QUER UM COLO?
Eu tenho por política pessoal não contribuir para manter crianças mendigando nas ruas. Não lhes dou dinheiro, e também não compro chicletes, rosas e o que mais elas estiverem vendendo.
Já provaram mil vezes que quase sempre há um adulto mau-caráter lucrando com o trabalho, a exposição ao perigo e a ignorância dessas crianças, que são postas na rua quando deveriam estar estudando. Então prefiro calçar a cara quando me pedem e guardar a esmolinha que pagaria pela minha culpa de ter o que eles não têm para ajudar instituições que trabalham justamente para reverter esse quadro social tão triste. Pena que eu sou exceção agindo assim, e a molecada segue nos sinais de trânsito da cidade afora.
Por outro lado, se eu boicoto crianças e adultos capazes de trabalhar -- e aleijados também, que quase sempre negam ajuda de instituições para poderem permanecer na rua lucrando com sua desgraça -- eu não consigo dizer não para velhinhos.
Esse é um país em que envelhecer pobre é uma sina pior do que a morte. A aposentadoria não serve para nada, o sistema público de saúde é patético e quem não tem mais forças físicas ou mentais para produzir é ostracizado e humilhado com o descaso generalizado.
Hoje, vindo para o trabalho, uma velhinha me abordou num sinal vermelho. De certa forma os seus traços meio indiáticos, olhinhos miúdos e o cabelo escondido embaixo de um lencinho surrado me lembraram da minha avó paterna. Ela se aproximou com uma latinha vazia de extrato de tomate, e eu fiquei constrangido porque só tinha na hora dez centavos para dar-lhe.
Pedi desculpas e coloquei a minha mísera moeda na latinha dela. Ela sorriu banguela, e mumunhou algo que eu compreendi como uma bênção. Nessa hora o sinal abriu, e à medida que eu me afastava eu ainda a vi pelo retrovisor erguer os dois braços para o céu.
Me deu vontade de voltar e pegá-la no colo. Ser carente de avó dá nisso.
Escrito
por Rindu às 17:36
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