"I remember when i first moved here, a long time ago ´Cause I heard some song I used to hear back then, a lone time ago. I remember when, even further back, in another town, ´Cause I saw something written I used to say back then, hard to comprehend.
"And the question is, was I more alive then than I am now? I happily have to disagree; I laugh more often now, I cry more often now...
Hoje eu vi no "Bom Dia Brasil" que a canalização do córrego que corta Araguari ao meio não agüentou o volume das chuvas, e rompeu-se numa cratera de mais de cinqüenta metros de comprimento.
Esse córrego foi um personagem muito importante na minha infância. Meus avós sempre moraram perto dele, primeiro na Rua Quinca Mariano, depois na Avenida Theodolino Pereira de Araújo, na casa que hoje é minha e do meu irmão. Desde sempre eu ouvi discursos acalorados sobre a sua canalização definitiva, afinal era um despautério aquele bosteiro correr a céu aberto pela área mais nobre da cidade. Mas foi só depois que eu já estava crescido que realmente taparam aquilo. E pelo jeito fizeram mal feito, porque essa madrugada deu no que deu.
Quando se mudaram para a Theodolino, meus avós moraram numa casa praticamente em frente ao Fórum, que era onde meu avô trabalhava (e também onde ele foi velado, quando morreu). Ali, várias vezes eu vi enchentes furiosas, que chegavam a cobrir as pontes e unir as calçadas de um lado a outro da Avenida.
Nessa época, uma das coisas que eu mais gostava de fazer depois dessas tormentas de verão era ir até a vazante do córrego, que ficava onde hoje é o prolongamento da Theodolino até a Minas Gerais, ouvir o rugido da água marrom-escura caindo sobre as pedras embaixo da ponte. Às vezes eu fazia isso de noite, e era assustador sentir o chão vibrar com a força da água que passava abaixo, sem contudo ser capaz de enxergar nada nas trevas do matagal.
Pela televisão não consegui ver onde se deu essa cratera; o meu palpite é que o chão rompeu justamente onde outrora ficava essa vazante. A lembrança da fúria da água naquele lugar não me deixa conceber que as galerias tenham se rompido noutro trecho.
Só espero que a calçada da minha casa esteja intacta... o aluguel não é lá essas coisas e gastá-lo com restaurações seria o fim da picada.
Quando eu estava quase saindo para o almoço ontem, fui convocado para comparecer na principal sala de reunião do Escritório. Disseram tinha um pessoal que queria falar comigo, e confesso que imaginei estar a caminho do meu cadafalso enquanto caminhava para lá. Só depois de algum tempo no meio de uma sala cheia de gente sorridente demais, foi que eu percebi que não era nada grave que tinha me chamado ali: era só o coral daqui do Programa que estava tentando (mais uma vez) me cooptar para compor o desfalcado naipe de vozes masculinas deles.
Fui tomado por uma irca sem precedentes. Sorri amarelo, tentei ser gentil, fingi ter recebido uma ligação no celular, dei uma desculpa manca e vazei dali o mais rápido que pude. De repente, só de pensar em ficar aqui todas as terças-feiras na hora do almoço se tornou um compromisso insustentável. Eu só queria ir para a minha casa, comer a comida da Venina e descansar a minha cabeça (que, a propósito, doía MUITO).
No carro, fui pensando no quanto eu sou contraditório. Eu ultimamente vivo choramingando por aí que estou sem turma, me sentindo às cobras e deslocado. Daí aparece uma grande oportunidade de me enturmar no trabalho, ficar amigo de um povo legal, achar uma turma animada (embora em geral só existam nerds em corais), e eu dou um acesso de irca daquele jeito e salto fora. Esse é retrato do eterno dilema da minha vida: não tenho o que quero, e não quero o que tenho. É querer a lua demais para o meu gosto.
É verdade que eu tenho preguiça de ensaiar, ter que ficar ouvindo umas músicas uós por aí para poder lembrar como cantá-las. Também não me atrai toda essa função de preparar-se para apresentações e o escambau. Ando cínico demais para isso, e o repertório deles também não é dos melhores. Eu odeio MPB cantada em corais.
Por outro lado, se eu quero que esse meu ciclo de isolamento se encerre, creio que isso deve começar de mim. Daí eu acho que vou encarar o coral, sim, ainda que por tempo limitado -- pelo menos até julho, que é quando eles querem fazer um recital para o resto do Programa. Vou engolir a minha preguiça, tentar controlar a irca e me domar para me tornar mais sociável.
Um juiz federal achou por bem fechar o Aeroporto de Congonhas para aviões de grande porte. Ou seja: caos aéreo anunciado, já que praticamente toda a malha aeroviária do país depende desse Aeroporto. E isso bem em véspera do feriado de Carnaval, timing perfeito e uma sensibilidade digna de aplausos.
Para mim, foi um verdadeiro mimo: eu estava justamente planejando ir para São Paulo durante o reinado de Momo, para curtir a cidade deserta à "Blecaute". Mas nem: não nasci para passar meus feriados sofrendo em saguões de aeroportos, morrendo de ódio porque não consigo embarcar. Então provavelmente eu não vou mais.
E depois nego ainda acha que eu reclamo da minha vida à toa.
Olha, eu devo desculpas a vocês pelas minhas ausências aqui do Quarto 1222. Para quem já postou quinze vezes por dia nos tempos áureos, deixar o blog à míngua de um post por semana é uma lástima; uma verdadeira ofensa ao meu orgulho de blogueiro prestes a completar bodas de ferro com meus leitores. Sim, pessoal: dia 19 de março eu completo gloriosos cinco anos de atividade literária-idiossincrática aqui no blog!
A culpa por postar tão pouco não é de todo minha. É verdade que há a correria do cotidiano, e há um pouco de preguiça também. Mas, sobretudo, há uma monumental falta de assunto. E isso acontece porque na minha vida não tem acontecido nada, ou quase nada ultimamente. Eu, que sou condenado a viver com o tédio de uma semi-existência normalmente, nos últimos meses tive acrescida à minha pena a condenação de viver no corredor casa-trabalho-academia-casa-igreja-casa. E, convenhamos, nessa rotina gloriosa não há de se ter o que contar para animar um blog.
O dia em que eu me encontrar com Deus, eu gostaria de me sentar com Ele e ter uma conversa séria, bem demorada. Como Ele é o criador e o dono do tempo, não vai colar a desculpa que está muito ocupado e tal: Ele que pare tudo para poder me ouvir. Quero pedir que Ele me explique direitinho de onde vem essa minha enorme dificuldade em criar vínculos, de pertencer. Por que razão eu pareço condenado a sempre ver a vida passar como quem observa um aquário, sem participar de nada: eu não nado, eu não me molho. Nada, só assisto.
Acho que ando perdendo o fôlego nessa brincadeira de encostar a minha barriga no fundo da piscina. E viver a vida assim, levado pela correnteza do tempo como uma folha seca num riacho tem sido muito angustiante.
Porque só ver o mundo passar, e dele não tomar parte, para mim é como estar morto.