O MENINO MALUQUINHO
Quando eu era criança eu tinha uma visão meio estática das coisas. Achava que o mundo se dividia entre crianças como eu, adultos como meus pais e velhos como meus avós. E que todos (eu não sabia como) haviam nascido daquele jeito, e sempre permaneceriam assim até o fim do mundo. Se eu me imaginava crescido, eu me via um adulto-criança, convivendo com meus pais adultos-adultos e meus avós velhos-velhos.
Mesmo quando eu via fotos que mostravam meus avós jovens, esbeltos e empertigados, eu insistia em enxergar nelas meras versões em preto-e-branco, e com figurino ultrapassado, dos mesmíssimos avós que eu tinha então. Se eles já tinham jogado vôlei ou cavalgado com perfeição, fizeram isso sendo velhos -- o truque era que na época das fotos eles eram velhos-jovens.
A morte dos meus avós foi o que começou a desmontar essa fantasia. Foi quando eu aprendi que não dá para ser velho a vida inteira: um dia morre-se. Mas isso só acabou com a minha ilusão de eternidade da vida; a fantasia de que crianças seriam sempre crianças, adultos sempre adultos e velhos sempre velhos de alguma forma conseguiu permanecer.
E então eu comecei a crescer, e ver meus amigos crescerem também. E o que costuma ser uma conquista para quase todo mundo, para mim foi uma verdadeira violência. Como assim eu estava deixando de ser criança?! Quando me perguntaram se eu queria que isso acontecesse? Perceber que meu corpo mudava, e ver meus amigos começarem sair à noite, namorarem, se encaminhando para tornarem-se adultos, causava-me tristezas enormes. Era como se eu quisesse congelar-me no tempo, e também congelar todos à minha volta.
Mas não teve jeito, e mesmo que relutantemente, eu cresci. E foi assim aprendi que do mesmo jeito que não dá para ser velho para sempre porque a morte é inexorável, não dá para ser criança para sempre porque crescer não é opção. E então restou a minha última fantasia: adultos são adultos para sempre: eu é que vou me juntar a eles, que não irão para lugar algum.
Mais um engano.
Nos últimos anos, à medida em que sou eu que vou tornando-me um adulto, eu venho presenciando o melancólico processo de ver o tempo passando também à minha volta. Meus amigos e primos casam-se e têm filhos, e por isso eu já sou chamado de tio; meus tios calma e alegremente passam para a categoria de avós, enquanto minha única avó ainda viva já perscruta os ares pela sua hora derradeira.
Percebo que meus pais e a Venina já começam sutilmente a se comportarem como idosos: gestos mais lentos, o caminhar mais cauteloso, a visão menos confiável. A memória que os trai às vezes. Novidades ficam mais difíceis de se assimilar, e as opiniões ficam cada vez mais e mais conservadoras e reacionárias. Aprendi que quando se é velho, o novo torna-se algo a ser temido e visto com desconfiança.
Ao mesmo tempo, olho em torno e vejo meus irmãos já crescidos, prontos para alçarem vôos mais altos e, ao que tudo indica, sem volta. É tudo parte de um ciclo se renova nesse exato momento: depois de mais de vinte anos a Cléo não mais trabalha na casa dos meus pais, e não vai demorar muito para a Venina querer se aposentar de vez à medida em que seus setenta anos de idade se aproximam. A casa outrora barulhenta e cheia de vida vai se esvaziando, e o silêncio e a saudade ocupando os quartos, os salões, o jardim.
É o tempo que passou, e levou consigo tudo e todos.
PS: ao reler esse post eu encontrei nele remissões a uma meia dúzia de obras que eu já li... além de "O Menino Maluquinho" do seu título: "Produndamente", de Manuel Bandeira, "José", de Carlos Drummond de Andrade, "Menino no Espelho", de Fernando Sabino. Acho que nostalgia não é algo que só eu sinto.
Escrito
por Rindu às 15:30
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