UM CORPO QUE CAI
Hoje de manhã um amigo me passou um link do You Tube que mostra o vídeo do suicídio de um rapaz no Shopping Pátio Brasil. Ultimamente parece que virou moda ir dar cabo da própria vida ali. Uns pulam do terraço do piso da praça de alimentação e cinemas, outros -- como o rapaz do vídeo que eu vi hoje -- saltam para a morte no vão da praça central do prédio.
O vídeo é tosco, filmado com um celular. Dura uns quatro minutos, nos quais se ouve as vozes da multidão que assistia apreensiva à cena de um rapaz pendurado do lado de fora do guarda-corpo do quarto piso. Um pouco à distância, vê-se o uniforme amarelo de um brigadista, ou bombeiro, que tentava conversar com ele. De repente, a multidão grita, o celular perde o foco, e quando volta a fixar a imagem, mostra um corpo estendido, inerte, no chão de granito do térreo.
Antes de ser cercado por seguranças, bombeiros, paramédicos e curiosos, o moço ficou uns instantes ali, sozinho no chão. Doeu-me ver que ele estava em posição fetal, como que dormindo. Tão desprotegido.
Me impressionou notar que não é possível enxergar detalhes na imagem do rapaz. Aliás, deduzi ser um rapaz só porque a pessoa no vídeo usava calça e parecia ter o cabelo curto. Não importa a iluminação, seja quando ele ainda estava pendurado no guarda-corpo, seja quando ele já estava estirado no chão do térreo, tudo o que se vê é como que uma sombra. A sombra de um ser humano que decidiu encerrar os seus dias ali, naquele lugar, daquela forma.
Fiquei lembrando das cenas que vi por um bom tempo. A frieza de assistir a alguém morrendo assim, na internet, como quem assiste a um desenho animado, me incomodou. Me angustiou a insensibilidade de simplesmente fechar a janela do browser depois de ver aquilo e continuar com as atividades do meu dia. Só me senti melhor depois que fechei os olhos por uns instantes e rezei pela alma daquele pobre-diabo, para que ele tenha encontrado o conforto que procurava nos braços de Deus.
Por um tempo eu tentei imaginar o que leva uma pessoa a um ato assim tão extremo e irrevogável, como se atirar de uma altura tão grande. Me coloquei no lugar dele: como deve ter sido caminhar da rua para dentro do Shopping, assim resoluto a matar-se? Necessariamente ele entrou no prédio pelo térreo... será que ele passou pelo lugar onde, momentos mais tarde, o seu corpo sem vida estaria atirado? O que passou pela sua mente ao pisar naquele granito tão duro, tão frio, tão brilhante? O que pensava ao caminhar para o guarda-corpo, agarrar-lhe o corrimão e passar para o lado de fora?
Os suicidas são tradicionalmente descritos como desesperados. Pessoas que agem num impulso auto-destrutivo que beira a irracionalidade. Quase loucos, incapazes de responder pelos seus atos. Irresponsáveis sobre a vida que põem a perder.
Eu já acho o contrário. Suicidas são muito frios, isso sim. Antes de resolverem se matar, ponderam todas as possíveis saídas do tormento psicológico por que passam, e escolhem a alternativa mais extrema unicamente porque avaliam-se incapazes de sequer imaginar o fim da miséria de suas vidas. Então passam a planejar cuidadosamente a sua morte: escolhem o método, a hora, o local. Alguns organizam-se para que a sua ausência crie o mínimo impacto jurídico ou financeiro na vida dos que deixam para trás. Já ouvi casos de quem tenha deixado os gastos dos funerais completamente quitados.
E é assim, como um estorvo de que se precisa livrar, que a vida é posta a fim. Num átimo, tudo se acaba. Basta agarrar o corrimão de um guarda-corpo, passar para o lado de fora e, num piscar de olhos, atirar-se para o nada.
O absoluto nada que sempre reinou na vida que eu assisti encerrar-se, hoje de manhã.
Escrito
por Rindu às 18:49
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