CENTO E POUCOS DIAS
Acho que foi no domingo retrasado: no seu quadro no "Fantástico", Dráuzio Varella explicava por que o tempo parece passar mais devagar quando somos crianças. Segundo ele, isso acontece porque as sinapses do cérebro ainda estão em formação, o que faz com que as experiências sejam mais significativas e, conseqüentemente, a sensação psicológica do passar do tempo é mais perceptível.
Essa pode ser a explicação científica e tal, mas não acho que ela explique completamente essa sensação de tempo roubado que acomete um monte de gente a cada fim de ano -- entre eles, eu. Os meses vão passando, e com eles os anos, e mais e mais se tem a impressão de que passamos uma boa parte desses trezentos e tantos dias em coma. Chega dezembro, olhamos para trás e constatamos que os doze meses regulamentares não foram mais do que três ou quatro para nós. O resto foi letargia.
Como o contador de nossas idades não está nem aí para as experiências que acumulamos ou deixamos de acumular, às vezes eu paro e me pergunto para onde foram todos esses anos que a minha carteira de identidade diz que eu vivi. Memórias dos últimos dez anos ficam tão emboladas que eu sinto como se tudo tivesse passado em alguns meses. E eu não creio que o meu cérebro seja o único responsável por isso.
Ao voltar da casa dos meus pais ontem de noite, eu elaborei um contraponto à explicação dada pelo Dr. Dráuzio na televisão. Eu acredito que o tempo passa mais rápido quando a gente se torna mais velho porque, ao entrarmos no que se entende por "vida adulta", nós simplesmente relegamos "viver" a um segundo plano, bem abaixo de "sobreviver".
Um ano é composto de 365 dias, doze meses, aproximadamente 52 semanas -- ou seja, anualmente temos por volta de 52 sábados e 52 domingos. Somados esses a uns quinze feriados, temos quase 120 dias de folga a cada ano. Cento-e-vinte dias é o mesmo que quatro meses, mais ou menos.
Pois bem: eu acredito que o tempo parece passar tão rápido para nós adultos porque só vivemos efetivamente esses 120 dias por ano. É nesses quatro meses que nos é permitido continuar acumulando experiências, como nos nossos dias de criança. É quando podemos ser nós mesmos, e experimentar a liberdade de encarar o mundo não como um adversário a ser vencido dia após dia, mas como uma fonte quase inesgotável de vivências.
Pelos outros 245 dias nós tentamos passar o mais rápido e incólumes possível, como quem atravessa um tiroteio. Na labuta diária com contas a pagar, chefes desequilibrados, empregos maçantes e uma vida sem perspectivas nem novidades, toda uma existência vai se esvaindo desperdiçada, como a areia de uma ampulheta. Vamos dormir no domingo já ansiando pela sexta-feira seguinte, empenhados em nem perceber a existência dos cinco dias à nossa frente que, invariavelmente, vão passar por nós -- aproveitados ou não.
Vivemos um ano a cada três; por isso não admira acharmos que a década passada foi-se tão rapidamente. Existimos por 3.652 dias, mas de fato vivemos só uns 1.217, mais ou menos. Os 2.435 dias restantes nós gastamos no esquema segunda-a-sexta, das nove-às-seis, casa-trabalho-academia-casa. Uma não-vida, uma semi-existência. Tempo posto fora.
Acho que foi Freud que disse "ama o teu trabalho e não trabalharás nenhum dia da tua vida", e eu acredito que seja essa a máxima que fará com que tantos se identifiquem com tudo o que eu estou escrevendo agora, enquanto outros não compreenderão patavinas deste post. Viver está intrínsecamente relacionado com realização pessoal, e isso por sua vez tem a ver com vocação. E falar sobre a minha vocação é algo bem difícil para mim; um assunto ainda muito controverso e confuso.
A vida é cheia de chances para recomeços, e isso vale para todo mundo. Para uns é indiscutivelmente mais difícil do que para outros, mas para absolutamente ninguém é impossível. Basta ter a coragem para dizer "chega" e saltar do trem. É essa a minha meta para 2007: descobrir onde é que eu deveria estar, para então dar o meu "chega" e correr para o abraço.
Até lá, sigo pagando as minhas contas. E atravessando meus tiroteios.
Escrito
por Rindu às 15:45
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