"I remember when i first moved here,
a long time ago
´Cause I heard some song
I used to hear back then,
a lone time ago.
I remember when, even further back,
in another town,
´Cause I saw something written
I used to say back then,
hard to comprehend.

"And the question is,
was I more alive
then than I am now?
I happily have to disagree;
I laugh more often now,
I cry more often now...

I am more me".

"Objects Of My Affection"
Peter, Bjorn & John.








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20 ANOS HOJE


Na noite passada eu tive um sonho muito estranho.

Eu estava num lugar estranho. Não era uma casa, ou um apartamento; era como uma plataforma, uma torre que se elevava num cenário meio surreal. Cá em cima, ao meu lado, estava o meu avô materno, que já faleceu. E havia muitos anos que eu não sonhava com ele.

Não consigo me lembrar direito dos detalhes do sonho. Lembro do cenário monocromático, ocre-alaranjado, cor de terra. Lembro que o meu avô queria se encontrar com alguém, talvez a minha mãe. No ímpeto de descer para o térreo, meu avô caiu e quebrou as pernas. Se queixou da osteoporose dos homens. E passou o resto do sonho desse jeito.

Tudo muito confuso. Acordei meio cansado, como se tivesse sido surrado.

Só depois que eu cheguei no trabalho e fui organizar o meu calendário, foi que eu me toquei: hoje faz vinte anos que o meu avô materno morreu.

Eu tinha onze anos, estava assistindo o final do desenho "Gobots" -- que era um arremedo dos "Transformers" -- no "Xou da Xuxa". Era uma manhã de segunda-feira, e meu avô estava internado por causa de um infarte desde a noite de sexta-feira. No sábado tinha ido para a UTI, no domingo passara bem mal, e na segunda-feira faria um cateterismo no Hospital das Forças Armadas.

Lembro de ver quando minha mãe, minha avó e meus tios entraram pela porta da garagem. Estavam sérios, meio apressados, e foram direto para os quartos. Só a minha mãe é que desceu para o salão e veio se sentar comigo e meu irmão -- que na época ainda só tinha cinco anos de idade.

Não me lembro exatamente o que ela disse; era algo sobre as pessoas nascerem, crescerem, cumprirem suas vidas e então necessariamente morrerem. Que o meu avô tinha acabado de morrer e que deveríamos fazer as malas para irmos para os funerais em Araguari.

Logo a casa encheu-se de gente, muita gente estranha tomando ares no lugar da minha mãe, que estava muito abatida e não tinha como cuidar de receber tantas visitas. Ou no lugar do meu pai, que esteve na rua o dia inteiro envolvido com a liberação do corpo e burocracias afins. Só partimos para Araguari mesmo no começo da noite, seguindo o carro da funerária.

Quando chegamos, lembro de ver o prédio do Fórum todo aceso e lotado de gente, embora já fosse alta madrugada. Eu e meu irmão fomos dormir na casa dos meus avós paternos, minha irmã ficou para o velório. No dia seguinte, a multidão abrindo caminho para eu entrar na câmara ardente, meu pai me proibindo de chorar -- mas eu chorei, sim --, a missa de corpo presente na Igreja Matriz, o cortejo interminável para o jazigo da família no cemitério.

E o silêncio na casa da Theodolino, naquela tarde... rompido só quando minha mãe acordou, e chorou por horas a fio. Minha avó, estóica, agoniada com tudo aquilo.

E eu só queria acordar daquele pesadelo.

Vinte anos depois.



 Escrito por Rindu às 10:36
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ME DÁ PASTEL. SECO.


Nalguma das minhas viagens por essas bibocas que eu já conheci pelo Brasil, eu encontrei Teem ainda à venda. Poucos hão de se lembrar do Teem, eu acho: era um refrigerante de limão que existia quando eu ainda era criança. Não sei se as garrafas que eu vi à venda eram remanescentes daquele tempo, era até bem capaz que fossem. Não quis tirar a prova.

O slogan do Teem era "provoque a sede até não agüentar mais", e as peças que passavam na TV sempre tinham um mesmo argumento: aparecia um cara aparentando estar com muito calor e muita sede, andando pelo deserto ou pela praia. Ele chegava num bar e, ao invés de pedir algo para se refrescar, ele mandava lhe servirem algo bem salgado. Só depois dessa auto-tortura ele sacava uma garrafa de Teem geladinha de uma bolsa que ele trazia a tiracolo, e matava a sede de gute-gute, com direito a estaladinha de língua e um "aaaaaah" no final.

O meu vídeo favorito era um que aparecia um cara com jeito de Indiana Jones andando por um deserto, sol a pino e pés cheios da areia fina e branca. A tiracolo, a indefectível bolsa.

Ele chegava num quiosque perdido por ali, onde estava uma velha muito da mal-encarada, provavelmente abandonada por algum beduíno com um mínimo senso estético. Ele olhava firme para a anciã e soltava a máxima, bruto, quase sibilando: "Me dá pastel". E ainda rosnava: "Seco". Vinham então os tais pastéis e o cara os devorava com uma gana animal, farelos caindo por todo lado, a velha observando ressabiada.

Quando enfim ele abria a bolsa em cima da mesa, apareciam duas garrafas de Teem no meio dos mais radiosos cubos de gelo. O cara se servia ignorando olimpicamente a pobre da velha, que ficava toda buliçosa ali em volta provavelmente também querendo adoçar os beiços murchos com o gostinho de soda-limonada geladinha. Depois da estaladinha de língua e o onipresente "aaaaahhh!" que o seguia, surgia a voz do locutor: "Teem. Provoque a sede até não agüentar mais". Nessa hora a velha era pega esticando a mãozinha encarquilhada em direção ao refrigerante, mas o cara fecha a bolsa tão rápido que mal dá tempo para a pobre fugir com suas artrites dali.

Eu meio que vivo a minha vida na base desse "provoque a sede até não agüentar mais". Tenho esse hábito de adiar prazeres para poder depois desfrutá-los de maneira mais absoluta. Tipo comer só o sorvete do sundae do Mc. Donald's, para só então delirar com aquela calda de chocolate amaldiçoada. Ou só começar a comer carne numa churrascaria rodízio depois de ter terminado os frios que eu busquei no self-service. Ou então alugar um monte de filmes mais-ou-menos e um bonzão, que eu estou louco para ver, mas que eu só vou assistir por último.

Ontem foi quarta-feira, hoje é quinta e amanhã já é sexta-feira. Mas isso só no calendário: para mim ontem foi segunda, hoje é terça e amanhã é só a quarta-feira de uma semana ordinária. Tudo isso para chegar na hora de ir para casa amanhã e eu poder ser invadido pela alegria de "descobrir" que o fim-de-semana já está começando, assim antecipadamente.

Acho que há mais de Amélie Poulain em mim do que eu poderia imaginar.



 Escrito por Rindu às 16:30
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O COMPLEXO DE "NEGRINHA"


O ruim de fazer uma viagem na qual você se liberta de todo stress e angústias, passa dias inteiros conversando sobre assuntos que se gosta, tirando fotos como sempre sonhou e em ótimas companhias, é ter que voltar para casa.

E acordar no dia seguinte para continuar seguindo uma carreira cega numa vida sem sentido algum.

Hoje eu agradeci a Deus pelas janelas do Escritório não poderem ser abertas.



 Escrito por Rindu às 17:54
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A DESVAIRADA APAIXONANTE


Apesar de todo o terror anunciado, a minha vinda para São Paulo foi tranqüila. Houve um atraso de uma hora, mas isso não é nada comparando-se com o suplício que eu estava aguardando quando fui para o Aeroporto de Brasília.

Aqui na paulicéia, programas light e diurnos, como eu queria. Muita bateção de pé pela cidade afora, muito ônibus e muito metrô. Ontem fui cortar o cabelo num salão perdido nos rincões do Ipiranga, e depois assisti "Dreamgirls" no Shopping 3, na Avenida Paulista. Achei a trilha sonora meio chatinha, mas o figurino e a cenografia fizeram valer cada centavo do ingresso bem salgado. Depois do cinema, voltei para casa e caí na cama: estava podre de cansaço.

Hoje rolou de ir no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz. E também na Pinacoteca, o que me rendeu muitas fotos boas -- do jeitinho que eu esperava. Ainda quero ir ao Cemitério do Araçá, que é perto de onde estou hospedado, e quem sabe ir ao Museu do Ipiranga. São Paulo é muito cheia de coisas para se ver e fazer... a pena é que tudo é longe demais de tudo (e ainda reclamam de Brasília nesse aspecto).

São quase cinco da tarde e eu vou almoçar agora. Fora isso, estou exausto de tanto andar no sol, e depois correr da chuva que desabou na cidade agora há pouco. Vou comer alguma coisa, descansar, e pegar uma missa aqui perto. Afinal, hoje é domingo e eu sou católico.



 Escrito por Rindu às 14:50
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