DE LUA
Eu tenho uma característica extremamente incômoda, da qual eu não consigo me livrar: sou incrivelmente cíclico. Tudo na minha vida tem altos e baixos, definha para logo em seguida aprumar novamente. Uma sucessão de mortes e renascimentos.
Em suma, eu nunca consigo ser a mesma pessoa o tempo todo, ou pelo menos por um tempo razoável. Nunca consigo manter as mesmas metas, a mesma rotina, os mesmos gostos, a mesma garra e o mesmo entusiasmo por mais do que alguns poucos meses ou semanas.
É sempre a mesma história: está tudo indo bem, de vento em popa, quando de repente eu percebo que algo perdeu o impulso dentro de mim. Então se inicia uma decadência paulatina, cruel e inevitável, que vai me corroendo por dentro até me fazer parar quase que por completo (só a minha já combalida força de vontade me impede de largar tudo de vez). Segue-se então um período de anomia no qual eu praticamente perco o caminho de casa... e então, de repente, vem uma retomada.
Isso se aplica a todas a áreas da minha vida. Fé, relacionamentos, trabalho... absolutamente tudo passa por esse eterno processo de desmonte e reconstrução. Isso me dá uma enorme frustração, porque parece que eu nunca concluo nada. Fico sempre a andar em círculos em torno do marco zero da minha existência, incapaz de desenvolver o texto e enfim amadurecer.
É verdade que cada recomeço nunca é igual ao começo, e assim sucessivamente. A cada ciclo eu percebo que cresço um pouco, o que poderia ser considerado um avanço. Mas mesmo assim preferiria não precisar dar dois passos para trás para então conseguir dar um passo para frente.
Acaba que eu mesmo me considero uma pessoa não confiável. Tenho receio de assumir qualquer coisa minimamente perene para a minha vida por temer a possibilidade de chegar o dia em que eu vou acordar completamente entojado daquilo. E então tudo a meu respeito precisa ser administrado com prazos curtos, para evitar que a ansiedade do aprisionamento me enlouqueça de vez.
Tenho uma inveja ferrenha dos indivíduos que conseguem ser determinados e obstinados o bastante para levarem a cabo, de forma linear, todas as dimensões das suas vidas. Quando leio sobre a vida dos santos, por exemplo, nunca encontro algum que tenha tido algum período de anomia como os que costumam me assaltar de quando em quando. Ou seja: santo eu não serei, porque se eu morrer numa dessas ocasiões em que eu perco o caminho de casa, vou é perder o caminho para o Céu.
Um dos versos de "Bittersweet Symphony", (link num post abaixo) diz "I'm a million different people from one day to another", e foi essa uma das razões pelas quais eu elegi essa música como a epítome da minha vida.
Mas eu não queria ser assim.
Escrito
por Rindu às 11:29
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