NA NOVELA DAS OITO
Alguém já parou para prestar atenção na abertura da nova novela das oito da Globo, "Paraíso Tropical"? Num vôo panorâmico que começa atrás do Leme, uma Copacabana absolutamente perfeita vai se desenrolando preguiçosa ao som da indefectível bossa-nova que caracterizou a novela passada, "Páginas da Vida". A Avenida Princesa Isabel surge iluminada de dourado e desemboca numa Avenida Atlântica absolutamente linda. Nada de pivetes. Nada de lixo nas calçadas e na areia. Nada de prostitutas.
Quando a tomada passa a ser do mar, então, aí é que a coisa fica maravilhosa: sobrevoando um transatlântico em movimento, a câmera corre por cima da água até mostrar os prédios incrustados entre os morros e a praia. Tudo iluminado em um dourado surreal. Não há sombra de decadência, línguas negras vomitadas no mar, arrastões, nada.
E então a câmera recua um pouco para mostrar uma vista panorâmica de uma Copacabana -- pasmem -- ornada por morros completamente cobertos por uma Mata Atlântica luxuriante, intocada. Não há uma favela sequer. Cantagalo, Pavão-Pavãozinho, Morro dos Cabritos, Chapéu-Mangueira e Babilônia simplesmente desapareceram da Copacabana que a Rede Globo quer mostrar.
Mais que uma "liberdade poética" em nome da estética, eu acho que a abertura dessa novela aponta muito mais coisas do que se pode perceber superficialmente. Numa época em que já morreram mais de 700 pessoas na cidade só no primeiro trimestre deste ano, e que é a polícia que teme os bandidos -- e não o contrário -- a seqüência inicial de "Paraíso Tropical" revela um esforço enorme para convencer de que não há nada de errado no Rio de Janeiro.
Querem que acreditemos que o tecido social está intacto: não há exclusão social, não há desigualdade. Não há tráfico de drogas, nem Comandos, nem Milícias, nem garotos sendo arrastados por carros roubados. Não há ônibus incendiados com inocentes dentro. Se brincar, é capaz de dizerem que sequer há violência urbana, é tudo invencionice de paulistas revanchistas e de jornalistas carbonários. É quase um convite para que enterremos as nossas cabeças nas areias da Zona Sul e finjamos que nada de mais grave está acontecendo.
E o pior disso tudo é constatar que, por mais estaparfúrdio que seja, muitas pessoas atendem a esse convite de livre e espontânea vontade.
Não sei se isso é nostalgia dos tempos do Estado da Guanabara, o Rio de Janeiro cidade-Estado, sede do Império e da República, presidente bossa-nova, princesinha do mar, garota de Ipanema, malandragem da Lapa, Cassino Balneário da Urca, Pereyra Passos e todo blá-blá-blá que todo carioca nostálgico traz na ponta da língua. Ou se é surto psicótico coletivo mesmo. A verdade é que eu já percebi que há uma verdadeira multidão que acredita piamente que a cidade se limita a uma faixa estreita de terra que começa na Avenida Rio Branco e termina na Avenida Sernambetiba, na Barra da Tijuca. Uma faixa que serpenteia pela orla, e que só é enxergada tendo o mar pela frente e os morros (e tudo de feio que há neles hoje em dia) pelas costas.
Para essa multidão, há jardins pintados por Debret por baixo da Linha Vermelha, ao invés do Complexo da Maré. A enorme massa de excluídos que pulula desgarrada pela cidade ora simplesmente não existe, ora constitui remanescentes da escravaria bonachona dos tempos pré-Princesa Isabel. Ou seja: uma multidão de alienados que acha que ainda vive numa cidade que, puída por maus políticos e cegueira social, na verdade já deixou de existir há uns trinta anos, pelo menos.
Essa realidade paralela é frágil. Vez por outra a realidade faz-se perceber aos sacudidões, quando tanta coisa errada empurrada para debaixo do tapete emerge nalguma morte violenta ou insurreição nos morros. Aí o surto alucinatório cessa por alguns dias, e todos cumprem um luto genuíno: afinal a tragédia veio bater-lhes à porta, e não se pôde ignorá-la dessa vez.
E a reação vem rápida: vociferam pelo arrasamento das favelas por canhoneio fechado, exigem a construção de muros que encerrem a pobreza marginalizada em guetos vigiados, clamam por um aparato ainda mais ostensivo de policiamento. E fazem passeatas, enormes passeatas: todos vestidos de branco, trazendo velas e cartazes, caminhando compungidos pela orla da Zona Sul.
Sempre na Zona Sul.
Nessas horas, não há quem ouse discordar que a solução é criar um cordão de isolamento entre ricos e pobres que salvaguarde a região compreendida entre o centro da cidade e a Barra da Tijuca. Que o Estado tem mais é engrossar e equipar a máquina de guerra urbana da Polícia para que ela possa prender, matar e oprimir como bem achar conveniente, para à todo custo preservar o torpor alienante de quem vive do lado de cá do Túnel Rebouças.
Não há quem concorde que a solução não é eliminar o pobre, e sim eliminar a pobreza.
Entra eleição e sai eleição eu fico agoniado por perceber que nunca vi candidato algum ao governo do Rio de Janeiro -- seja como prefeito ou governador -- apresentar um plano eficaz para o combate ao caos de violência, impunidade e desordem que assola aquele lugar. Pelo menos um que não envolva tanques na rua, maior contingente de policiais e maior segregação entre as zonas pobres das zonas abastadas da cidade. Nunca vi ninguém propor a ocupação das favelas da cidade não com tropas, Caveirões e vigilância, mas com a presença jurisdicional eficaz do Estado, para corrigir uma ausência histórica que foi justamente o que fomentou o desenvolvimento das quadrilhas de traficantes e o escambau.
Não se fala da ocupação das favelas pelo Estado com escolas decentes, assistência de saúde adequada, quartéis do Corpo de Bombeiros, delegacias com policiais que realmente façam valer a mão protetora e punitiva do Estado no meio daquela população.
Não se fala em ceder voluntariamente para que não seja tomado arbitrariamente. Antes, prefere-se votar em políticos que seguem o mesmíssimo viés populista-lacerdista-brizolista-garotinista que inventou o Rio de Janeiro como vemos hoje.
E de tiro em tiro, morte em morte, comoção em comoção, segue sempre tudo como dantes no Quartel de Abrantes. E durma-se com um barulho desses.
Escrito
por Rindu às 18:01
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