RENAN CALHEIROS
Renan Calheiros foi absolvido das denúncias que corriam contra ele no Senado Federal, e mais uma vez pipocaram aqui e ali imprecações inflamadas contra o Congresso Nacional e toda a classe política brasileira na imprensa e nos blogs -- o que acaba reverberando pelas ruas.
Dizem que somos assombrados por um encosto corruptor, que possui nossos representantes eleitos tão logo eles tomam posse. Que o Congresso Nacional há muito deixou de cumprir o seu papel de representar o povo brasileiro na sua essência, e que o Brasil-brasileiro-meu-mulato-inzoneiro-tira-a-mãe-preta-do-cerrado não merece os políticos que tem. Que somos um país envergonhado de suas representações políticas: câmaras de vereadores, assembléias legislativas, a Câmara Legislativa do Distrito Federal, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal... absolutamente nada poupa-nos desse embaraço cívico. Que somos um povo refém de uma malta sobrenatural de gatunos e malfeitores que, legislatura após legislatura, persiste em viver seus dias dedicada a espalhar choro e ranger de dentes por todos os cantos do território nacional.
Essa conversinha me cansa.
Acho que foi Charles DeGaulle que um dia disse que todo povo tem o governo que merece. E eu sinceramente acho que os brasileiros não escapam a essa regra: temos o governo que merecemos, sim. Você não está entendendo mal, caro leitor: o seu raciocínio está correto. Estou afirmando que o Congresso Nacional, câmaras de vereadores, assembléias legislativas e a gloriosa Câmara Legislativa brasiliense são corruptas porque o povo brasileiro é instrinsecamente corrupto. Prova disso é que legislaturas se sucedem, a classe política se renova, mas os escândalos persistem -- e, na verdade, até vêm aumentando.
Ou seja, pelo menos nesse aspecto o Congresso Nacional vem desempenhando o seu papel de representar o povo brasileiro, ao ponto de servir-lhe de retrato, com propriedade e maestria irrepreensíveis. Aplaudamos todos então a Luiz Estêvão, Joaquim Roriz, Renan Calheiros, Antônio Carlos Magalhães, José Roberto Arruda, José Dirceu e todos os seus mensaleiros inomináveis.
Antes que vocês proclamem uma fatwa contra mim, permitam-me elaborar melhor essa minha tese. Afinal, numa leitura precipitada eu estou reduzindo os brasileiros -- eu incluído, obviamente -- a uma quadrilha de ladrões, e essa é uma ilação muito séria. Não é bem isso que eu quero expressar, embora o conceito de ser corrupto que eu tenho em mente fatalmente esbarra na apropriação indébita do alheio, ainda que subjetivamente.
O que eu quero dizer é que o povo brasileiro é, culturalmente, leniente com a corrupção. Leniente ao ponto de admirar aqueles que têm a coragem ou a cara-de-pau para mandar às favas o ordenamento ético e cívico comum para fazer as suas coisas conforme o seu próprio juízo de valores, por mais questionável e volúvel que ele seja. Esses são admirarados ao ponto de serem eleitos para mandatos públicos.
Brasileiros levam cães à praia, mesmo sabendo que é proibido, só porque acreditam piamente que os seus cães -- tal como seus donos -- são diferentes dos demais, e por isso mesmo inofensivos. Afinal, brasileiro que se preza não se considera igual a todo mundo. Brasileiro que se preza é sempre especialmente diferente dos demais viventes.
O brasileiro é um povo que considera otário quem paga imposto de renda sem artimanhas para isenções indevidas ou um caixa-dois. Brasileiros acham um absurdo devolver troco vindo a mais, avisar o professor sobre uma nota atribuída a maior, receber e pagar as multas de trânsito sem tentar dar um jeitinho com o guarda, ou algum esquema no DETRAN para apagá-las.
Brasileiro gosta de boca-livre. Brasileiro gosta do que é dado. Se é de graça, mesmo que seja injeção na testa, brasileiro quer. Brasileiro considera o que é público como coisa sem dono, ao invés de uma coisa pertencente a todos.
Uma boa parcela dos brasileiros não respeita fila, e esses geralmente só encontram pela frente a resignação dos que gostariam de ter feito a mesma coisa, mas não tiveram coragem para tanto. Brasileiros fazem tumulto, e tentam levar vantagem em tudo, "cerrrrto?"
Brasileiros se indignam com as notícias sobre cargos públicos sendo ocupados por parentes e amigos de políticos, é verdade -- mas isso muda completamente quando chega a vez deles: ficam todos ouriçados com a perspectiva de aproveitar alguma mamata no Governo sem ter que se esforçar muito para isso. Brasileiros trocam favores, por mais espúrios que sejam, numa filosofia de uma mão lava a outra, mesmo que seja com lama.
Eu poderia ir listando essas coisas por horas e horas a fio, mas acho que o que eu já escrevi aqui é suficiente para provar o meu ponto. O povo brasileiro não é diferente dos seus políticos; as práticas e valores de uns e outros são exatamente os mesmos, só que numa escala muito maior: o troco do pão que veio a mais transforma-se em milhões numa licitação pública. Mas a natureza do delito permanece a mesma.
Nessa ótica, Renan Calheiros é inocente mesmo: ele só pediu para um amigo limpar a barra dele com a sua cria bastarda. E, para compensar tal befeitor, ele agilizou algumas emendas de orçamento para obras que já existiam. Só isso. Foi uma mera troca de favores entre amigos, não um roubo descarado como alguns chatos como eu podem pensar.
"Quem não faria igual? Todo mundo faz isso!" -- foi o que os senadores devem ter pensado na hora de justificarem para si próprios o seu voto secreto para absolver o Presidente do Senado. E eu atiro essa pergunta a cada um de nós: quem não faria igual?
Aliás, é preciso observar o quanto que "Ninguém" e "Todo Mundo" são os dois entes que os brasileiros mais seguem como modelos para pautar suas opções éticas duvidosas. Basta uma confrontação para eles serem lembrados: sempre alega-se que "Ninguém" ou "Todo Mundo" faz alguma coisa para se justificar um ato questionável. Frase essa, aliás, que vem sempre seguida pelo indefectível "e-o-que-que-tem?".
Em suma: pode-se trocar o Congresso Nacional inteiro, e tudo continuará como sempre foi.
Eu acho que é caso de resignar-se, matar-se ou mudar-se.
PS: procurem por "vergonha nacional" no Google e vejam qual é a primeira página que aparece.
Escrito
por Rindu às 11:27
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