LERÊ-LERÊ
Quando eu vou tomar café aqui no Programa, eu aproveito para descansar a vista olhando pela janela. Me distrai bastante ver os carros rodando pelo Setor Comercial Norte como se estivessem num circuito de autorama, sempre em círculos, atrás de uma vaga.
Nesta semana, não tenho visto carros rodando à esmo pelos estacionamentos embaixo do prédio do Programa. Mesmo em horários outrora considerados como de pico, como o meio da manhã e o meio da tarde, tem sido fácil encontrar vagas vazias. Sinal de que tem muita gente de férias.
Daí eu paro para pensar: enquanto eu estou aqui congelando nesse ar-condicionado inclemente, ficando pálido sob essa iluminação fluorescente que dizem ser cancerígena, tomando café compulsivamente para agüentar o tranco e tendo que conviver com histrionismos desnecessários, há quem esteja preguiçosamente lagarteando sob um lindo sol de verão, respirando maresia e tendo a arrebentação do mar por trilha sonora. Só que eu sei, tem pelo menos uma dúzia de amigos meus nessa situação. Se não estão ainda, vão estar em poucos dias.
Acho que deveria ser proibido por lei que as pessoas tivessem que trabalhar entre 20 de dezembro e 10 de janeiro. Nesse período, cada dia trabalhado vale por dois, às vezes três. E cada semana, um mês. Na virada do ano cada célula, cada fibra dos nossos corpos pedem para pararmos, darmos um tempo, nos lembrarmos de que temos uma vida além das paredes de nossos escritórios. Mas a urgência capitalista nos força a ignorar o clamor da natureza e nos impõe que trabalhemos incessantemente, como mouros -- o que para mim é uma grande idiotice, porque quando se trabalha nesse estado, o serviço não rende. Não rende e, não raro, acaba precisando ser refeito.
Fico assim divagando enquanto tomo o meu café. E depois que acordo dessa breve letargia, volto para a minha mesa para tocar a minha vida para frente. Afinal, sonhar realmente ainda não paga imposto, mas também não coloca feijão no prato de ninguém.
Escrito
por Rindu às 08:45
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