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NÃO ME FAÇAM PERGUNTAS DIFÍCEIS


Que eu ando profundamente embucetado com o meu trabalho e minha carreira profissional não é segredo para ninguém. Ando mesmo frustrado com o rumo que a minha vida tem seguido, porque para mim fica cada dia mais claro que, ao passo em que eu tenho que cada vez mais arcar com esforços crescentes, desgastes extenuantes e responsabilidades imensas, cada vez menos tenho obtido realização pessoal ou profissional.

Por cima disso tudo, a noção de que o meu ganho financeiro em troca disso tudo tem sido bem medíocre, só me enfurece ainda mais. Para mim é muito foda parar para pensar que eu já tenho 33 anos e até agora não consegui construir nada de relevante, seja em termos materiais, seja em termos de crescimento como ser humano. O tempo passa, o tempo voa, e tudo na minha vida continua uma bosta.

E aí eu resolvi dar um basta nisso. Mandei às favas a minha birra contra concursos públicos e resolvi embarcar nessa também, como todo mundo nessa cidade esquecida por Deus. Cansei de chefe doido, de instabilidade de contrato, de salário chorado, de férias usurpadas e de sobrecarga de trabalho e de responsabilidades. Se eu tiver que vender os meus idealismos para poder ter estabilidade, um salário digno, férias decentes, potencialmente menos encheção de saco e uma carreira bem modorrenta, que seja. Ando sentindo que querer realização pessoal, profissional e material num pacote só é o mesmo que correr atrás da Lua: um delírio. Então vou ceder daqui e de lá, e vamos tentar conquistar isso por partes.

Conversei sobre isso com um amigo, que trabalha justamente num dos muitos cursinhos preparatórios para concursos públicos que existem aqui. Perguntei-lhe se ele achava melhor que eu me matriculasse um cursinho especializado num certo concurso, ou fizesse cursinhos para uma ou outra matéria específica, de maneira genérica. E ele não me respondeu na hora: falou para eu dar uma passada na casa dele depois que saísse do Escritório.

Quando eu cheguei lá, ele se sentou na minha frente e, como uma esfinge, me atirou à cara o mais complexo enigma que eu tenho enfrentado nos últimos anos:

"o que você quer fazer da sua vida?"

Suei frio à medida em que vasculhava a minha mente em busca de uma resposta. Tentei vislumbrar qualquer idéia minimamente realista de algo que eu gostaria de fazer, e que eu pudesse passar a fazer num curto prazo. Para o meu desespero, em meio a um monte de coisas que eu já sei que não gostaria de fazer, não consegui pensar em absolutamente nada. As alternativas não eram muitas: voltar a ser advogado, trabalhar com prestação jurisdicional? De jeito nenhum. Mexer com números, valores? Não mais. Há algum concurso decente em vista, para alguma posição burocrática e administrativa? Não.

Tive que resignar-me e assumir para mim mesmo que eu sou um perdido na vida. E também vi que a razão pela qual vago sem rumo pelo mundo é justamente porque sou incapaz de tomar uma direção e segui-la decidido. E não adianta querer a Lua se eu sou incapaz de tirar o meu pé do chão primeiro. E de pés e mãos atados frente a esse dilema, eu acabo me cansando de buscar uma luz para me sentar no chão e esperar a vida passar. É exatamente isso o que eu venho fazendo todos esses anos.

Aí eu me pergunto: o que fazer?



 Escrito por Rindu às 13:44
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CRESÇA E APAREÇA


Há uns anos atrás eu estava tão fora de forma que resolvi pegar pesado na academia. Para mim flacidez é mais sinal de desleixo do que banhas fartas, o que faz um magro sem-vergonha ser muito pior do que o qualquer gordo balofo. Então, em face do cós das minhas calças que teimava em dobrar-se, eu me meti a malhar na hora do almoço (ai, que saudade do tempo que eu podia fazer isso) e ainda voltava no fim da tarde para fazer aula de step.

Um dia nessa época eu fui almoçar no shopping com um amigo, e cruzamos com um dos professores da academia pelos corredores. O cara foi gentil (coisa rara em se tratando de brasilienses) e me cumprimentou, inclusive me chamando pelo nome. Eu fiquei surpreso daquele cara me reconhecer, porque em geral esse povo de academia é tudo filho-da-puta; mas o meu amigo me lembrou que o fato de eu ser visto malhando de manhã e à tarde com certeza me ganhou o respeito da galera.

É engraçado como as coisas funcionam nesse ecossistema das academias de musculação. Para quem vê de fora pode achar que nada demais acontece ali, mas a verdade conhecida pelos que frequentam o lugar é que há castas muito bem distintas entre aquelas pessoas -- castas que se ignoram mutuamente como se estivessem sozinhas em meio àqueles aparelhos. Por exemplo, os bombados, os instrutores e as gostosas se fecham num grupo inatingível, olímpico, que sequer toma conhecimento do resto de seres humanos normais que compartilha com eles o mesmo oxigênio. Há ainda o grupo dos adolescentes, facilmente identificável pela algazarra que fazem, pelos ombros estreitos e pelo uniforme que usam: bonés, bermudas largas e tênis novinhos. No meio desses há a vasta massa dos batalhadores, gente que está ali na sua, querendo malhar rápido e sem serem incomodados. E esses três grupos, por sua vez, ignoram completamente as tiazonas pelancudas, as cacuras magoadas e os gordos que deixam os aparelhos ensebados de suor.

Por toda a minha vida eu pertenci ao grupo dos batalhadores: já chegava na academia querendo ir embora, e malhava calado e alheio, taciturno, ouvindo música. Nos intervalos entre as séries, olhava fixamente para o chão, para não correr o risco de cruzar olhar com nenhum gaiato que ousasse pedir para revezar no aparelho. Essa foi a época que, depois eu soube, o meu apelido entre o primeiro time era "o autista do MP3".

De uns dois anos para cá eu resolvi acabar com essa aparência de cabide que sempre me definiu, e entrei num esquema mais organizado para malhar direito, visando ganhos mais substanciais. E toca eu comer todos os dias como um condenado, pegar pesado na academia, e gastar os tubos com nutricionista e suplementos. E embora devagar e às vezes sujeito a retrocessos ocasionais, a coisa tem ido em frente, sim: dos 74 quilos iniciais eu já estou consolidando 82 quilos.

Pode parecer muito, afinal são quase 10 quilos, mas não é: eu mesmo não venho percebendo muita diferença. Só agora é que alguma coisa parece estar começando a mudar de verdade, pelo que eu pude ver por causa das roupas que eu tenho perdido: blazers, camisetas, casacos e camisas sociais tiveram que ser dispensadas porque começaram a ficar pequenos ou apertados demais. Eu só não perdi calças até agora, o que é ótimo sinal: minha barriga continua seca (embora as calças estejam um pouco mais apertadas nas coxas).

Mas o que eu tenho percebido mudar mesmo é a atitude do povo da elite da academia em relação a mim. Se antes sequer notavam a minha presença, de repente passaram a me cumprimentar, e uns até já puxam papo. É como se eles só enxergassem as pessoas que têm um determinado volume corporal, tornando-se cegos e surdos para tudo o que estiver acima ou abaixo desse padrão. Eu, que antes não existia para eles, passei a existir de uma hora para a outra. Simples assim.

Eu continuo me comportando como sempre me comportei (embora sem o MP3, porque ele quebrou faz uns meses). Mas admito que essa súbita simpatia tem conseguido me impedir de me encasular como antes, para não ser grosseiro. Acho que se a coisa correr assim solta, eu temo pelo dia em que, levado de pouco em pouco, eu acabe como um deles: vindo malhar de regata, usando um cordão de prata uó no pescoço e de gel no cabelo arrepiadinho.

Se isso algum dia acontecer, por favor algum de vocês se compadeça da minha miséria e acabe com ela de uma vez por todas: atirem-me uma anilha de 20 quilos na cabeça.



 Escrito por Rindu às 16:47
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COMPARTILHADO E DIVIDIDO


Uma vez eu vi escrito em algum lugar uma frase mais ou menos assim: "se a alegria compartilhada é alegria dobrada, a tristeza partilhada é tristeza dividida". Uma grande e sábia verdade, essa. Não há quem nunca tenha experimentado o alívio que é abrir o coração e derramar todas as mágoas e aflições para alguém digno de confiança. Isso previne infartos e derrames, evita depressões e suicídios, melhora a pressão arterial e a auto-estima, e também serve como um indicador sem igual dos amigos verdadeiros que temos. Afinal, não é qualquer um que se alegra com a felicidade alheia ou partilha uma lágrima derramada.

É uma tarefa espinhosa ser escolhido para confidente, do tipo que requer muita abnegação e equilíbrio. Isso porque a inveja, o julgamento e a indiscrição são características inerentes a praticamente todo ser humano, mas não podem de jeito nenhum se manifestar quando são os nossos os ouvidos escolhidos para um desabafo. Há quem se prepare anos e anos para dar conta disso, como os padres e os psicólogos, mas nem sempre quem precisa vai procurar essas pessoas -- na maioria das vezes somos nós, meros mortais, os pegos de surpresa na mira de um par de olhos que nos imploram acolhida. E aí o jeito é rebolar muito para dar conta do recado, sem errar demais.

Eu não sei se é uma consequência da minha idade, e da maturidade que ela subentende (muitas vezes erroneamente), mas ultimamente eu tenho sido cada vez mais procurado por pessoas em busca de quem ouça as suas agruras e as acolha nalgum momento crítico de suas vidas. E também não sei se a complexidade dos problemas que me são confiados cresceu com o avançar da minha idade, mas a verdade é que eu tenho enfrentado barras cada vez mais difícies... E como isso tem sido difícil!

Dar conselhos para namorados em crise é algo que todo mundo faz desde que entrou na adolescência, mas o que dizer quando o que está em jogo não é uma relação de alguns meses, mas um casamento consumado? Ou como agir diante de quem acabou de receber um diagnóstico grave e provavelmente mortal? Como acolher quem descobriu que o seu pai é viciado em drogas? Ou que confidencia, em prantos, que descobriu que a mãe sempre foi infiel, e que não é filha da pessoa que ela sempre acreditou ser o seu pai?

Tento ficar calado e ouvir, até porque eu acredito que quem desabafa precisa mais falar do que escutar conselhos ou opiniões. Também acho importante olhar bem nos olhos, porque é um sinal de solidariedade. Enquanto a pessoa fala, o meu cérebro entra num esforço hercúleo para controlar as minhas feições, para que eu não mostre pelas minhas feições estar escandalizado, furioso ou condoído por tudo o que estou ouvindo. Ao mesmo tempo, busco quais as melhores palavras para dizer, e tento descobrir qual é o melhor momento para dizê-las. Nessas horas eu chego a suar frio.

Também evito banalizar o contato físico, por uma série de motivos: tocar demais pode ser sufocante, e também pode ser interpretado como uma demonstração de pena. Eu acredito que, na sua essência, a pena é um sentimento nefasto, que diminui as pessoas em sua dignidade. Justamente por isso eu me esforço por mostrar que apesar de tudo, eu nunca sinto pena de ninguém. Sofro junto, mas não sinto pena.

Aliás, sofro junto mesmo! Tem dias que eu saio dessas conversas querendo chorar, e levo horas para dissipar a urucubaca que se instala no meu peito. Sinto como se o conhecimento do turbilhão que antes afligia outra pessoa acabasse por fazer com que o meu coração seja também fosse arrebatado por ele... bem, se isso for assim porque eu tomei para mim parte da angústia que oprimia o outro, aliviando-o um pouco desse peso, isso tudo terá valido a pena. É a minha única esperança.



 Escrito por Rindu às 12:48
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RERIGUERI


Fim de semana passado eu voltei a Araguari, depois de sei lá quanto tempo, para comemorar o aniversário de 90 anos da minha avó paterna.

Eu sempre resisto em ir para Araguari, e não é porque não gosto da cidade ou de quem mora lá -- antes, muitíssimo pelo contrário: eu me considero viceralmente um araguarino no coração. O diabo é que a viagem é tão longa, tão cansativa, que eu penso duas mil vezes antes de embarcar nos esquemas bate-e-volta que costumam rolar. Esse negócio de rodar quase 500 km na sexta-feira de noite (ou às vezes sábado de manhã), e daí fazer o caminho todo de volta já no domingo é de matar. E nem é frescura da minha parte, vai: para quem tem metro-e-vinte de perna como eu, viajar tanto tempo assim de carro é uma tortura inominável.

A festa foi boa, como não podia deixar de ser. Eu sempre tive muito pouco contato com a família do meu pai, e praticamente só sei o nome de uma meia dúzia de parentes. Mas isso não me impede de ficar feliz de revê-los. Aliás, esse anos de afastamento crônico intercalados com encontros intensos, me fizeram perito na arte de conversar com alguém sem mostrar que eu não sei o seu nome, ou ainda ter um jogo de cintura ninja para os ocasionais "você sabe quem eu sou?" que vira e mexe aparecem pela minha frente.

Também foi muito bom rever a família da minha mãe. Com esses sim, eu tenho uma relação muitíssimo mais profunda do que a de meros primos. Somos todos verdadeiros irmãos, bem próximos, mesmo quando a rotina louca que todos já levamos nos faz ficar tempos sem nos vermos. Quando nos encontramos, não temos mais hora para nada: nos sentamos em volta de uma mesa e começamos a beliscar comidinhas e contar mil casos noite adentro. No domingo, então, fizemos uma sessão de fotos igual às que tanto nos divertiam quando éramos crianças, e isso rendeu muita risada. A gente sai de um encontro desses com a alma mais leve.

A surpresa desse fim de semana tão intenso foi a minha tia me mostrar dois diários da minha avó materna, que ela descobriu recentemente no meio da papelada da biblioteca do meu avô. São diários de 1985 e 1986, justamente os dois últimos anos de ouro da minha infância, que precederam à derrocada total da nossa família tal qual eu a conhecia. O que se seguiria de 1987 em diante seria um verdadeiro terremoto: em fevereiro meu avô morreu num infarto fulminante, em maio a minha avó foi diagnosticada com câncer de pulmão (e mais tarde também no rim), em julho de 1988 meu avô paterno morreu e, finalmente, em março de 1989 foi a vez da minha avó materna sucumbir.

Foi estranho ler as narrativas com a letrinha da minha avó, toda desenhadinha e levemente trêmula por causa do Parkinson, registrando coisas de que eu me lembro até hoje. Tipo a vez que meu avô paterno ficou hospitalizado e meu pai e todos nós voltamos de Rio das Ostras (RJ) numa verdadeira maratona. Ou quando fomos todos, avós, netos e tios, num passeio numa cachoeira. Até hoje eu lembro da minha irmã tocando "More Than I Can Bear" do Matt Bianco continuamente nesse dia, antes da gente sair de casa.

Também foi a primeira vez que eu vi alguma manifestação íntima da minha avó sobre a morte da mãe dela em maio de 1986, e da irmã, em setembro. Minha avó sempre me passou uma imagem de uma dama altiva, reservadíssima, e embora eu soubesse que a morte inesperada da mãe e da irmã haviam sido impactos muito fortes para ela e meu avô (inclusive atribuímos o seu infarto a isso), eu nunca a tinha visto se lamentando. E nesse diário eu encontrei diversas passagens em que ela pede a Deus por elas, tentando resignar-se. Foi triste.

Fechei os diários me sentindo estranho por ter lido aquelas coisas, e revivido aqueles momentos. Era estranho para mim ver a tranquilidade do cotidiano dos meus avós a tão pouco tempo de um período cheio de tanta perda, doença e dor... coisas que eles nem imaginavam que estavam vindo rápido ao seu encontro.

Pensar que eu também -- aliás, todos nós -- vivemos as nossas vidas como se tivessemos dias infinitos de bonança pela frente, me fez ter calafrios. Nada é para sempre, a começar por nossa própria existência.



 Escrito por Rindu às 18:10
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R.I.P., M.J.




 Escrito por Rindu às 16:04
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A CRIATIVIDADE NA INSÔNIA




 Escrito por Rindu às 13:13
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COMOFAS?


Quando eu ainda era criança eu assiti um filme na Sessão da Tarde que me marcou para sempre. Não lembro o nome do filme, nem consigo reconhecer nenhum ator do elenco para poder fazer uma pesquisa no Google, mas a história eu lembro bem.

A personagem principal era uma noviça num convento numa região bem pobre e longínqua da Espanha, ou do México. Ela já estava esperando o dia de fazer os seus votos perpétuos, e sentia sobre os ombros toda a expectativa da sua família de vê-la consagrada freira, quando se apaixonou perdidamente por um cigano. Confusa com tuda essa reviravolta e sem saber o que fazer com a sua vida, a moça foi rezar noite adentro diante de uma imagem de Nossa Senhora que ficava na capela do convento, que era famosa na região por ser milagrosa. Chorava angustiada, dividida entre seu amor pelo cigano e sua vocação religiosa, suplicando por uma luz.

Então aconteceu um milagre: a imagem de Nossa Senhora, que era bem grande, adquiriu vida e ficou idêntica à noviça. Desceu do altar e, sem dizer uma palavra, fez a moça entender que a substituiria no convento enquanto ela ia resolver a vida dela com o cigano. E assim a noviça caiu no mundo enquanto Nossa Senhora segurava a sua barra no convento, que nesse meio tempo ficou intrigadíssimo com o mistério da noviça muda e o sumiço da imagem da capela.

Só que a moça não tinha sorte. Depois de fugir para bem longe com o cigano, o namoro dos dois desandou e ele a abandonou para em seguida morrer assassinado. E a partir daí a noviça passou a comer o pão que o diabo amassou, porque parecia que tudo que ela tocava se desgraçava. Infortúnio após infortúnio, ela finalmente se apaixonou por um toureiro. E o cara prometeu para ela que assim que vencesse o touro mais cabuloso que existia na época, ele abandonaria a taurimaquia e eles se casariam.

No dia dessa última tourada, na última hora a noviça não teve coragem de ir assisti-la na arena, temendo pelo pior. Sozinha em seu quarto, ela se ajoelha e reza fervorosamente pela proteção do amado, quando uma rajada de vento escancara a janela e apaga a vela que ela havia acendido. Nesse momento ela compreende que o seu toureiro havia morrido na batalha. Então ela entende que só seria feliz mesmo sendo freira, e resolve voltar para o convento.

Depois de muitos dias de viagem, ela chega no convento já de noite, quando lá dentro se iniciava a cerimônia dos votos perpétuos da noviças. Do lado de fora havia uma multidão de romeiros bem miseráveis, todos com velas acesas e rezando pelo fim da seca que começou depois do desaparecimento da imagem de Nossa Senhora, e que arruinara todas as lavouras. Então ela compreende o que precisava ser feito, e entra na capela lotada para se encontrar com a sua sósia e liberá-la do seu favor.

Quando as duas se encontram e se olham, a moça se vê novamente vestida de noviça, enquanto Nossa Senhora caminha para ocupar o lugar vazio no altar. Assim que a imagem milagrosamente aparece ali, começa a chover torrencialmente lá fora, e o filme acaba com a noviça tornando-se freira.

Lindo, né? Demais.

Pois bem: eu ando me sentindo como essa noviça. É verdade que não fugi de convento nenhum, mas ando com a impressão de que trago má sorte para as pessoas que entram na minha vida. Parece piada, mas é verdade: é a pessoa aparecer na minha frente para em seguida enfrentar todo tipo de desventura: vão mal na faculdade, bombam nas provas, passam perrengues no trabalho, batem o carro, adoecem, brigam com a família, o escambau.

Aí eu pergunto: como eu faço para me livrar disso?



 Escrito por Rindu às 13:31
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OU NÃO


Faz mais de um mês que eu não publico alguma coisa autoral por aqui. E o pior é que eu sou forçado a admitir que não há qualquer justificativa decente para esse sumiço, até porque eu não fui a lugar nenhum: tenho estado aqui no Quarto 1222 esse tempo todo, caladinho, vendo os heróicos e minguados comentários que de vez em quando ainda aparecem.

Não vou desperdiçar o tempo dos dois ou três leitores que ainda me restam com mil tentativas para justificar tamanha displicência com este blog. A verdade é que não há uma explicação plausível para esse fenômeno inédito por aqui, em todos esses sete anos de atualizações ao menos semanais (se não diárias).

Não é falta de oportunidade: tempo para ficar pendurado no computador não me falta, ainda que seja com a TV ligada atrás de mim. O negócio é que há uns seis meses ou mais a minha vida entrou num turbilhão tão grande, em tantas áreas da minha vida, que isso tem me deixado psicologicamente esgotado. Quando finalmente tenho esse tempo para mim, só quero ficar quieto, morgando, calado, sem pensar em absolutamente nada. Voluntariamente jogo um descanso de tela na minha mente e fico completamente inerte, só faltando começar a babar.

Baixou um exu do Jaiminho em mim, e eu tenho vivido na base de evitar a fadiga. Nem to aí para nada. O mundo cai à minha volta (ou os aviões, em se tratando do carma do governo Lula), e eu nem me mexo. Ando até me recusando a ler qualquer coisa que não possa ser esquecida assim que é lida, perdendo-se no caminho entre a minha retina e meu cérebro. Até mesmo literatura tem me desanimado, e eu ando levando meses para ler livros que normalmente eu devoraria em duas semanas. Aliás, comecei um do Mario Vargas Llosa esses dias que eu acho que só vou terminar no Natal.

Qual a utilidade disso tudo? Francamente, eu não sei. Talvez eu esteja me deixando perder uma característica marcante da minha personalidade, que é justamente esse toque niilista/existencialista que se sempre me assombrou, também sempre me definiu. Ao optar por não mais sentir, também tenho deixado de pensar. E isso me faz um mero espectador da minha vida, ao invés de protagonista.

Talvez eu precise de um tempo -- justamente esse tempo -- para digerir tudo, e tanto. Aí talvez um dia eu volte com tudo, como antes.

Ou não.



 Escrito por Rindu às 18:07
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OS SONHOS DEMOCRÁTICOS (?) DO NOSSO PRESIDENTE


"Brasil: Apoie as Vítimas, Não aos seus Algozes"
Lula Deveria Demonstrar Solidariedade aos Direitos Humanos no Conselho da ONU

Do site da Human Rights Watch

(Genebra) - Quando o Presidente Lula da Silva do Brasil se pronunciar perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU hoje, deveria explicar porque o Brasil faz uso do seu voto no conselho para proteger países com péssimos registros de abuso aos direitos humanos, declarou hoje a Human Rights Watch.

"O apoio do Brasil a governos notórios por seus abusos aos direitos humanos está enfraquecendo a atuação do Conselho de Direitos Humanos da ONU," afirmou Julie de Rivero, uma das Diretoras da Human Rights Watch em Genebra. "Ao invés de defender as vítimas, o Brasil normalmente argumenta que os governos precisam de uma chance e que a soberania das nações é mais importante que os direitos humanos."

Nos últimos meses, o Brasil se absteve sobre a resolução da situação na Coréa do Norte, que condenava os graves, amplos, e sistemáticos abusos aos direitos humanos lá, especificamente a resolução condenava o uso de tortura e campos de trabalho forçado para presos políticos. O Brasil também se absteve de votar sobre a situação da República Democrática do Congo, que buscava fortalecer o papel de investigadores especialistas e condenar o uso de violência sexual como arma de guerra e de recrutamento de crianças.

Durante a sessão especial sobre a situação no Sri Lanka, o Brasil foi um dos países que apoiou a resolução que afirmava o princípio há muito desacreditado de não-interferência sobre assuntos domésticos. A resolução ignorou as alegações verbalizadas pela Alta-Comissária para Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, de que crimes de guerra estavam sendo cometidos tanto pelas forças governamentais quanto pelo grupo rebelde Tigres de Libertação da Pátria Tâmil e deveriam ser investigados por uma comissão de investigação independente.

A Human Rights Watch disse que o Brasil parecia acreditar que lamentar a morte de milhares de civis e expressar preocupação sobre o destino de 300.000 pessoas detidas em campos no Sri Lanka era interferência em assuntos domésticos.

"O Brasil parece mais preocupado em não ofender aqueles países que cometem abusos do que implementar o mandato do conselho para tratar de violações de direitos humanos," disse de Rivero.

Nessas votações e debates, o Brasil prefere se alinhar com países como China, Cuba e Paquistão que questionam no conselho a validade de ações sobre países específicos. O Brasil deu as costas a países como a Argentina, o México e o Chile que tem sido muito mais comprometidos com abordar os direitos humanos na ONU.

"O Brasil está se aliando aos violadores de direitos humanos ao invés de se aliar às vítimas," afirmou de Rivero. "Esperamos que no futuro a resposta do Brasil aos abusos levantados pelo Conselho de Direitos Humanos seja firme e veemente em defesa das vítimas."

Agora alguém me diz: o que mais esperar de um governo que se julga "revolucionário" em pleno século XXI, e de um presidente da República que tem ereções ao falar de Hugo Chavez, e acha Fidel Castro um herói incontestável?

E o terceiro mandato vem ae!



 Escrito por Rindu às 01:03
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PREVISÃO DO TEMPO EM SÃO PAULO


HOJE, 14 DE JUNHO DE 2009, DIA DA PARADA DO ORGULHO (?) GAY



 Escrito por Rindu às 02:33
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AMEI


Me identifiquei totalmente, hahahaha!



 Escrito por Rindu às 01:33
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