RENEW GALORE
Em dezembro passado os meus tios comemoraram 30 anos de casados. No meio das comemorações, emergiu de alguma gaveta bem profunda o álbum da cerimônia de casamento deles, para passar de mão em mão. Lógico que o álbum parou em mim um bom tempo.
Quando meus tios se casaram, eu tinha um ano e um mês de idade. Ou seja, aquelas eram imagens que, embora tenham sido contemporâneas minhas, eu nunca tinha visto -- daí o meu interesse tão grande. Fiquei horas viajando em cada foto, absorvendo cada imagem na minha memória.
Foi estranho ver meus avós -- os quatro, porque meus avós paternos também foram convidados para o casamento -- inteiraços, sem aquela aura de velhice que sempre embaça as lembranças que eu tenho deles. Meu avô, por exemplo, embora já sem uma perna (ele a perdeu depois que caiu de um cavalo) estava ereto, vigoroso, apoiado em somente uma muleta. E eu só me lembro de ver o meu avô caminhando apoiado nas duas muletas, e mesmo assim só até quando ele decidiu que não andaria mais.
Meus avós maternos, então, nem se fala: assistir ao casamento do filho certamente lhes iluminava o sorriso no rosto, mas mesmo sem considerar isso é notável o quão bem eles estavam naquela época.
Olhando para as fotos, não pude deixar de comparar a aparência das minhas avós com as idades que elas tinham, em relação ao que se vê hoje por aí. Em 1976 a minha avó paterna tinha só 57 anos, e a minha avó materna sessenta. Nas fotos, ambas aparecem austeras, matronas mães de família. Os corpos severos, sem curvas ou qualquer traço de sensualidade, e a pele visivelmente perdendo a tônus embaixo do queixo, no pescoço e em volta da boca e dos olhos. Só os cabelos mantinham a cor do viço da juventude, graças à L'Oreal.
Não que as minhas avós fossem duas desleixadas, que se deixaram acabar por falta de vaidade ou cuidado. Antes, pelo contrário: a minha avó materna foi uma das mulheres mais vaidosas que eu já conheci na vida. A aparência delas naquelas fotos retrata a realidade das mulheres daquela época.
Até o fim dos anos oitenta, uma jovem de 30 anos era invariavelmente introduzida no mundo mágico dos coques, cores pastéis e o indefectível chemisier. Uma mulher de 40 anos era intimada a abanar-se dos fogachos da menopausa dentro daqueles vestidos saco-de-velha, e uma senhora de 50 anos já era tida como idosa. E aos sessenta anos as mulheres reduziam-se a avós. E foi isso que eu vi nas fotos do casamento da minha tia: minhas duas avós.
Avós de sessenta anos.
Nada parece mais inverossímil do que isso nos dias de agora. Vera Fischer, Christiane Torloni, Bruna Lombardi, Suzana Vieira, Eliane Giardini, Ana Maria Braga, Xuxa, Kim Basinger, Ângela Vieira, Sharon Stone, são todas mulheres acima de quarenta, muitas já bem entradas nos cinqüenta e algumas já sessentonas que estão aí dando testemunho de um tempo em que a idade parou. Rosamaria Murtinho e Hebe Camargo, já ingressas na turma dos setenta, nem precisam ser mencionadas.
As técnicas modernas de cirurgia plástica, Botox, Metacryl, ácidos, microbiologia e o escambau, sem contar as massagens, novas modalidades de ginástica, reposição hormonal e a cultura de qualidade de vida transformaram a menopausa num mito meio perdido nas névoas do passado. Agora no verão, as coroas andam todas por aí, saracoteando pelas praias exibindo corpos bem torneados e rijos -- nem que seja à base de silicone.
Os homens ainda andam meio renitentes para aderir a essa fonte da juventude tecnológica, mas eu acho que o movimento metrossexual veio aí justamente para mudar isso. Eu boto muita fé. Hoje em dia é muito mais fácil envelhecer com dignidade e qualidade de vida. E se a ciência e a tecnologia estão aí para isso mesmo, a gente tem mais é que usar e abusar.
Por mim, já tenho cá meus trinta-e-um anos. Estou longe de um chemisier, mas que venham as agulhadas quando for preciso! 
Escrito
por Rindu às 17:43
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