TEMPO CORRIDO
Depois de mais de quarenta anos vivendo para acordar cedo e ir trabalhar no Hospital de Base, o meu pai aposentou-se. Ou, como ele mesmo gosta de frisar, "foi aposentado": o governo Arruda recusou-se a prosseguir empregando servidores já aposentados nos quadros do funcionalismo distrital.
Meu pai sempre foi a epítome daquele cara que vive para trabalhar, ao invés de trabalhar para viver. A sua função na Unidade de Pediatria do Hospital de Base sempre foi a sua vida, e não parte dela. Agora que ele foi literalmente impedido de continuar com essa rotina, eu me preocupo com como vai ficar a cabeça dele.
A maioria das pessoas sonha em aposentar-se para poder finalmente fazer da vida o que sempre quis, mas nunca pôde. Acordar tarde, malhar mais, viajar muito, fazer aquele curso que sempre foi deixado de lado por falta de tempo. Tudo o que era impossibilitado por causa das responsabilidades da vida profissional, os filhos ainda por criar, muitas contas a pagar. Uma vez livres de chefes e prazos, filhos criados e a aposentadoria regularmente depositada na conta corrente todo mês (se tiver um complemento de previdência privada, melhor), supõe-se que os aposentados experimentem uma grande euforia de liberdade, um gás renovado para gozar o resto de suas vidas do jeito que quiserem. Mas freqüentemente as coisas não acontecem bem assim, não. Principalmente em casos como o do meu pai.
Quando eu estava na faculdade, era horrível quando as minhas férias coincidiam com as do meu pai. Ele brigava comigo toda manhã, porque achava que eu deveria continuar a acordar cedo mesmo tendo coisa alguma para fazer. Ele próprio era incapaz de preencher o tempo em que estaria no Hospital fazendo outra coisa. Não viajava, não ia dar uma malhada, não arranjava um livro para ler. Limitava-se a acordar na hora de sempre, tomar o café da manhã, ler o jornal, fazer as palavras-cruzadas e encher de quem estivesse em volta. Um suplício.
Acho que meu pai pensava em continuar trabalhando até cair morto em cima dalgum paciente. Provavelmente aposentar-se nunca passou por sua cabeça de forma concreta porque ele se sentia seguro, no controle da sua vida enquanto era útil no Hospital. Ele nunca investiu no que viria depois da sua carreira profissional, como uma casa de praia, ou o desenvolvimento de um hobby. Agora que a a carreira encerrou-se compulsoriamente, eu temo que ele acabe perdendo o rebolado de vez.
Agora ainda tem a reforma da casa, coisas a resolver, contas a pagar. Mas e depois? Se meu pai empijamar, acabou-se: conheço-o bem o bastante para saber que se isso acontecer, a coisa vai seguir ladeira abaixo. Isso me preocupa.
Acho que é por causa do exemplo que eu tenho em casa que eu me recuso a colocar todos os meus ovos em um cesto só, viver a minha vida numa única frente... mas aí acaba que eu às vezes me espalho tanto por aí que acabo não conseguindo me concentrar em nada, hahahahaha.
Vai ver, já nasci aposentado.
Escrito
por Rindu às 11:09
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