ONTEM, NA TARDE FORMOSA
Não são muitas as vantagens do prédio onde fica a sede do Programa. A construção é imponente e luxuosa, fachada arrojada forrada de vidros espelhados. Mas por dentro parece um hospital de tão impessoal e frio.
O trânsito nessa área da cidade é caótico, e é uma verdadeira epopéia chegar no trabalho de manhã e depois sair daqui na hora do rush. No Escritório, a cor escura predominante e o chão acarpetado que abafa os sons e os passos dão ao lugar uma solenidade quase religiosa. O ar-condicionado viciado nos mantém permanentemente doentes, e as divisórias forradas com tecido são uma verdadeira Disneylândia para os ácaros que me atiçam a rinite alérgica. A onipresente luz fluorescente vai nos deixando cada dia mais pálidos.
Mas há uma vantagem. Uma única coisa boa que só esse lugar pode me proporcionar: a incrível vista do céu.
Várias vezes eu me pego embevecido com as cores e as formas que o céu toma ao longo dia, enquanto desfila escandalosamente pelas amplas janelas que correm de canto a canto. No fim do dia, a explosão de cores e reflexos de vermelho e dourado nas nuvens e nos prédios em volta me enche de um silêncio respeitoso, venerante. Estando no alto do suave declive que é a Asa Norte, penso conseguir enxergar Goiás na planura que me cerca, e às vezes me imagino correndo pelos pastos ensolarados que vejo daqui. Brincar ao sol para esquecer da vida.
Pena que -- ó correria cotidiana que nos torna insensíveis -- quase sempre as persianas ficam fechadas. As janelas tão generosas, cegas. E tudo o que eu vejo daqui do meu cubículo, por cima das divisórias forradas de tecido verde-escuro, são muralhas cor de chumbo.
Mas mesmo acachapado pelo sistema que quer nos fazer máquinas, eu resisto: vou para um canto da sala, subo uma persiana e fico ali calado, sentindo o sol que me beija a face.
Uma parte de mim sempre será livre.
Escrito
por Rindu às 18:09
[
]
[
envie esta mensagem ]
|