O BOM FILHO À CASA TORNA
Acho que eu ainda não contei aqui: já faz alguns meses eu estou me organizando para voltar para a casa dos meus pais. Chegou a hora de eu ir morar sozinho, e para isso eu preciso ter a mobília e os eletrodomésticos para montar a minha casa -- daí voltar por uma temporada, para juntar grana para ajeitar o meu cafofo.
Depois de três anos e um mês fora do sistema do resto da minha família, é necessária uma séria e bem profunda preparação psicológica para que esse retrocesso seja o menos traumático possível. Vou ter que abrir mão de todo o meu apego pela minha privacidade, que certamente voltará a ser bem tolhida, bem como terei que reaprender a viver sem muita autonomia. O fato de eu já ter 31 anos de idade pouco influi quanto a isso: voltarei a ter horários, terei que dar satisfações de onde vou e quando volto, e receber hóspedes não será mais algo tão corriqueiro como é agora.
Apesar disso tudo, estou enfrentando toda essa situação com muito otimismo. Para mim essa é uma oportunidade de eu resgatar minhas raízes, e extirpar muita coisa ruim que vem habitando a minha vida nos últimos tempos. Será como um divisor de águas, na verdade. Além do mais, espero que não dure muito tempo: creio que em seis ou oito meses eu já vou poder começar a considerar concretamente arranjar o meu próprio canto, seja ele alugado ou não.
Entretanto, por mais positiva que seja a idéia e a atitude de voltar, ela ainda desperta sentimentos contraditórios em mim -- sobretudo por medo das lembranças de 2002 e 2003... e de vez em quando essa contradição consegue se manifestar.
No domingo passado a minha cunhada me perguntou quando que eu finalmente faria a minha mudança, que vem sendo adiada há tanto tempo. Respondi que me mudaria no dia primeiro de setembro, e automaticamente fiz uma cara contrita, de dor mesmo, por causa do pensamento da mudança. Por azar a minha mãe estava por perto, viu o meu muxoxo e ficou uma onça. Disse que se fosse para me causar tanta contrição, eu não deveria voltar.
Ela estava com razão, e eu me senti mal por tê-la feito presenciar aquilo que, numa leitura distante, pode parecer ingratidão com toda a alegria que ela e meu pai têm manifestado para me receber de volta. Tentei explicar que era por conta de eu perder o jeito que eu tinha organizado a minha vida nesses três anos e tudo mais, não necessariamente pesar por voltar a coabitar com ela. Não sei se ela entendeu.
O que me deixa com uma lição: tenho mais é que trabalhar calado mesmo, ficar bem quietinho na minha, se não quiser ter problemas nos próximos meses.
Escrito
por Rindu às 11:14
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