EU PRECISO CONVERSAR COM VOCÊ
Pânico.
Não importa a cultura, não importa a língua, não importa onde: do deserto do Serengueti a Times Square, passando por Botswana e São Paulo, todo mundo sabe que uma conversa que começa com essa frase não tem como ter um bom termo. Esse é o clichê internacional para se encerrar relacionamentos de maneira civilizada, adotado em qualquer cultura, em qualquer lugar. Quase um Patrimônio Cultural da Humanidade listado pela UNESCO.
Seja em português claro, suahili ou sânscrito, qualquer coisa parecida com "eu preciso conversar com você" é certamente a introdução para "eu não quero mais te ver". Uma leva a outra; as duas falas são quase a mesma coisa, na verdade. Andam sempre de mãos dadas.
O pior é que saber disso deveria bastar para decidirmos cair fora do relacionamento em comento assim que ouvimos essa invocação. Mas não é isso que acontece: obstinados como um capitão que afunda com seu navio, damos a cara a tapa e o braço a torcer para pagar para ver e ouvir o temido pé-na-bunda com todas as suas letras, cores e dores. E, por mais anunciado que ele tenha sido, haja lágrimas que dêem conta depois do fato consumado.
Gostaria de saber qual é essa mola irresistível que nos empurra para a nossa própria danação, ainda que tão prenunciada. O motivo que nos leva a ir até o fim, por mais que esse fim seja previsível, doloroso e -- por que não? -- evitável. Romantismos desconsiderados, haverá valentões que dirão que vão até o fim porque são pessoas dignas, que querem olhar nos olhos da pessoa que lhes dirá que a sua companhia não é mais desejada e pt-saudações. Olha, francamente: eu não acho que seja assim, não.
Brios e orgulhos feridos à parte, a verdade é que ignoramos a iminência da desgraça porque alguma parte perversa de nosso eu apaixonado teima insistentemente em ser esperançosa. Por mais que nosso coração se aperte quando nos postamos diante do nosso algoz -- que outrora fora a alegria de nossos dias -- para levar o toco inevitável, de alguma maneira insistirmos em nos iludir que o que vai acontecer é outra coisa completamente diferente. Que a tal conversa será para consertar erros da relação, e não mandá-la definitivamente para as cucuias.
Há ainda quem vai mais longe. Esses não conseguem deixar de se iludir, lá no fundinho do coração, que a tal conversa será na verdade uma declaração de amor eterno, bem diferente do inexorável "acho que não tem nada a ver a gente continuar se vendo" que de fato ouvirão. Fazer isso a si mesmo é o mesmo que esperar uma mega-blaster festa surpresa no dia do seu aniversário, e na realidade só ganhar um telefonema da tia gorda que mora no interior e dois scraps no Orkut -- sendo um deles de um spammer e o outro da sua irmã. Expectativas altas só resultam em frustrações, daí o baque ser tão doído por mais preparados (?) que estivéssemos.
Somos um bando de idiotas. Todos nós.
Escrito
por Rindu às 10:35
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