"I remember when i first moved here,
a long time ago
´Cause I heard some song
I used to hear back then,
a lone time ago.
I remember when, even further back,
in another town,
´Cause I saw something written
I used to say back then,
hard to comprehend.

"And the question is,
was I more alive
then than I am now?
I happily have to disagree;
I laugh more often now,
I cry more often now...

I am more me".

"Objects Of My Affection"
Peter, Bjorn & John.








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EU PRECISO CONVERSAR COM VOCÊ


Pânico.

Não importa a cultura, não importa a língua, não importa onde: do deserto do Serengueti a Times Square, passando por Botswana e São Paulo, todo mundo sabe que uma conversa que começa com essa frase não tem como ter um bom termo. Esse é o clichê internacional para se encerrar relacionamentos de maneira civilizada, adotado em qualquer cultura, em qualquer lugar. Quase um Patrimônio Cultural da Humanidade listado pela UNESCO.

Seja em português claro, suahili ou sânscrito, qualquer coisa parecida com "eu preciso conversar com você" é certamente a introdução para "eu não quero mais te ver". Uma leva a outra; as duas falas são quase a mesma coisa, na verdade. Andam sempre de mãos dadas.

O pior é que saber disso deveria bastar para decidirmos cair fora do relacionamento em comento assim que ouvimos essa invocação. Mas não é isso que acontece: obstinados como um capitão que afunda com seu navio, damos a cara a tapa e o braço a torcer para pagar para ver e ouvir o temido pé-na-bunda com todas as suas letras, cores e dores. E, por mais anunciado que ele tenha sido, haja lágrimas que dêem conta depois do fato consumado.

Gostaria de saber qual é essa mola irresistível que nos empurra para a nossa própria danação, ainda que tão prenunciada. O motivo que nos leva a ir até o fim, por mais que esse fim seja previsível, doloroso e -- por que não? -- evitável. Romantismos desconsiderados, haverá valentões que dirão que vão até o fim porque são pessoas dignas, que querem olhar nos olhos da pessoa que lhes dirá que a sua companhia não é mais desejada e pt-saudações. Olha, francamente: eu não acho que seja assim, não.

Brios e orgulhos feridos à parte, a verdade é que ignoramos a iminência da desgraça porque alguma parte perversa de nosso eu apaixonado teima insistentemente em ser esperançosa. Por mais que nosso coração se aperte quando nos postamos diante do nosso algoz -- que outrora fora a alegria de nossos dias -- para levar o toco inevitável, de alguma maneira insistirmos em nos iludir que o que vai acontecer é outra coisa completamente diferente. Que a tal conversa será para consertar erros da relação, e não mandá-la definitivamente para as cucuias.

Há ainda quem vai mais longe. Esses não conseguem deixar de se iludir, lá no fundinho do coração, que a tal conversa será na verdade uma declaração de amor eterno, bem diferente do inexorável "acho que não tem nada a ver a gente continuar se vendo" que de fato ouvirão. Fazer isso a si mesmo é o mesmo que esperar uma mega-blaster festa surpresa no dia do seu aniversário, e na realidade só ganhar um telefonema da tia gorda que mora no interior e dois scraps no Orkut -- sendo um deles de um spammer e o outro da sua irmã. Expectativas altas só resultam em frustrações, daí o baque ser tão doído por mais preparados (?) que estivéssemos.

Somos um bando de idiotas. Todos nós.



 Escrito por Rindu às 10:35
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ALTOS E BAIXOS


Mais uma vez, numa quarta-feira, um mocha no Kitinete em ótima companhia salvou a minha noite. E a minha vida também.

Mas você sabe que está no sal quando acorda cantarolando Gene Pitney. Muita calma nessa hora.

Ontem indulgenciei-me com um terno-escândalo que custou provavelmente o equivalente a soma de todo o meu guarda-roupa. Mas ah, que diabo. Só se vive uma vez e eu estou cansado de vestir mortalhas que parecem a capa do Batman quando tenho que usar passeio completo.

Hoje eu não queria estar aqui no trabalho. Nem em Brasília. Quiçá, nem no Brasil.

Ou neste planeta, vai saber.



 Escrito por Rindu às 08:07
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O PRÍNCIPE DO GRÃO-PARÁ


Ontem a minha mãe foi homenageada junto com outros jornalistas, e eu fui assistir à entrega das medalhas. No fim, fui apresentado a Sua Alteza Imperial e Real, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Príncipe do Grão-Pará. O segundo na linha sucessória putativa do trono brasileiro.

A Casa Imperial Brasileira é uma das mais respeitadas do mundo, com sangue dos Orleáns franceses, dos Bourbon-Sicílias da Itália, dos Habsburgos da Áustria, dos Saxe-Courburg da Baviera e, é claro, dos Bragança de Portugal. São parentes próximos deles vários monarcas putativos da Europa.

Vendo o cara discursar, eu fiquei pensando como deve ser você ser preparado a vida inteira para se tornar algo que nunca vai se concretizar. Nem se sonha restaurar a monarquia brasileira, e os príncipes ficam por aí vivendo das glórias de seus antepassados. Servem de opção para casamentos dinásticos nas outras casas reais, e mais nada. 

Fazem discursos, presidem eventos, ocasionalmente opinam sobre algum ou outro assunto de política quando solicitados para tanto. Provavelmente, sendo tão preparados e vendo tudo o que a República tem feito ao Brasil, são assaltados por intensas frustrações de impotência.

Uma quase-vida como a minha, só que institucionalizada.



 Escrito por Rindu às 11:51
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MORDAÇA NOW


Já disse o quanto o inverno me faz sentir deslocado e sozinho. Além dos efeitos de praxe no meu humor, que torna-se muito mais instável e irritadiço, há um efeito colateral bem incômodo: a minha língua-de-trapo.

Eu sou um cara que naturalmente fala muito. Falar é a minha forma primária de comunicação, e eu sinto uma verdadeira compulsão por expressar-me falando. É assim que se criam laços com o mundo à minha volta, creio eu.

Quando eu me sinto deslocado, eu tendo a falar mais ainda para contornar essa situação o mais rápido possível. Ou seja: de uma pessoa que fala muito, eu acabo me tornando alguém que fala demais. E, como não poderia deixar de ser, fatalmente falo o que não devo.

Torno-me desnecessariamente opinativo, como se achasse que o mundo quisesse muito saber o que eu penso sobre tudo o que cruza o meu caminho. Também fico com a boca mais suja -- o que, para uma pessoa com o padrão de linguajar como o meu, significa ser capaz de fazer Dercy Gonçalves corar.

Dou bom-dia a cavalo, me meto em saias-justas e depois quase me mato de tanta raiva por estar sendo um chato tão grande e, ainda por cima, ridículo.

Tem horas que eu queria ser mudo.



 Escrito por Rindu às 16:27
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MILONGAS DE AMOR


Ontem assisti à performance ao vivo do quinteto franco-argentino Gotan Project, na Concha Acústica. Para quem não conhece ainda, o som que o grupo produz alia tangos de raiz a batidas eletrônicas bem suaves. O resultado é surpreendente, belíssimo.

Foi bonito, foi divertido.

E eu percebi que a minha capacidade de me sentir deslocado pode me pregar surpresas meio desagradáveis.



 Escrito por Rindu às 13:54
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