"I remember when i first moved here,
a long time ago
´Cause I heard some song
I used to hear back then,
a lone time ago.
I remember when, even further back,
in another town,
´Cause I saw something written
I used to say back then,
hard to comprehend.

"And the question is,
was I more alive
then than I am now?
I happily have to disagree;
I laugh more often now,
I cry more often now...

I am more me".

"Objects Of My Affection"
Peter, Bjorn & John.








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MY GIRL



PORQUE PARA A GENTE, QUINZE ANOS É SÓ O COMEÇO.



 Escrito por Rindu às 22:09
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DEUS TEM PRESSA


Contei aqui que junto com a minha carteira de motorista, eu perdi cinqüenta reais.

Daí Deus não quis me deixar na mão com o prejuízo e me fez achar uma nota de cem dólares ontem de noite, no meio da rua. Como na hora não vi nenhum gringo desesperado pelas redondezas, embolsei a grana, já devidamente negociada numa casa de câmbio hoje de tarde.

Não vou me admirar se o meu documento aparecer também, na última hora.

Deus é mais. Sempre mais. Muito mais.



 Escrito por Rindu às 23:26
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RINDU NA ILHA DO DR. MOUREAU


A minha ida para Almofala revelou-se uma péssima idéia. Não pela visita a uma das minhas melhores amigas, que eu não via desde janeiro quando ela se mudou para lá, mas por Almofala em si. Eu planejara ficar ali até hoje, mas já na noite de segunda-feira eu vi que tinha que ir embora o quanto antes.

O lugar é o ânus do mundo, acessível só depois de mais de cinco horas de viagem de ônibus. A praia é linda, e deserta como eu queria, mas com um fundo pedregoso que machucava ainda mais o meu pé cortado e atiçava a minha imaginação sempre alerta para arraias e ouriços, e outras coisas horríveis que pedras assim podem esconder. Aliás, acho o mar lindo e hostil ao mesmo tempo: quase tudo que vive nele ou morde, ou é ácido, ou é venenoso ou tem espinhos mortíferos. Ou tudo isso junto.

A pousada revelou-se uma merda. Tudo bem que por quinze reais eu não esperava muito, mas pelo menos eu acho que um quarto com papel higiênico, sabonete e toalha de banho (já que havia roupa de cama) não seria pedir demais. O quarto não tinha uma janela sequer e, alegria das alegrias: era infestado de pererecas a partir do pôr-do-sol. Eu passei as minhas noites ali monitorando a atividade dos bratáquios e das lagartixas na caça às moscas que pousavam em torno da única lâmpada que iluminava o quarto, em cima da porta. Com esse atrativo a desviar-lhes a atenção da minha cama, eu dormi com a luz acesa as duas noites que passei ali.

Ah, e tinha mais uma coisa: só havia água de dia. De noite não havia como tomar um banho, escovar os dentes, usar o vaso, nada.

Além disso tudo, havia os nativos. O cearense puro é um indivíduo meio estranho, que fala de soslaio, sem fitar os olhos do seu interlocutor. Além disso, a sua fala é embolada, enigmática. Almofala, sendo uma reserva indígena (o Ceará é uma grande taba, eu venho notando) tem essa característica ainda mais evidente em sua população, de modo que tornou-se sobremaneira desgastante lidar com aquilo. Tanto que preferi prescindir a toalha e o papel higiênico nesses dias que passei ali para não ter que lidar com a dona da pousada (conseguir um sabonete foi um parto).

Ser branco e alto num lugar que todos são escuros e baixos, e que quase não vêem forasteiros, revelou-se um problema para mim. Andava pela rua da cidade com os olhos cravados no chão, para que as cantadas escancaradas da mulherada não acabassem servindo de pretexto para algum problema desnecessário. Em lugares como aquele mata-se gente como eu.

Na tarde de terça-feira fui visitar a base do Projeto Tamar, que é onde a minha amiga está trabalhando. Um grupo de crianças estava ali para ter uma aula sobre tartarugas marinhas, por causa da Semana do Meio-Ambiente. Eu fiquei ao largo do grupo, só ouvindo as explicações, enquanto a meninada prestava mais atenção em mim do que nos bichos que nadavam nos tanques. Os meninos não me incomodavam, porque me olhavam com uma curiosidade inocente; já a maioria das meninas, por jovens que fossem, já me olhava com cobiça. Sorriam, se insinuavam, buscavam flertar com o meu olhar. Senti um verdadeiro asco, uma vontade de dar-lhes na cara para que tivessem um mínimo de recato. Entretanto preferi ficar na minha, cravar meus olhos no chão e sair dali mudo quando tudo terminasse.

Acho que depois de ver essas coisas eu passei a desconfiar do papo de que a prostituição infantil, que eu vejo rolando tão à larga por aqui, é algo arbitrariamente imposto a essas crianças. Pode parecer cruel disser isso (e realmente é), mas parece que essas meninas sabem muito bem a que estão se propondo ao dar em cima de um homem como deram em cima de mim. Aqui em Fortaleza elas literalmente se jogam em cima dos gringos, num assédio que chega a ser escandaloso.

Enfim, custou para eu vencer sair de Almofala: pensei que daria para partir já na tarde de terça-feira, mas então descobri que os ônibus saem dali unicamente às cinco da manhã. Parecia um delírio kafkiano: tão fácil entrar, tão difícil sair. Mas eu não me dei por vencido, até porque me livrar daquilo passou a ser questão de honra para mim.

Obstinei-me, comprei minhas passagens e voltei para a pousada para fazer a minha mala. Noite afora ficamos ali eu e minhas pererecas de prontidão, para que eu não perdesse a hora de escapar daquele inferno. De volta a Fortaleza, eu nunca fui tão feliz em rever o asfalto.

PS: queria ter notícias da cara da dona da pousada ao descobrir o aborto que lhe deixei no banheiro nessa minha última noite. Quem sabe assim a vaca aprende a não cortar a água dos hóspedes.



 Escrito por Rindu às 18:39
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RINDU E O MAR


Depois de não sei quanto tempo, eu estou no litoral novamente. E meu Deus, que litoral. Já do avião, quando eu vi o mar azul-turquesa que banha Fortaleza, eu tive a certeza de que estas seriam férias muito boas.

Eu e o mar temos uma relação bem especial. Nasci em Brasília, minha família é toda concentrada no continente e eu cresci vendo o mar apenas uma vez por ano, mas mesmo assim eu só me sinto recarregando minhas baterias quando imerso em água salgada. Além disso, estar numa praia me leva a toda uma trip de fechar balanços, concluir fases, concentrar forças para novos vôos. É um momento intenso.

Fortaleza é uma cidade bonita, limpa e com um povo misturado que, como em Brasília, põe nos mesmos lugares gente muito, muito feia, e gente muito, muito bonita. Acho que essa é uma das vantagens de se ser brasiliense: naturalmente nos tornamos extremamente tolerantes em termos estéticos.

As praias daqui são de areia finíssima, daquelas que gemem como polvilho quando a gente pisa. O mar é limpo e com uma temperatura fora do comum -- não existe aqui aquele choque de temperatura que sentimos no Rio de Janeiro, Torres ou Guarapari, praias que eu visitei nos últimos anos. Aqui a gente simplesmente vai entrando, entrando, entrando... sem dor nem agonia. E depois de um banho de mar assim tão bom, o sol radioso vem brindar com a promessa de uma cor fabulosa!

Se bem que, como em todas as minhas viagens, essa também está sendo marcada por alguns infortúnios. Ontem mesmo eu perdi a minha carteira de motorista, com uma nota de cinqüenta reais dentro, durante a minha primeira caminhada pela orla. Acho que ela caiu do meu bolso quando eu me sentei num banco para tirar a areia dos pés, para não mais ser encontrada. Daí a minha primeira noite em Fortaleza foi numa delegacia de polícia, registrando um Boletim de Ocorrência do extravio do meu documento para poder ter como embarcar de volta para Brasília no domingo.

Sentado na sala de espera da delegacia (que mais parecia um necrotério) eu resolvi puxar uma pele de uma bolha estourada na planta do meu pé esquerdo. E fui puxando, puxando, até que deu no sangue. Saí de lá sem carteira de identidade e mancando. Uma beleza para o meu primeiro dia aqui.

Hoje fui a praia, e já comprei a minha passagem para Almofala. A partir de amanhã vou lagartear numa praia semi-deserta numa vila de mil habitantes. E vou lagartear sem meus chinelos, porque as tiras do pé direito acabaram de arrebentar.

É bom essa maré de azar passar logo, viu.



 Escrito por Rindu às 21:11
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