INAPTIDÃO FILANTRÓPICA
Acho que meus pais e avós sempre se preocuparam em criar a mim e meus irmãos com uma certa dose de consciência social, desde o princípio. Eu me lembro quando, ainda bem pequeno, eu era levado para visitas ao orfanato dos vicentinos em Araguari. Ou então íamos todos para a Ceilândia para as festas de aniversário de um afilhado dos meus pais, que era filho do porteiro.
Então já vem dessa época a grande confusão e angústia que me torturam quando me vejo na situação de ter que lidar com pessoas com essas necessidades tão mais evidentes, por assim dizer. Não sei agir como todo mundo, dando-lhes atenção redobrada e sendo-lhes gentil ao extremo. Não me sinto bem nem sei ser espontâneo agindo assim, porque acho que estaria subestimando essas pessoas ao tratá-las como se fossem crianças ou idiotas. Isso sem contar na mensagem subliminar que essa atitude passa, de que eu seria o benfeitor condescendente enquanto eles seriam os incapazes em apuros com suas próprias vidas.
Da mesma maneira, não consigo agir como se nada estivesse acontecendo, porque em alguma parte de mim eu sei que aquela não é uma situação normal, na qual eu posso me comportar como em casa ou no trabalho. Tenho medo de parecer indiferente, até mesmo cruel, se não manifesto que de alguma forma eu sou tocado por aquilo que estou vendo, e que gostaria de ajudar no que fosse possível fazer.
Daí me fecho numa luta interna tremenda para manter a minha naturalidade e agir sem demonstrar nem pena, nem indiferença. E assim, oscilando entre esses dois pólos, acabo por me comportar de uma maneira meio canhestra, sem jeito, como se só tivesse polegares nas mãos e dois pés esquerdos. Alguns nem notam isso, mas outros encontram indícios suficientes de uma atitude preconceituosa e alienada, que me leva a ser mais uma vez taxado (injustamente) de elitista.
Sexta-feira passada eu tive que ir na Casa de Missão da Comunidade Católica Toca de Assis, para resolver umas coisas para um encontro que eu estou coordenando na minha Paróquia. O lugar é uma ML do Lago Norte, com um terreno bem grande e bem tranqüilo, na beira do Lago Paranoá, e vive cheio de moradores de rua que os missionários abrigam como parte de seu carisma. Não sei por que aquelas pessoas estão lá, na verdade, já que o lugar não é formalmente um abrigo desse tipo: acho que algumas estão recebendo tratamento médico, porque vi pessoas doentes e com problemas mentais, mas outras eu acho que simplesmente estão "passando uma chuva".
Seja como for, eles estão lá.
Quando eu cheguei, um grupo de pessoas estava fazendo uma visita parecida com as que meus avós faziam. Eu não cheguei a entrar na casa, mas percebi que alguém tocaria algum instrumento musical lá dentro. Enquanto eu conversava com um dos irmãos sobre a razão de eu estar ali, vi uma das senhoras do grupo de visitantes vir arrebanhar o pessoal para ir assistir a apresentação.
Ela se dirigia a eles como se fossem crianças, ou retardados, embora todos fossem adultos. E os caras respondiam olhando para o nada, como se estivessem noutro mundo -- não sei se por alheamento decorrente de alguma condição mental específica, ou por causa do insulto de ver a sua dignidade sendo pisoteada. Tive vergonha simpática pela senhora, ao mesmo tempo em que compreendi o que aqueles pobres-diabos deviam estar sentindo.
Saí de lá mais convicto ainda de que eu não sei lidar com essas coisas.
Escrito
por Rindu às 09:41
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