"I remember when i first moved here,
a long time ago
´Cause I heard some song
I used to hear back then,
a lone time ago.
I remember when, even further back,
in another town,
´Cause I saw something written
I used to say back then,
hard to comprehend.

"And the question is,
was I more alive
then than I am now?
I happily have to disagree;
I laugh more often now,
I cry more often now...

I am more me".

"Objects Of My Affection"
Peter, Bjorn & John.








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FIM DE CARREIRA


__ Você é emo?

A voz de criança me chama a atenção e olho para baixo: uma menininha de cabelos castanhos, desalinhados, pele pálida. Seus olhinhos brilhantes fixos na minha franja, que já começa a me cobrir os olhos. Oito anos de idade, no máximo.

Avaliei que seria perda de tempo explicar que um emo de 31 anos de idade é ridículo, então resolvi entrar na conversa.

__ Sou.

__ Ai, que legal. Eu acho meninos emo a coisa mais linda.

Eu sorri amarelo. Ela continuou:

__ Eu vou ser emo também. Eu acho que vou ser bissexual.

E quase no mesmo fôlego:

__ Eu já me cortei... quer ver?

Dei-lhe as costas e saí dali o mais rápido que pude. A conversa tinha sido muito mais surreal do que eu poderia estar preparado.

A juventude está perdida, mesmo.



 Escrito por Rindu às 09:46
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CABEÇA DE VENTO


Estou impressionado com o quanto eu tenho me tornado uma pessoa aérea, distraída e lesada. Se estou assim aos 31 anos de idade, nem quero pensar o que será de mim lá pelos meus 50 ou 60 anos.

Ontem eu fui cumprir o meu suplício mensal de fazer compras de mês. Essa é uma tarefa que eu desempenho só pela obrigação de ser dono de casa, além da necessidade de ter o que comer e com que tomar banho. Estava usando um suéter de lã, e a minha indefectível bolsa atavessada no meu peito.

Quando terminei tudo -- e olha que fiz as compras com calma e vagar -- passei tudo no caixa. Compra fechada, produtos empacotados, hora de pagar: cadê a minha bolsa?

Entrei em pânico. O celular (que é a coisa mais cara que poderia estar nela) estava no meu bolso, mas minha carteira, identidade, cartão de crédito, do plano de saúde, documento e chave do carro, chave de casa, talão de cheque... tudo mais estava na bolsa. Saí correndo como um louco pelos lugares por onde tinha passado no supermercado, rezando para que a bolsa não tivesse sido roubada por algum gatuno oportunista -- que aliás são bem freqüentes em supermercados.

O pior é que eu me lembrava de ter tirado a bolsa, mas não conseguia lembrar nem onde, nem por quê. O suéter de lã, agora amarrado na minha cintura, era um indício do porquê: tirei a bolsa para poder tirar o casaco, e esqueci de pegá-la de volta depois que eu o amarrei na cintura. Mas onde?

Fui ao Achados e Perdidos, e não haviam encontrado nada. Pânico. Saí correndo pelo supermercado afora, refazendo todo o meu trajeto. Em certos pontos eu lembrava de estar com a bolsa no lugar, mas em outros (quando eu cheguei no açougue, por exemplo) eu me lembrava de já estar com o casaco na cintura. Havia toda uma zona cinza no meio da loja que era onde eu poderia ter largado a bolsa.

Céus, como eu rezei... me desesperava pensar em ter que ir a uma delegacia de polícia registrar ocorrência, cancelar todos os cartões e talão de cheques, e pedir segundas-vias deles e dos meus documentos, ter que pedir carona para ir para casa, ou que me trouxessem a chave reserva do meu carro (que, aliás, eu nem sei onde está)... e as compras, já registradas? O que eu faria com elas?

Foram momentos de agonia até que eu dei de cara com um carrinho com umas caixas de pacotes de biscoitos Bono parado no meio de um dos corredores. Aparentemente a pessoa que estava repondo os produtos o largara ali e fora resolver alguma coisa alhures. E lá, lindamente pousada sobre uma das caixas, providencialmente mimetizada com a cor do papelão, estava a minha bolsa. Fechadinha, carteira, cartões, chaves e tudo mais no seu devido lugar. Voltei para o caixa saltitando de alívio, e nem me queixei de ter que encarar o suplício de colocar as compras no carro, depois no elevador e depois guardar tudo.

Deus é bom demais para mim.



 Escrito por Rindu às 08:37
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UM NÓ NA GARGANTA


 

Nós deveríamos estar juntos, mas não estamos. E eu posso até tocar a minha vida para frente, manter a cabeça no lugar, mas eu ainda sonho com você.

Na hora de dizer adeus eu engasgo, na hora de ir embora eu tropeço. Embora eu tente esconder, é evidente: meu mundo desaba quando você não está por perto. Eu posso parecer ser livre, mas eu sou teu prisioneiro.

E eu até posso parecer estar bem e sorrir.

Mas sorrisos são só uma fachada.



 Escrito por Rindu às 16:35
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O MENINO MALUQUINHO


Quando eu era criança eu tinha uma visão meio estática das coisas. Achava que o mundo se dividia entre crianças como eu, adultos como meus pais e velhos como meus avós. E que todos (eu não sabia como) haviam nascido daquele jeito, e sempre permaneceriam assim até o fim do mundo. Se eu me imaginava crescido, eu me via um adulto-criança, convivendo com meus pais adultos-adultos e meus avós velhos-velhos.

Mesmo quando eu via fotos que mostravam meus avós jovens, esbeltos e empertigados, eu insistia em enxergar nelas meras versões em preto-e-branco, e com figurino ultrapassado, dos mesmíssimos avós que eu tinha então. Se eles já tinham jogado vôlei ou cavalgado com perfeição, fizeram isso sendo velhos -- o truque era que na época das fotos eles eram velhos-jovens.

A morte dos meus avós foi o que começou a desmontar essa fantasia. Foi quando eu aprendi que não dá para ser velho a vida inteira: um dia morre-se. Mas isso só acabou com a minha ilusão de eternidade da vida; a fantasia de que crianças seriam sempre crianças, adultos sempre adultos e velhos sempre velhos de alguma forma conseguiu permanecer.

E então eu comecei a crescer, e ver meus amigos crescerem também. E o que costuma ser uma conquista para quase todo mundo, para mim foi uma verdadeira violência. Como assim eu estava deixando de ser criança?! Quando me perguntaram se eu queria que isso acontecesse? Perceber que meu corpo mudava, e ver meus amigos começarem sair à noite, namorarem, se encaminhando para tornarem-se adultos, causava-me tristezas enormes. Era como se eu quisesse congelar-me no tempo, e também congelar todos à minha volta.

Mas não teve jeito, e mesmo que relutantemente, eu cresci. E foi assim aprendi que do mesmo jeito que não dá para ser velho para sempre porque a morte é inexorável, não dá para ser criança para sempre porque crescer não é opção. E então restou a minha última fantasia: adultos são adultos para sempre: eu é que vou me juntar a eles, que não irão para lugar algum.

Mais um engano.

Nos últimos anos, à medida em que sou eu que vou tornando-me um adulto, eu venho presenciando o melancólico processo de ver o tempo passando também à minha volta. Meus amigos e primos casam-se e têm filhos, e por isso eu já sou chamado de tio; meus tios calma e alegremente passam para a categoria de avós, enquanto minha única avó ainda viva já perscruta os ares pela sua hora derradeira.

Percebo que meus pais e a Venina já começam sutilmente a se comportarem como idosos: gestos mais lentos, o caminhar mais cauteloso, a visão menos confiável. A memória que os trai às vezes. Novidades ficam mais difíceis de se assimilar, e as opiniões ficam cada vez mais e mais conservadoras e reacionárias. Aprendi que quando se é velho, o novo torna-se algo a ser temido e visto com desconfiança.

Ao mesmo tempo, olho em torno e vejo meus irmãos já crescidos, prontos para alçarem vôos mais altos e, ao que tudo indica, sem volta. É tudo parte de  um ciclo se renova nesse exato momento: depois de mais de vinte anos a Cléo não mais trabalha na casa dos meus pais, e não vai demorar muito para a Venina querer se aposentar de vez à medida em que seus setenta anos de idade se aproximam. A casa outrora barulhenta e cheia de vida vai se esvaziando, e o silêncio e a saudade ocupando os quartos, os salões, o jardim.

É o tempo que passou, e levou consigo tudo e todos.

PS: ao reler esse post eu encontrei nele remissões a uma meia dúzia de obras que eu já li... além de "O Menino Maluquinho" do seu título: "Produndamente", de Manuel Bandeira, "José", de Carlos Drummond de Andrade, "Menino no Espelho", de Fernando Sabino. Acho que nostalgia não é algo que só eu sinto.



 Escrito por Rindu às 15:30
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