OS ANÉIS E OS DEDOS
Eu ganhei a minha primeira máquina fotográfica no meu aniversário de 13 anos: uma Kodak Sport amarela, daquelas tinham um formato diferente, usavam um cartucho de filme estreitinho, e levavam trinta segundos para carregar o flash a cada foto. Já antes disso eu era um apaixonado pela fotografia, e isso talvez seja conseqüência de ter nascido e sido criado no meio de uma família que sempre fotografou cada momento do seu cotidiano.
Eu e meus irmãos crescemos sob a mira das lentes da Pentax de meus pais, e meu avô materno era um fotógrafo amador talentoso. Várias de suas experiementações com sua Leica lhe renderam prêmios em concursos. A minha avó conservava um acervo fotográfico impressionante, coisa de milhares de fotos -- o que é muito quando nos lembramos que naquela época os filmes tinham que ser mandados para os Estados Unidos para serem revelados. Minha mãe foi habituada a freqüentar assiduamente o estúdio do Cine-Foto Geraldo, em Araguari. Qualquer coisa era motivo para uma foto: um novo penteado, as unhas compridas conforme a moda à época, a ninhada da sua cadelinha.
Sempre cultivei o hábito de fotografar mesmo os momentos mais prosaicos da minha vida. Festas, viagens, passeios, encontros, tudo serviu de argumento para eu montar um arquivo bem grande de fotos ao longo dos anos. Fotografias são preciosas para mim: quando eu viajava, sempre despachava as malas mas trazia os filmes comigo -- roupas e tudo mais podem ser substituídas se extraviadas; as lembranças registradas nas fotos, não.
Sempre me ressenti com os automatismos das máquinas modernas, e invejei as acrobacias que meu avô fazia com a sua máquina completamente manual. A Kodak Sport, a Vivitar que eu comprei no meu intercâmbio, e a Canon bosta que eu ganhei na minha formatura só serviam para registrar momentos mesmo. Eu nunca consegui imprimir lirismo algum às fotos que tirava com elas, porque sempre saíam bidimensionais, chapadas, sem alma. Foi com elas que eu aprendi a odiar o flash, que hoje eu só uso como último recurso.
Quando eu finalmente consegui juntar um dinheiro para comprar a minha câmera digital -- depois de anos sem câmera alguma, desiludido que estava com a Canon que tanto me fez sofrer -- foi a realização de um sonho. Uma CyberShot W70 7.1 megapixels, toda ajustável para as minhas brincadeiras com luz e sombra, cores e foco, me faziam o cara mais feliz do mundo. Comprei a máquina em dezembro de 2006, e nesses sete ou oito meses eu já tirei mais de duas mil fotos: viagens, saídas com amigos, momentos de tédio, festas, passeios, nada escapou à falta de culpa que o cartão de memória de um gigabyte me proporcionava.
Tanta paixão logo virou apego, e como todo apego esse também não era saudável. Eu costumava brincar dizendo que morreria se perdesse a minha câmera, que aquele era o meu bem mais precioso em termos afetivos. Foi então que chegou a hora de Deus me dar um chacoalhão.
Com o desaparecimento inexplicável depois da minha viagem a Araguari -- muito mais inexplicável ainda por causa da amnésia do que aconteceu nos dias seguintes até finalmente perceber a ausência -- eu sofri um bocado. Sofri pela perda, sofri por ser um idiota que perde as coisas daquela maneira e só se dá conta disso dias depois. E segui sofrendo até a hora que acordei para o fato que a câmera era só uma câmera. Que eu a possuía, e não ela a mim. E que eu podia comprar outra, sem problema algum. Vão-se os anéis, ficam os dedos.
Quando eu aprendi a lição e me libertei desse apego, lembrando de dar importância ao que é mesmo importante na vida, a câmera apareceu. A faxineira do avô da minha prima a encontrou perto do computador, meio escondida porque eu estava usando o mouse e a coloquei mais para o fundo da mesa. Essa notícia me acordou (e fez o meu dia) no sábado, e na terça-feira eu a terei de volta.
Deus é um Pai exemplar. Mesmo quando nos sentimos podados nos sentimos amados ao extremo.
Escrito
por Rindu às 11:10
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