AS MÃOS SUJAS DE SANGUE
Eu acredito que não seria carbonário manifestar uma certa estranheza pela ocorrência de dois acidentes aéreos de tão grandes proporções em menos de um ano no Brasil. Uma das maiores propagandas a favor do transporte aéreo de passageiros é justamente a sua segurança: as estatísticas mostram que a porcentagem de acidentes ocorridos em face dos vôos realizados pelo mundo afora é praticamente desprezível.
A história nos mostra que é raro alguém escapar vivo de um acidente aéreo sério (sempre achei aviões verdadeiras arapucas), mas esses são tão esporádicos que o perigo de estar embarcando para a morte sequer passa pela mente dos milhões de passageiros que voam todos os dias. As empresas aéreas sempre fazem questão de alardear o seu cuidado com a manutenção de suas aeronaves, e o cumprimento estrito de todas as convenções de segurança vigentes no planeta. Equipamentos novos, equipes muito bem treinadas, tudo isso é mostrado para validar uma imagem de confiabilidade e segurança para o passageiro que se dispõe a entregar-lhes a sua própria integridade física numa viagem.
Entretanto, ainda assim acidentes acontecem -- e isso é normal, apesar de assustador. Pelo mundo todo, vez por outra o acaso consegue driblar tantos procedimentos e tantas precauções para ceifar, aqui e ali, vidas em acidentes aéreos. E é aí que entra a minha estranheza: acidentes aéreos sérios são bem esporádicos pelo mundo afora, mas parecem que ultimamente vêm deixando de sê-lo no Brasil. E por mais que a fatalidade possa ser a culpada pelas mais de 350 pessoas que perderam suas vidas neles nos últimos dez meses, certamente tamanha coincidência -- ou falta dela -- me chama a atenção.
Não tenho nenhum conhecimento técnico para avaliar nada, só as informações que a mídia me fornece. E, pelo que eu sei, a tragédia de ontem à noite em São Paulo veio sendo anunciada há pelo menos vinte dias. Isso porque apesar das denúncias escandalosas de superfaturamento das obras do Aeroporto de Congonhas, apesar de todos saberem que as obras na pista principal não estavam completas (faltavam as tais ranhuras no asfalto para aumentar a aderência e drenar a água da chuva), o Governo Federal assumiu a responsabilidade de fazer ouvidos moucos e tocar o barco para frente. A pista foi reinaugurada, a reforma do Aeroporto seguiu em frente, e agora 200 pessoas estão mortas.
Aí eu me pergunto: quem vai assumir a responsabilidade pelo sangue dessas pessoas? Quem se responsabiliza pelos 154 que também pereceram em setembro passado, vitimados pela inépcia da administração pública federal no controle do espaço aéreo nacional?
O Presidente da República vai aparecer fazendo beicinho na televisão e vai manifestar os seus pêsames pelos mortos. Nos acenará a mão que a sua incompetência como torneiro mecânico mutilou, para que esqueçamos da sua incompetência como Chefe da Nação e do Estado. A senhora que ele escolheu para Ministra do Turismo vai continuar achando que temos mais é que suportar o estupro do descontrole da máquina federal sin perder la ternura jamás. Vão criar mais um "gabinete de crise" para elaborar um estudo sobre o óbvio. Falarão um monte, gastarão rios de dinheiro em nada, e no fim vai ficar tudo por isso mesmo: o acidente da Gol, o caos aéreo, o descalabro no Aeroporto de Congonhas, e agora o acidente da TAM.
E que ninguém ouse mencionar o conceito de culpa in elegendo.
Escrito
por Rindu às 16:46
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