DESMIOLADO
Eu não sei o que anda acontecendo comigo. Eu, que sempre me orgulhei da minha capacidade de nunca perder ou esquecer nada, tenho sido forçado a lidar com o sumiço de uma série de coisas. E isso só tem piorado com o passar do tempo.
Ainda no ano passado eu esqueci um livro num avião, que nunca mais recuperei e tive que comprar um novo para terminar de lê-lo. Recentemente julgava ter perdido um cinto, que na semana passada eu reencontrei esquecido num bolso de uma das minhas malas. Também havia sumido um blazer e uma gravata, que só Deus sabe como apareceu na casa da minha mãe, já que a calça estava na minha casa.
A bola da vez foi o meu maior xodó, o meu bem mais precioso em termos afetivos: a minha câmera digital. Em algum momento e lugar entre a tarde de domingo retrasado em Araguari e a tarde da sexta-feira passada na minha casa, essa câmera desapareceu sem deixar rastros. Não tenho a mínima idéia de onde eu possa tê-la perdido, nem de quando isso aconteceu. As minhas memórias desse período são um grande borrão e isso é desesperador, angustiante.
Se ela me tivesse sido roubada num assalto, ou o meu carro tivesse sido arrombado e a câmera furtada, eu não estaria sofrendo tanto. Se ela tivesse se quebrado irremediavelmente, eu não estaria tão chateado. Porque o que me tortura não é dor do prejuízo em si, porque eu não ligo para isso: vão-se os anéis e ficam os dedos, mesmo. O que me tira a tranqüilidade é a dor moral de não ter nem idéia do que possa ter acontecido, ou onde, ou quando. Ela simplesmente sumiu e isso é tudo o que sei.
Tracei uma série de hipóteses a partir do último momento e lugar em que eu tenho a lembrança de ter manipulado a câmera: na casa do avô dos meus primos, em Araguari, na tarde de domingo. Dali até a tarde de sexta-feira na minha casa em Brasília, quando eu dei por falta dela, um sem-número de hipóteses pode ter acontecido. E todas têm se revelado infrutíferas:
- não acharam nada na casa do avô dos meus primos;
- não deixei nada na casa da minha avó;
- não está em nenhum compartimento da minha mala, que eu esvaziei em casa para emprestar para meu irmão viajar para o Rio de Janeiro (eu lembro nitidamente de não ter colocado a máquina na mala);
- não está na minha casa, claro;
- não está na casa da minha mãe;
- não está no meu trabalho;
- não está em nenhum compartimento do meu carro (até debaixo do banco de trás eu olhei).
Exauridas essas possibilidades, sobram as especulações para o extravio, que é justamente o que está acabando comigo nesses últimos dias. Isso porque eu fico constantemente me esforçando para me lembrar se alguma delas pode ter mesmo acontecido, ao mesmo tempo em que me torturo por ter sido tão idiota e relapso a ponto de deixar alguma delas acontecer.
- alguém entrou na minha casa e furtou a máquina (isso porque eu tenho uma vaga lembrança -- real ou não -- de tê-la deixado sobre a minha cômoda para ser guardada depois). Essa é a mais improvável das hipóteses por uma série de razões: não recebi visitas, e creio que o meu roommate também não. E mesmo que as tivéssemos recebido, não seriam do tipo que fariam esse tipo de coisa. Além disso, a nossa diarista é de total confiança;
- eu deixei a máquina cair do porta-mapas da porta do meu carro, ou a larguei em cima do carro para pegar algo e a esqueci ali. É a chance mais provável. E a mais cretina também.
- eu levei a câmera para a casa da minha mãe, que está em obras e repleta de operários que não conhecemos, e algum deles achou por bem incorporá-la ao seu patrimônio à minha revelia;
- eu larguei essa máquina no posto de gasolina em que eu parei para lanchar na estrada, por causa da minha mania de fotografar até mesmo os acontecimentos mais prosaicos. Ou seja, paguei por ser um idiota.
Olha, pensar nisso tem me deixado cansado. E angustiado porque não dá para comprar outra máquina agora por causa de vááárias prestações que estão rolando por aí.
Não sei o que possa estar errado comigo para estar assim tão distraído. Ontem de noite, por exemplo, "perdi" o meu celular: estava com ele na casa da minha mãe, e cheguei em casa sem ele. Hoje na hora do almoço eu o procurei por lá e não encontrei nada. Fui ver no meu carro e graças a Deus o achei mimetizado com o forro preto do banco de trás. Foi um alívio, porque eu já estava querendo começar a chorar de desespero por tantos sumiços.
Alguém me ajuda?
Escrito
por Rindu às 14:08
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