20 ANOS HOJE
Na noite passada eu tive um sonho muito estranho.
Eu estava num lugar estranho. Não era uma casa, ou um apartamento; era como uma plataforma, uma torre que se elevava num cenário meio surreal. Cá em cima, ao meu lado, estava o meu avô materno, que já faleceu. E havia muitos anos que eu não sonhava com ele.
Não consigo me lembrar direito dos detalhes do sonho. Lembro do cenário monocromático, ocre-alaranjado, cor de terra. Lembro que o meu avô queria se encontrar com alguém, talvez a minha mãe. No ímpeto de descer para o térreo, meu avô caiu e quebrou as pernas. Se queixou da osteoporose dos homens. E passou o resto do sonho desse jeito.
Tudo muito confuso. Acordei meio cansado, como se tivesse sido surrado.
Só depois que eu cheguei no trabalho e fui organizar o meu calendário, foi que eu me toquei: hoje faz vinte anos que o meu avô materno morreu.
Eu tinha onze anos, estava assistindo o final do desenho "Gobots" -- que era um arremedo dos "Transformers" -- no "Xou da Xuxa". Era uma manhã de segunda-feira, e meu avô estava internado por causa de um infarte desde a noite de sexta-feira. No sábado tinha ido para a UTI, no domingo passara bem mal, e na segunda-feira faria um cateterismo no Hospital das Forças Armadas.
Lembro de ver quando minha mãe, minha avó e meus tios entraram pela porta da garagem. Estavam sérios, meio apressados, e foram direto para os quartos. Só a minha mãe é que desceu para o salão e veio se sentar comigo e meu irmão -- que na época ainda só tinha cinco anos de idade.
Não me lembro exatamente o que ela disse; era algo sobre as pessoas nascerem, crescerem, cumprirem suas vidas e então necessariamente morrerem. Que o meu avô tinha acabado de morrer e que deveríamos fazer as malas para irmos para os funerais em Araguari.
Logo a casa encheu-se de gente, muita gente estranha tomando ares no lugar da minha mãe, que estava muito abatida e não tinha como cuidar de receber tantas visitas. Ou no lugar do meu pai, que esteve na rua o dia inteiro envolvido com a liberação do corpo e burocracias afins. Só partimos para Araguari mesmo no começo da noite, seguindo o carro da funerária.
Quando chegamos, lembro de ver o prédio do Fórum todo aceso e lotado de gente, embora já fosse alta madrugada. Eu e meu irmão fomos dormir na casa dos meus avós paternos, minha irmã ficou para o velório. No dia seguinte, a multidão abrindo caminho para eu entrar na câmara ardente, meu pai me proibindo de chorar -- mas eu chorei, sim --, a missa de corpo presente na Igreja Matriz, o cortejo interminável para o jazigo da família no cemitério.
E o silêncio na casa da Theodolino, naquela tarde... rompido só quando minha mãe acordou, e chorou por horas a fio. Minha avó, estóica, agoniada com tudo aquilo.
E eu só queria acordar daquele pesadelo.
Vinte anos depois.
Escrito
por Rindu às 10:36
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