"I remember when i first moved here,
a long time ago
´Cause I heard some song
I used to hear back then,
a lone time ago.
I remember when, even further back,
in another town,
´Cause I saw something written
I used to say back then,
hard to comprehend.

"And the question is,
was I more alive
then than I am now?
I happily have to disagree;
I laugh more often now,
I cry more often now...

I am more me".

"Objects Of My Affection"
Peter, Bjorn & John.








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NEM TUDO SÃO ESPINHOS


Descobri umas caixinhas de chá numa das gavetas da copa daqui do Programa. Tinha de tudo: erva-cidreira, erva-doce, maçã, chá preto. Era tudo chá da Leão, mas já está bom: não sou grande entendedor de chá e para mim os da Leão servem muito bem. Restava saber como se dava o acesso a eles.

Perguntei para a copeira, e ela me disse que o chá era como o café (que aliás é ótimo): de acesso geral, pleno, irrestrito. Vantagens de se trabalhar num lugar cheio de gringos que não são muito chegados no negrinho que satisfaz.

Isso quer dizer que eu tenho uma alternativa para escapar do amarelamento inexorável que as doses cavalares de café vão causar nos meus pobres dentes.

E dá-lhe chá de maçã!



 Escrito por Rindu às 17:17
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BANCO DO JOÃO


Justamente por deter o monopólio absoluto das contas-correntes do funcionalismo público federal (e estadual também, em alguns lugares), o Banco do Brasil nunca se lixou muito para cativar sua clientela, historicamente acostumada a ser tratada com uma indiferença abusada. Enquanto considera pessoas físicas meramente como um bando de números, o Banco sempre investiu no marketing que reafirmava a sua solidez institucional, com vistas a cativar pessoas jurídicas -- afinal, essas sim ainda têm como escolher qual instituição cuidará de seu dinheiro.

Agora uma nova campanha publicitária está tentando reverter isso. Acho que pela primeira vez desde 1808, quando o Banco do Brasil foi fundado por D. João VI, há um esforço para se humanizar a instituição, e aproximá-la da sua clientela de pessoas físicas. Eu acho que o negócio de colocar nome de pessoas nos letreiros nas fachadas das agências foi uma jogada de mestre. O raciocínio é simples: se o Banco é do Brasil, e o Brasil somos todos nós, então o Banco é também de cada brasileiro: Joões, Josés, Marias, Paulos, Lucianas e Martas espalhados por todo o território nacional. Bingo!

Os únicos que não gostaram da nova abordagem de marketing foram os funcionários do Banco. Talvez temendo passarem a ser obrigados a tratar o cliente pessoa física com educação e atenção -- afinal eles são os seus patrões legítimos -- a galera encrespou. Fez paralização relâmpago, apitaço, uma moça furiosa do Sindicato dos Bancários (provavelmente mal comida, como sempre) foi vociferar para a imprensa escrita e televisionada. Segundo eles, a campanha era "ofensiva" e "danosa para a imagem da instituição". A repercussão foi grande, e chegou-se a comentar que cabeças rolariam na diretoria do Banco.

Ah, tenha paciência, viu. Só uma anta marxista cujo marido dorme de calça jeans pode achar danosa para a imagem do Banco do Brasil uma campanha publicitária que fez com que as pessoas fossem tirar fotos nas agências que traziam seus nomes nos letreiros. Pela primeira vez em quase duzentos anos, o povão está se identificando com um Banco que nunca se lixou muito para ele. Não vejo como isso possa prejudicar a imagem institucional do Banco do Brasil; antes pelo mais absoluto contrário.

Eu acho que está é na hora de privatizar essa bagaça.



 Escrito por Rindu às 13:48
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ENTENDI DIREITO?


Então, pelo que eu tenho visto na minissérie "Amazônia -- De Galvez a Chico Mendes", o magnífico Estado do Acre foi fundado por um cafetão espanhol oportunista, apupado por uma entouràge de prostitutas, agindo em nome de barões da borracha que não queriam pagar impostos ao Governo Boliviano.

Isso explica tanta coisa.

PS: Um beijo, Glória Perez. E me liga.



 Escrito por Rindu às 13:18
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HOMECOMING


No ano passado o Dr. Jason resolveu tirar férias mais cedo e me mandou passear já no começo de novembro. Não deu para rolar nem a nossa antológica sessão no dia do meu aniversário (ou nas suas proximidades), com toda a carga de revisão do ano que ela sempre tem. O jeito foi lidar sozinho nos meus existencialismos em 2006. Típico.

Hoje a esposa/secretária dele me ligou e me disse que ele recomeçou a atender esta semana. Já a partir de amanhã, segundo ela, eu poderei voltar a minha rotina de sessões semanais às sete da noite das quartas-feiras.

Quando eu desliguei o telefone, me perguntei o que diabos eu vou falar para o Dr. Jason. Eu costumo chegar às minhas sessões de terapia com uma pauta já meio engatilhada, mas agora eu não sei o que vou fazer quando me sentar diante dele amanhã. Não que eu não tenha nada para dizer, muito pelo contrário: é tanta coisa que eu nem sei por onde começar. Ou -- o que é pior -- não tenho a menor idéia de como pôr em palavras tudo o que anda rolando na minha cabeça desde o fim do ano passado.

Acho que seria mais fácil ele me declarar louco de uma vez, e me mandar para casa.



 Escrito por Rindu às 17:05
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CENTO E POUCOS DIAS


Acho que foi no domingo retrasado: no seu quadro no "Fantástico", Dráuzio Varella explicava por que o tempo parece passar mais devagar quando somos crianças. Segundo ele, isso acontece porque as sinapses do cérebro ainda estão em formação, o que faz com que as experiências sejam mais significativas e, conseqüentemente, a sensação psicológica do passar do tempo é mais perceptível.

Essa pode ser a explicação científica e tal, mas não acho que ela explique completamente essa sensação de tempo roubado que acomete um monte de gente a cada fim de ano -- entre eles, eu. Os meses vão passando, e com eles os anos, e mais e mais se tem a impressão de que passamos uma boa parte desses trezentos e tantos dias em coma. Chega dezembro, olhamos para trás e constatamos que os doze meses regulamentares não foram mais do que três ou quatro para nós. O resto foi letargia.

Como o contador de nossas idades não está nem aí para as experiências que acumulamos ou deixamos de acumular, às vezes eu paro e me pergunto para onde foram todos esses anos que a minha carteira de identidade diz que eu vivi. Memórias dos últimos dez anos ficam tão emboladas que eu sinto como se tudo tivesse passado em alguns meses. E eu não creio que o meu cérebro seja o único responsável por isso.

Ao voltar da casa dos meus pais ontem de noite, eu elaborei um contraponto à explicação dada pelo Dr. Dráuzio na televisão. Eu acredito que o tempo passa mais rápido quando a gente se torna mais velho porque, ao entrarmos no que se entende por "vida adulta", nós simplesmente relegamos "viver" a um segundo plano, bem abaixo de "sobreviver".

Um ano é composto de 365 dias, doze meses, aproximadamente 52 semanas -- ou seja, anualmente temos por volta de 52 sábados e 52 domingos. Somados esses a uns quinze feriados, temos quase 120 dias de folga a cada ano. Cento-e-vinte dias é o mesmo que quatro meses, mais ou menos.

Pois bem: eu acredito que o tempo parece passar tão rápido para nós adultos porque só vivemos efetivamente esses 120 dias por ano. É nesses quatro meses que nos é permitido continuar acumulando experiências, como nos nossos dias de criança. É quando podemos ser nós mesmos, e experimentar a liberdade de encarar o mundo não como um adversário a ser vencido dia após dia, mas como uma fonte quase inesgotável de vivências.

Pelos outros 245 dias nós tentamos passar o mais rápido e incólumes possível, como quem atravessa um tiroteio. Na labuta diária com contas a pagar, chefes desequilibrados, empregos maçantes e uma vida sem perspectivas nem novidades, toda uma existência vai se esvaindo desperdiçada, como a areia de uma ampulheta. Vamos dormir no domingo já ansiando pela sexta-feira seguinte, empenhados em nem perceber a existência dos cinco dias à nossa frente que, invariavelmente, vão passar por nós -- aproveitados ou não.

Vivemos um ano a cada três; por isso não admira acharmos que a década passada foi-se tão rapidamente. Existimos por 3.652 dias, mas de fato vivemos só uns 1.217, mais ou menos. Os 2.435 dias restantes nós gastamos no esquema segunda-a-sexta, das nove-às-seis, casa-trabalho-academia-casa. Uma não-vida, uma semi-existência. Tempo posto fora.

Acho que foi Freud que disse "ama o teu trabalho e não trabalharás nenhum dia da tua vida", e eu acredito que seja essa a máxima que fará com que tantos se identifiquem com tudo o que eu estou escrevendo agora, enquanto outros não compreenderão patavinas deste post. Viver está intrínsecamente relacionado com realização pessoal, e isso por sua vez tem a ver com vocação. E falar sobre a minha vocação é algo bem difícil para mim; um assunto ainda muito controverso e confuso.

A vida é cheia de chances para recomeços, e isso vale para todo mundo. Para uns é indiscutivelmente mais difícil do que para outros, mas para absolutamente ninguém é impossível. Basta ter a coragem para dizer "chega" e saltar do trem. É essa a minha meta para 2007: descobrir onde é que eu deveria estar, para então dar o meu "chega" e correr para o abraço.

Até lá, sigo pagando as minhas contas. E atravessando meus tiroteios.



 Escrito por Rindu às 15:45
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