RINDU NA ILHA DO DR. MOUREAU
A minha ida para Almofala revelou-se uma péssima idéia. Não pela visita a uma das minhas melhores amigas, que eu não via desde janeiro quando ela se mudou para lá, mas por Almofala em si. Eu planejara ficar ali até hoje, mas já na noite de segunda-feira eu vi que tinha que ir embora o quanto antes.
O lugar é o ânus do mundo, acessível só depois de mais de cinco horas de viagem de ônibus. A praia é linda, e deserta como eu queria, mas com um fundo pedregoso que machucava ainda mais o meu pé cortado e atiçava a minha imaginação sempre alerta para arraias e ouriços, e outras coisas horríveis que pedras assim podem esconder. Aliás, acho o mar lindo e hostil ao mesmo tempo: quase tudo que vive nele ou morde, ou é ácido, ou é venenoso ou tem espinhos mortíferos. Ou tudo isso junto.
A pousada revelou-se uma merda. Tudo bem que por quinze reais eu não esperava muito, mas pelo menos eu acho que um quarto com papel higiênico, sabonete e toalha de banho (já que havia roupa de cama) não seria pedir demais. O quarto não tinha uma janela sequer e, alegria das alegrias: era infestado de pererecas a partir do pôr-do-sol. Eu passei as minhas noites ali monitorando a atividade dos bratáquios e das lagartixas na caça às moscas que pousavam em torno da única lâmpada que iluminava o quarto, em cima da porta. Com esse atrativo a desviar-lhes a atenção da minha cama, eu dormi com a luz acesa as duas noites que passei ali.
Ah, e tinha mais uma coisa: só havia água de dia. De noite não havia como tomar um banho, escovar os dentes, usar o vaso, nada.
Além disso tudo, havia os nativos. O cearense puro é um indivíduo meio estranho, que fala de soslaio, sem fitar os olhos do seu interlocutor. Além disso, a sua fala é embolada, enigmática. Almofala, sendo uma reserva indígena (o Ceará é uma grande taba, eu venho notando) tem essa característica ainda mais evidente em sua população, de modo que tornou-se sobremaneira desgastante lidar com aquilo. Tanto que preferi prescindir a toalha e o papel higiênico nesses dias que passei ali para não ter que lidar com a dona da pousada (conseguir um sabonete foi um parto).
Ser branco e alto num lugar que todos são escuros e baixos, e que quase não vêem forasteiros, revelou-se um problema para mim. Andava pela rua da cidade com os olhos cravados no chão, para que as cantadas escancaradas da mulherada não acabassem servindo de pretexto para algum problema desnecessário. Em lugares como aquele mata-se gente como eu.
Na tarde de terça-feira fui visitar a base do Projeto Tamar, que é onde a minha amiga está trabalhando. Um grupo de crianças estava ali para ter uma aula sobre tartarugas marinhas, por causa da Semana do Meio-Ambiente. Eu fiquei ao largo do grupo, só ouvindo as explicações, enquanto a meninada prestava mais atenção em mim do que nos bichos que nadavam nos tanques. Os meninos não me incomodavam, porque me olhavam com uma curiosidade inocente; já a maioria das meninas, por jovens que fossem, já me olhava com cobiça. Sorriam, se insinuavam, buscavam flertar com o meu olhar. Senti um verdadeiro asco, uma vontade de dar-lhes na cara para que tivessem um mínimo de recato. Entretanto preferi ficar na minha, cravar meus olhos no chão e sair dali mudo quando tudo terminasse.
Acho que depois de ver essas coisas eu passei a desconfiar do papo de que a prostituição infantil, que eu vejo rolando tão à larga por aqui, é algo arbitrariamente imposto a essas crianças. Pode parecer cruel disser isso (e realmente é), mas parece que essas meninas sabem muito bem a que estão se propondo ao dar em cima de um homem como deram em cima de mim. Aqui em Fortaleza elas literalmente se jogam em cima dos gringos, num assédio que chega a ser escandaloso.
Enfim, custou para eu vencer sair de Almofala: pensei que daria para partir já na tarde de terça-feira, mas então descobri que os ônibus saem dali unicamente às cinco da manhã. Parecia um delírio kafkiano: tão fácil entrar, tão difícil sair. Mas eu não me dei por vencido, até porque me livrar daquilo passou a ser questão de honra para mim.
Obstinei-me, comprei minhas passagens e voltei para a pousada para fazer a minha mala. Noite afora ficamos ali eu e minhas pererecas de prontidão, para que eu não perdesse a hora de escapar daquele inferno. De volta a Fortaleza, eu nunca fui tão feliz em rever o asfalto.
PS: queria ter notícias da cara da dona da pousada ao descobrir o aborto que lhe deixei no banheiro nessa minha última noite. Quem sabe assim a vaca aprende a não cortar a água dos hóspedes.
Escrito
por Rindu às 18:39
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