"I remember when i first moved here, a long time ago ´Cause I heard some song I used to hear back then, a lone time ago. I remember when, even further back, in another town, ´Cause I saw something written I used to say back then, hard to comprehend.
"And the question is, was I more alive then than I am now? I happily have to disagree; I laugh more often now, I cry more often now...
Me perguntaram se tanto silêncio ausente era por que o blog estava de férias ou fora abandonado. E foi só depois de pensar um pouco que eu respondi que era mais ou menos as duas coisas, em iguais proporções. Mais uma daquelas zicas de inverno que caem sobre mim todos os anos.
Eu queria entender de onde essa coisa vem, até mesmo para poder combater-lhe. É só o tempo esfriar, os dias ficarem mais curtos, e o meu humor degenera. Fico mais suscetível, e também preguiçoso. Paciência nenhuma, vontade de ficar sozinho e quieto, embora ressinta a solidão. Não quero ser aborrecido, e qualquer coisa que constitua uma obrigação não necessária -- como escrever no blog -- passa a ser deixada de lado.
Daí que eu tirei férias esta semana, para ficar em casa sem fazer absolutamente nada. Dormir tudo o que me faltou dormir nos últimos tempos, ficar à toa sem me preocupar com viagens e compromissos, e ver um grande nada se assenhorar do meu tempo. Eu ando precisando disso.
Para começar, estive num retiro de silêncio desde a noite de quinta-feira passada. Foi bom colocar a cabeça em ordem, repensar muita coisa e começar a traçar metas. Parar assim às vezes é bom.
Mas é isso, estou de volta. Talvez o que me falte daqui para frente é assunto para postar. Sugere pauta, alguém?
Ah, rapidinho: Ingrid Betancourt livre fez a minha semana bem mais feliz.
Ao mesmo tempo fiquei ainda mais puto com o governo do Lula, que se recusa a classificar as FARC como um grupo terrorista. Para os imbecis do PT e outros iludidos da sua laia, essa gente que mantém inocentes como reféns por anos e anos no meio da selva ainda se trata de uma guerrilha política de esquerda, que luta pela libertação das massas oprimidas das garras da mais-valia capitalista. Em nome de sua ideologia pobre e defasada, nossos gloriosos governantes se recusam a verem esse bando de facínoras como eles são de fato: uma corja de terroristas sangüinários e baderneiros oportunistas, uma malta de salteadores a soldo dos narcotraficantes. Sob o discurso revolucionário, estão todos empenhados em manter parte do território da Colômbia à margem da lei e à mercê da barbárie, para benefício do tráfico de drogas. Ou seja: não é caso de política, é caso de polícia.
Creio veementemente que deveríamos fazer um esforço internacional para trocarmos os muitos reféns ainda em poder das FARC -- alguns ali há quase uma década, senão mais -- pelo Lula, Dilma Roussef, José Dirceu, Evo Morales, Hugo Chávez, Rafael Correa (presidente do Equador) e pela Christina Kirchner. É uma questão de justiça: libertam-se os inocentes e reúnem-se os bandidos. Certamente serão os reféns mais contentes de que se teve notícia na História.
Daí que aquela situação aqui no Escritório, que vinha se arrastando havia meses, se desenrolou nos últimos dias. Enfim chegou a versão final do relatório do cara da Sede que nos visitou em maio, recomendando que a minha Unidade diminuísse um posto -- e não foi o meu.
Graças a Deus conseguiu-se que não fosse uma demissão, mas um remanajemento entre Unidades do Escritório. E foi assim que partiu uma das pessoas que mais dificultou as coisas para mim e para todo mundo aqui em volta nesses últimos tempos de mudanças. Há um certo alívio, com certeza, mas acompanhado de uma certa angústia: foi-se a pessoa, levando consigo sua experiência e conhecimento, e para trás ficaram suas incumbências, responsabilidades e serviço para eu dar conta... Será que eu vou conseguir? Será que eu vou querer conseguir?
E aí que eu me vejo numa relação meio estranha com o meu algoz, alguém que me causava os piores efeitos do stress, dores físicas mesmo. Agora que ela saiu do meu caminho, eu me pergunto como vou viver sem ela.
Estou indo para o Rio de Janeiro no fim de semana que vem, para dar uma espairecida e respirar um pouco de maresia. Se tiver sorte, vou ver um pouco de chuva também -- em Brasília não chove há dois meses e eu adoro um tempo nublado.
Como eu já havia comentado aqui no Quarto 1222 antes, as Nações Unidas têm uma escala de níveis de segurança para orientar as viagens de seus funcionários. Essa escala vai da "Fase 1" (Precaução) até a "Fase 5" (Evacuação), e desde fins de 2006 o Rio de Janeiro foi classificado como um local "Fase 1". Daí, para poder ir para lá ainda que a passeio, eu tenho que preencher um formulário avisando o Departamento de Segurança da ONU quando eu vou viajar, em que vôo e em que horários, ficar onde, com quem, e quando volto. Tudo para a eventualidade de, caso haja algum agravamento na situação por lá, eu possa ser evacuado da cidade com rapidez e segurança.
É legal pensar que há todo um esquema pensado para te proteger, mas por outro lado não deixa de ser uma encheção de saco.
No site onde esse requerimento é preenchido, há uma seção "Travel Advisories" (algo como "Conselhos de Viagem") em que há um texto todo apocalíptico sobre os riscos que se assume ao decidirmos ir ao Rio de Janeiro. Eu achei interessante copiá-lo aqui:
As forças de segurança conduzem freqüentes operações armadas contra facções do tráfico de drogas que estão em controle de diversas favelas espalhadas pela cidade. Balas perdidas, rajadas de balas e o indiscriminado uso de munição de alta velocidade e armamento pesado podem transformar qualquer favela num cenário perigoso e volátil, especialmente no caso de intervenção da polícia ou conflitos entre diferentes facções de traficantes. Visitantes são mais vulneráveis a tais incidentes devido ao seu desconhecimento do local e falta de experiência. Portanto, todos os viajantes são aconselhados a evitar a proximidade das favelas. Adicionalmente, tem havido um aumento de assaltos à mão armada nas vias de acesso do Aeroporto Internacional à Zona Sul, onde a maioria dos visitantes internacionais ficam. Evite passar à noite na Linha Vermelha ou Linha Amarela, que são vias expressas ligando o Aeroporto Internacional à Zona Sul, o centro da cidade e subúrbios. Se você desembarcar no Aeroporto Internacional durante a noite, considere passar a noite no Hotel do Aeroporto. Enquanto no Rio de Janeiro, dê preferência a rádio-táxis registrados já que eles são considerados os mais seguros, ou peça orientações ao concièrge do seu hotel. Devido a disputas em curso com os controladores de tráfico aéreo, vôos podem se atrasar, serem cancelados e/ou desviados de seus destinos iniciais. Assim, viajantes chegando ou fazendo conexões em vôos no Rio de Janeiro são aconselhados a requerer um security clearance mesmo que não haja expectativa de deixarem o Aeroporto. (...)
O texto segue falando que quem viaja a reservas indígenas também tem que solicitar um security clearance, já que ocorreu de funcionários da ONU serem mantidos reféns por alguma tribo por aí. E, é claro, fala dos cuidados em relação a Febre Amarela e Dengue.
É chocante pensar que escrevem isso sobre o nosso país... mas daí, se você pára um pouco para pensar, vê que nem está tão fora da realidade assim. A gente é que já se acostumou com o caos.
Acho que nem nos meus tempos de colégio eu tive uma semana tão longa. Sério, essa semana já durou uns vinte dias e hoje é só quinta-feira! Tudo bem que são quintas-feiras de Neruda, como as encanta a Milady, mas a essa altura do campeonato Neruda de c* é r***, eu quero um fim de semana JÁ.
Aliás, é engraçado quando a gente para para pensar o quanto a nossa percepção da passagem do tempo vai mudando à medida em que envelhecemos. Quando eu era criança, sentia como se fizesse aniversários a cada dez anos. Céus, como custava para um ano na escola passar! Os meses se arrastavam, as férias eram absurdamente longas... A vida parecia ter mais substância, e definitivamente mais consistência!
Mais ou menos depois dos dezoito anos, a minha vida inexplicavelmente começou a adquirir uma velocidade cada vez mais rápida. E isso chegou ao ponto de eu constatar, horrorizado, que há anos inteiros que já passaram que eu simplesmente nem consigo me lembrar do que aconteceu neles. São 365 dias que passaram a jato por mim sem deixar outras marcas que não uma nova idade para contar e novos fios de cabelo branco na cabeça. E mais nada.
Acho que todo mundo tem essa mesma sensação, talvez uns mais que outros. Não sei por que isso acontece, mas as teorias são muitas. Desde que o tempo passa mais lentamente para crianças porque na idade delas tudo constitui um aprendizado, até que o corre-corre da vida profissional versus contas a pagar propicia essa dobra no espaço-tempo que nos faz envelhecer sem nos dar conta do tempo que passa. Seja como for, fato é que eu ainda posso ouvir o espocar dos fogos de artifício de ano novo enquanto já estamos às portas do mês de julho.
Julho, meu. Segundo semestre gritando aí.
É melhor que eu já coloque as minhas barbas de molho. Os 33 anos estão chegando, o Natal também. Quando a gente menos se der conta, já passou tudo. Aí fica a máxima da Simone: "então é Natal... e o que você fez?"
Essa semana está sendo bem atípica aqui no Escritório, e por isso mesmo incrivelmente longa. A demanda de serviço caiu sensivelmente e eu tenho passado os dias praticamente à toa, lendo tudo o que presta e o que não presta na internet, esperando o tempo passar. E ele simplesmente não passa.
Geralmente é assim nessa época do ano, e acredito que será ainda pior por causa do ano eleitoral. Até a minha chefe tirou uns dias de férias.
Eu detesto ficar à toa. Não porque eu seja um workaholic, porque eu não sou mesmo, mas porque é péssimo perder o pique do trabalho; quando as coisas recomeçarem a acelerar, vai ser sofrido recuperar o gás para dar conta de tudo a tempo e à hora.
Isso sem contar que eu detesto pagar hora-bunda, essa palhaçada de ficar aqui fazendo paçoca na minha mesa enquanto eu poderia estar fazendo um milhão de coisas mais interessantes no mundo lá fora -- entre elas dormir, por exemplo. Eu tenho dado conta das minhas pendências diárias em uma, talvez duas horas de trabalho se eu trabalhar devagar. Daí por que não me liberar para ir embora, com a condição de que se aparecer qualquer problema ligarão no meu celular? Essa lógica da mais-valia é meio burra, se formos pensar bem.
Então que hoje AINDA é quarta-feira... e uma quarta-feira de inverno, que paulatinamente já tem feito o meu humor correr ralo abaixo.
Na noite de quinta para sexta-feira passada eu tive um sonho muito, muito estranho. Eu geralmente não sou do tipo que lembra dos sonhos que teve, e quando isso acontece os sonhos são sempre bem normaizinhos. Nos meus sonhos não tem dessa de labirintos, bichos que falam, super-poderes, nada. Tal qual a minha vida é chata, meus sonhos são chatos. Nem isso me salva.
Mas na quinta-feira passada tudo foi bem diferente do que o usual. Sonhei que o meu avô materno, que morreu em 1987, tinha aparecido vivo. Como uma espécie de Elvis Presley, ele contou que forjou a própria morte porque estava cansado da vida que tinha. No sonho eu não lembro da reação da minha família, mas eu fiquei bem indignado: como assim aquele homem tinha feito isso com a gente? Minha avó morreu por causa dessa perda, e todos na minha família mudaram muito depois do choque dessa perda. Eu mesmo tenho certeza de que seria uma pessoa bem diferente do que eu sou hoje se meu avô não tivesse morrido ainda.
Daí eu fui espairecer da mágoa na casa do Marcelo, que foi o meu melhor amigo de infância e que morreu num acidente de avião quando eu tinha 18 anos. Não lembro de ele estar lá, mas o Bonnie, que foi o cachorrinho que eu tive na minha infância, estava. O Bonnie morreu atropelado em 1989, bem na minha frente.
Depois disso, o sono começou a ficar meio confuso à medida em que a hora de acordar se aproximava. Eu não lembro de mais nada, mas sei que tinha muita água envolvida. Despertei meio perturbado, e vim trabalhar com uma cara péssima (o que nem é novidade).
O firewall aqui do Escritório impede que os programas de acesso ao MSN completem o seu login -- o que é uma idiotice, porque se consegue dar a volta nisso facilmente por meio do Meebo ou do E-Buddy. Eu já tinha até desencanado disso, desinstalado o Windows Live Messenger e acostumado a ignorar o ícone inativo do Windows Messenger no canto inferior direito da tela.
Mas aí hoje de manhã cedo, quando eu loguei no sistema, eis que o Windows Messenger se logou automaticamente... um milagre! Fiquei até com medo de ser alguma armadilha, uma pegadinha do Pânico na TV que faria tocar alguma sirene assim que eu tentasse usar o MSN, enquanto a Sabrina Sato surgiria debaixo da minha mesa com a minha carta de demissão. Mas como todo bom viciado, eu meço mal os meus riscos, e por isso me aventurei a declarar independência do Meebo por hoje. E não é que funcionou direitinho? Até o Windows Live Messenger eu consegui baixar, instalar e rodar! Estou parecendo um pinto no lixo de tanta alegria!
É, mas tanta felicidade tem o seu preço... eu estou com remorso porque sem o Meebo eu não vou poder bater os altos papos que vinha batendo no widget aqui do lado -- que eu, inclusive, ontem aumentei de tamanho para a galera conseguir ler as conversas direito. Mas a gente faz assim: na hora do almoço, que sempre foi a hora mais concorrida aqui no Quarto 1222, eu dou um tempo do MSN e me conecto no Meebo para galera puxar papo. Ou, para quem quer e pode, o meu MSN nunca foi mistério, ali no alto da coluna da esquerda.
Até porque nunca se sabe o que acontecerá amanhã aqui no Escritório. Vai que daqui a pouco os bloqueios voltam ao que eram antes?
E aí que tudo ia bem, eu quase chegando nos 80 quilos, já ganhando a minha primeira camiseta regata no dia dos namorados, quando se abate sobre mim uma verdadeira avalanche bacteriológica: uma faringite que mais tarde também virou amigdalite e que me pôs de cama dois dias. Febre baixa, mas constante, garganta dolorida, dieta à base de sopinha rala e -- voilà -- alguns quilos a menos na balança. Ganhar peso tem sido para mim uma verdadeira tarefa de Sísifo.
Agora, grave mesmo foi perceber o desalento que se abateu sobre mim na segunda-feira, quando eu notei que já estava melhor o bastante para vir trabalhar no dia seguinte. Olhem só a quantas anda a minha realização profissional: eu tenho preferido ficar ardendo em febre numa cama, o dia inteiro, do que estar saudável para poder vir trabalhar. É, ponto para o meu chefe. O cara conseguiu verdadeiramente minar toda a minha alegria de trabalhar nesse puteiro.
Nesse ínterim, o inverno se abate sobre nós e um véu escuro cai sobre a minha alma como uma noite. Sério, eu conto e ninguém acredita, e me dizem que eu sou fresco ou louco: eu fico num estado tal nessa época que é um verdadeiro sofrimento. Uma enorme agonia fica latejando em mim, uma vontade enorme de largar tudo, sumir, ser deixado em paz, quieto, escondido, esperando tudo passar dormindo o máximo que posso. E, como não posso fazer nada disso, nada mais me resta que não me resignar, controlar meus impulsos escapistas e arrastar a minha carcaça por aí até que isso tudo passe.
Pois é, ando sumido, mas não é nada sério, não. Digamos que eu fui ali e voltei.
Ou melhor, antes tivesse sido isso. A falta de posts reflete diretamente a falta do que escrever aqui. Ou, se inspiração há, me falta tempo. Daí, quando eu finalmente sento na frente do computador, um grande nada se apodera de mim. Writer's block, dizem. Mas vamos lá:
Sexta-feira retrasada eu fui a um banquete de gala no Palácio do Itamaraty, em benefício da ABRACE pela conclusão da construção do Hospital do Câncer Infantil de Brasília. Geralmente essas féerie já me dão preguiça antes mesmo de acontecerem: você fica ali dentro de um smoking alugado (e por isso mesmo com um caimento engraçado) vendo um monte de velhas bem loucas, desfilando verdadeiros pedregulhos nos pescoços e dizendo "você conhece Frank Sinatra? Ele morreu" [/misskittin]. Come-se mal, fica-se em pé horas a fio, e raramente encontra-se algum ser minimamente interessante para se entabular uma conversa. Ou seja, tudo acaba sendo um sacrifício enorme e caro em nome de umas fotos bonitas.
Mas dessa vez a festa seria no Palácio do Itamaraty, que pela primeira vez em pelo menos dez anos reabriria os seus salões para uma gala. E, se eu não fosse nesse banquete, quais seriam as chances de eu ter outra oportunidade de estar presente numa festa ali, na condição de convidado? Acho difícil que algum dia eu esteja na lista dos bailes presidenciais, não sou diplomata, e não pretendo algum dia passar a trabalhar como garçom. Então o jeito era me meter num smoking de novo e ir tentar me divertir no meio da velharada empetecada.
E foi legal. Hebe Camargo estava lá, mas foi embora logo. Luísa Brunet também, linda como não pode deixar de ser, muito simples e sempre simpatissíssima com todo mundo. Dom João de Orleans de Bragança, José Alencar e D. Marisa Gomes, muitos políticos, alguns governadores, ministros dos tribunais superiores, embaixadores, socialites e subcelebridades locais circulavam pelas mesas no jardim e salas Brasília, Debret e Portinari.
O Amaury Jr. entrevistou a maioria, e me impressionou por ser tão baixinho, tão magro, tão cabeçudo, tão embotocado e tão diva. Teve uma hora que a guei surtou de um jeito tal com um cara da sua equipe, que eu pensei que sairia nos tapas. Medo, muito medo -- dele e do Carlinhos Beauty, que estava lá saído diretamente dos meus mais terríveis pesadelos. Aquela semi-trava é o meu personal Freddy Krueger.
Só faltou o Presidente Lula, que tinha presença confirmada (daí a guarda dos Dragões da Independência na porta da festa), mas na última hora teve que viajar e mandou em seu lugar uma mensagem protocolar que foi lida pelo mestre de cerimônias. Menos mau, já que de qualquer forma a presença dele seria no mínimo constrangedora: o Palácio do Planalto havia comunicado que, embora o traje obrigatório fosse gala, o Presidente iria de terno e gravata. Sim, ele é presidente de um dos países mais relevantes do mundo e não usa blacktie. Palhaçada, mais uma.
O motivo da festa foi comemorar os 200 anos da vinda da Corte Portuguesa para o Brasil, e por causa disso houve uma encenação até legalzinha no mezanino do salão principal, no caminho entre o coquetel e o jantar. Como foi uma vedadeira aula de história, e a sociedade de Brasília é conhecida e reconhecida pela sua estupidez galopante, era visível a impaciência do pessoal para cair logo na boca-livre que nos aguardava lá em cima. Daí que eu vi que realmente o hábito não faz o monge: muito tafetá, pedras preciosas e um smoking não incutem nada mesmo em quem os veste. Você pode até tirar o bugre da vulgaridade, mas não tira a vulgaridade do bugre nem com reza braba.
O mais engraçado nessa hora foi perceber um sutil constrangimento generalizado quando a peça retratou o drama da Imperatriz Leopoldina, que teve o marido e a honra roubados pela Marquesa de Santos: em Brasília também temos a nossa Domitila de Castro. Assim como D. Pedro I, o governador do Distrito Federal, assim que tomou posse, mandou a esposa de longa data passear e a trocou por uma guria com a metade da idade dele. E os dois estavam presentes, ela gravidíssima, com um sorriso sem graça, tipo "oi, peidei".
De resto, a festa foi legal. Comi a contento, bebi champagne de primeira, tirei fotos, conversei com quem dava para conversar. A maior parte do tempo eu vaguei pelo salão observando as pessoas, e me distraí um bocado lutando para manter o meu colarinho e a gravata borboleta no lugar -- e mesmo assim em algumas fotos eles saíram zoados. Ando percebendo que usar smoking não é coisa fácil; talvez por causa disso a atitude do Presidente da República possa ser compreendida.
No fim da noite, cheguei em casa mancando como D. Carlota Joaquina, porque o meu sapato de cromo alemão havia mais uma vez devorado partes do meu pé. Pois é, o glamour tem o seu preço.
Quinta-feira passada o Supremo Tribunal Federal, num placar apertado, rejeitou a inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança e passou a permitir o uso de embriões humanos nas pesquisas de terapias à base de células-tronco.
Em poucas palavras, o STF autorizou um genocídio.
Eu acho as pesquisas com células-tronco uma das fronteiras mais instigantes da medicina moderna. Pensar que em breve poderemos ter a cura para diabetes, paralisias eu um sem-número de moléstias que afligem a humanidade é algo muito impressionante. E eu acredito veementemente que essas pesquisas devem continuar até que se possa alcançar todos os benefícios que essa nova terapia pode nos oferecer.
Mas, por outro lado, não acredito que seja aceitável que, para isso, se sacrifiquem seres humanos.
É tudo questão de uma equação muitíssimo simples: a vida começa na concepção. Ponto final. O fato de um embrião não ter olhos, nariz ou boca, e se constituir em seus primeiros momentos num amontoado de células, não lhe despe de sua dignidade de ser vivo. E, no caso em questão, um ser humano que merece ter a sua vida -- ainda que ainda restrita ao campo das possibilidades -- defendida a todo custo.
Eu já fui um esse amontoado de células por um período da minha vida. Você, que está lendo este post, também já foi. Não é perturbador pensar que nós dois tivemos a oportunidade de chegarmos ao atual estágio de nossas existências, ao passo que a outros -- os pobres que serão liquidados por conta dessas pesquisas -- não será dada essa chance?
Sabe-se que embriões humanos não são a única fonte de células-tronco; só são a fonte mais barata, mais imediata e mais lucrativa. Mais barata porque o processo (que já foi descoberto, por sinal) para fazer células-tronco adultas regredirem para seu estado embrionário certamente é mais caro do que simplesmente ir a um banco de embriões, pegar lá alguns congelados e bater no liquidificador como quem bate amoras para um coquetel. Mais imediata porque o processo de regressão de células-tronco adultas ainda requer aperfeiçoamentos para lhe garantir uma eficácia segura. E mais lucrativo porque há todo um mercado mundial muito rico de bancos de embriões, que está ávido por encontrar uma saída lucrativa que lhes garanta fluxo de caixa.
Sim, vão começar a vender gente. Só que se antes isso era feito por navios-negreiros para escândalo de quem assistisse a cena, hoje a coisa é na base de tubos de ensaio, sob o aplauso da patuléia manipulada pela mídia.
Aliás, o papel da mídia foi absurdamente ridículo durante todo esse processo. Provavelmente a soldo de todo um cartel de interesses financeiros nessa causa, não foi dada voz de debate em lugar nenhum sobre o que realmente são células-tronco, e quais as alternativas para consegui-las além dos embriões humanos. Na Folha de São Paulo, por exemplo, foi publicado um infográfico que vinha mostrando o que é um embrião, o que são células-tronco... e de repente mostrava a retirada dessas células de uma forma que levava a crer que o embrião permaneceria vivo depois do processo. Como se o embrião fosse "doar" as células, ao invés de ser totalmente destruído para que elas pudessem ser manipuladas. Ou seja, só se fez muito barulho, manipulou-se muito, mas não se esclareceu absolutamente nada.
Por outro lado, a mobilização da militância contra a liberação do uso de embriões humanos para pesquisas científicas foi patética, primária, risível. Liderada primordialmente pela Igreja Católica (porque evangélicos e outros credos pareceram não estarem muito interessados em defender a vida), a mobilização também fugiu do debate. Ao invés de mostrar como e por que a vida começa na concepção, e assim demonstrar como e por que o uso de embriões como fonte de células-tronco é imoral, indigno e criminoso, limitaram-se às passeatas inócuas, à reza do terço na porta do Congresso Nacional ou do STF, e à exibição de imagens dos bebês despedaçados que são o "subproduto" de clínicas de aborto.
Aliás, eu já disse para um monte de gente que enquanto a militância pró-vida não se livrar dessas imagens cruentas de infantes trucidados, não será levada a sério. Eu mesmo outrora já fui um defensor aguerrido do aborto, e imagens nojentas de mãozinhas e perninhas emergindo de um monte de tripas e sangue nunca me comoveu, e nem me ensinou nada. Foi só quando eu morei nos Estados Unidos que eu tive a oportunidade de vivenciar um debate maduro entre os argumentos pró-aborto e os pró-vida, no qual obviamente os últimos prevaleceram. Aliás, independente de cultura ou credo, não há como eles não prevalecerem.
Agora o estrago está feito, e vamos todos assistir ao circo de horrores e decadência que será instalado à nossa volta nos próximos tempos. Com essa decisão o STF abriu as portas para a institucionalização do aborto no Brasil, de modo que logo a coisa será feita quase que como uma intervenção estética, de tão banal.
E viva a promiscuidade, viva a irresponsabilidade.
Isso sem contar as mulheres pobres que logo serão pagas para gerar embriões, em gravidezes em série, para serem colhidos e usados como fonte de células-tronco. Serão fábricas de embriões para o bem da ciência e, daqui a pouco, também da estética. Porque se células-tronco são usadas na regeneração de queimaduras, por que não usá-las também para o rejuvenecimento facial, para quem puder e estiver disposto a pagar por isso?
A lição que eu tiro disso tudo? Basta olhar na História: todas as culturas que perderam seus referenciais de moral, ética e dignidade, entraram num declínio caótico que lhes custou a existência. Não acho que conosco será diferente.
Incrível como umas seis agulhas de nada, postas em lugares estranhos (tipo entre os olhos, acima do umbigo ou no topo da cabeça) são capazes de ter um efeito tão forte. Ontem tive a minha primeira sessão de acupuntura para tratar o stress, e tão logo o cara espetou a última agulha eu apaguei ali na maca mesmo, mergulhando num sono maravilhoso. Tive que ser acordado aos cutucões, e assim que cheguei em casa já senti os olhos ardendo de sono de novo. Dormi o sono dos justos a noite inteira, uma maravilha, como havia meses eu não fazia. Nem senti mais o desconforto da minha cama, que é dura como uma mesa de sinuca.
Amanhã eu tenho consulta com a homeopata. Se eu for mesmo assim tão suscetível aos tratamentos, acho que rapidinho eu vou estar novo em folha.
Mudando de assunto, hoje é aniversário de um amigão meu, e eu fui almoçar com ele. Como o cara é enrolado e custou a chegar no restaurante, eu fiquei passando o tempo olhando as lojas em volta, para não ter que ficar esperando sozinho numa mesa. E quando eu encontrei uma loja de brinquedos, fiz a minha felicidade.
Tenho 32 anos e tudo, mas sou louco por brinquedos até hoje. Adoro ver os carrinhos Hot Wheels e me lembrar da minha coleção de Matchbox importados, que nos tempos de Brasil fechado para o mundo eu incrementava às custas das amizades dos meus pais no corpo diplomático. E até hoje me ressinto de nunca ter ganhado um jogo Detetive, que já inspirou até um filme.
Mas a grande mágoa mesmo é por conta de terem parado de fabricar os Playmobil. Eu adorava, mesmo depois de crescido, ir ver as novidades que eram lançadas para os bonequinhos. No final tinha até ilha do tesouro, palácio com sala do trono e estação espacial com vários compartimentos. Já no meu tempo a coisa era mais básica -- mas mesmo assim eu me divertia semanas a fio com a minha coleção quase completa do Velho Oeste, que incluía o Forte Apache. Também tive uma caravela (recentemente lançaram também um clipper), umas duas naves espaciais, uns caminhões e uns carros. Quando parei de brincar, eu enchi uns três sacos de lixo grandes com a minha coleção, para doá-la. Grande burrada.
Hoje não vejo mais esse tipo de brinquedo nas lojas. Legos são parecidos, mas não se comparam aos Playmobil. E, de resto, tudo o que se vê são monstros cada vez mais desfigurados, bonecas boazudas e bonecos sempre mais musculosos, sempre carregando muitas, muitas armas. Tudo muito chato.
Antigamente brincar significava usar a imaginação. Hoje parece mais um jogo de preparar-se para consumir (ou ser consumido).
Então que eu parei para pensar que esse lance da alergia não é a única coisa que não anda batendo bem na minha vida. Eu também ando dormindo mal, fico acordando no meio da noite, e de manhã eu já me levanto cansado. Passo os dias caindo pelas tabelas de sono, sem pique, mas quando chega de noite eu não consigo dormir antes das duas da manhã.
Para o party-monster que eu já fui, não ter gás para sair numa noite de sexta-feira, ou de sábado, é algo muito estranho. E que começou a acontecer muito súbito. Aliás, eu não ando com gás para nada. Nada MESMO. Passo os meus fins de semana em casa, dormindo até ficar zonzo, com o corpo intoxicado de tanto sono.
Isso tudo tem um nome só: STRESS. E, pelo jeito, eu sou mais uma vítima da doença do século, e tenho que fazer algo a respeito disso o mais rápido possível. Já marquei a minha primeira sessão de acupuntura para hoje, e estou tentando marcar com uma homeopata recomendada pela minha chefe o quanto antes.
Acho que tenho o jeito de ser um cara que só acredita na alopatia (conforme o Tommie supôs no seu comentário no post anterior). Mas francamente, o que ela pode fazer por mim agora? Me mandar tomar vitaminas, sedativo para dormir, estimulante para acordar e agüentar o tranco do dia? Já soube de gente que morreu por entrar nessa espiral descendente e destrutiva. Acho que a alopatia é válida para coisas pontuais, como uma infecção aguda, mas para situações mais conjunturais a solução está mesmo nessas terapias holísticas.
Inclusive eu já me tratei com homeopatia antes. Na época da minha depressão o que me içou do abismo foi o Prozac velho de guerra, mas depois venho mantendo a ansiedade sob controle com base tanto na homeopatia como na fitoterapia.