E NÓS NEM PRECISAMOS DE GUIZOS
Sabe o que eu mais gosto de ver nos Jogos Para-Panamericanos? A estrutura que se monta nesses eventos para dar apoio aos atletas. Tipo, nas provas de corrida com cegos, tem que ter uma pessoa que se disponha a correr com o cara para que ele não saia do caminho. Nas provas de natação é necessário que alguém coloque os nadadores paralíticos ou desmembrados na água, e depois os tirem de lá. Tem também os que ficam na margem com uma vara, para tocar os nadadores cegos e avisá-los que a piscina acabou e que eles podem parar de nadar. E a galera que faz isso está lá, na boa, trabalhando com amor. A maioria nem sobe no pódium na hora da premiação.
Uma vez escreveram no mural da minha sala de sexta-série uma frase que, não sei por que, nunca esqueci: "vivia chorando porque não tinha sapatos, até que vi sorrir um homem que não tinha pés"*. Acho que lembrar disso se aplica a essa época dos jogos e tudo mais, porque é quando se vê todos os dias gente vencendo limites considerados intransponíveis, apesar de uma condição de vida que, aos olhos de muitos, já é uma pré-condição para a derrota.
É inevitável olharmos para nós mesmos nessas horas, e nos envergonharmos do tanto que reclamamos e nos sentimos desgraçados apesar da vida praticamente perfeita que temos. Eu, então, que sou campeoníssimo nessa lamúria, tenho certeza de que muitos daqueles atletas que eu vejo na televisão trocariam de lugar comigo sem pestanejar, se pudessem.
A nadadora japonesa em pânico antes da prova me emocionou. E as imagens dos cegos jogando futebol com uma bola com um guizo dentro para que eles possam achá-la no meio do campo também.
Acho que mais do que valorizar os atletas com necessidades especiais, esses Jogos Para-Panamericanos servem para a gente olhar para o Céu e louvar a Deus por absolutamente tudo, viu.
* Ou, na versão do Alan (colega meu daquela época): "vivia chorando porque não tinha cabelos, até que vi dois carecas brigando por um pente".
Escrito
por Rindu às 16:58
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