É MUITO LEGAL! É S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L
Aqui no Escritório é assim: dias de pasmaceira total são logo seguidos por dias frenéticos, em que a gente não tem tempo para nada. E como isso depende de fatores completamente imprevisíveis, como o humor e a hiperatividade dos meus chefes, o jeito é ficar mesmo à mercê do destino e esperar a hora que tamanha agonia vai passar e tudo voltará para um ritmo mais tranqüilo.
Estou devendo um post sobre o último feriadão já há quase uma semana, mas nos últimos dias ora eu não tinha tempo para nada, ora não me ocorria inspiração alguma. Agora as coisas até estão um pouco mais calmas, e eu sigo sem inspiração, mas vou escrever para não deixar ser essa mais uma vivência que, engavetada, acaba nunca se tornando um post aqui no Quarto 1222.
Então: fui passar o feriadão de 12 de outubro em Brazlândia, ajudando uma amiga a coletar material para um vídeo promocional das atividades da Juventude Missionária no Distrito Federal. Para quem não conhece, a Juventude Missionária é um apostolado da Igreja Católica que mobiliza jovens, adultos e famílias para missões de evangelização em regiões geralmente muito carentes. Como em geral esses as pessoas da JM vêm da classe média para cima, essa experiência costuma ser bem impactante na alienação que é praticamente endêmica nos habitantes do Plano Piloto de Brasília e suas adjacências.
Eu sempre resisti muito para participar desse tipo de movimento. À cada convite sempre me vinham à mente as imagens dos missionários mórmons ou testemunhas de Jeová, cujas visitas chegam a ser temidas de tão inconvenientes, e a idéia de me prestar a papel semelhante causava-me arrepios. Da mesma maneira, temia encontrar pelo caminho alguém de outra denominação religiosa que se pusesse a pregar para mim, para converter-me a algum outro culto ou crença -- ora, admito que a tolerância religiosa não pode ser contada como um dos meus melhores atributos, e por causa disso as conseqüências desse encontro poderiam ser trágicas. Era melhor mesmo eu ficar em casa, quietinho e calado.
Dessa vez a coisa aconteceu diferente. Não fui convidado para missionar, mas para ajudar na cobertura dessas atividades, de modo a conseguir imagens e fotos para um vídeo promocional para a próxima invectiva missionária, na Semana Santa. Como esse é o tipo de coisa que eu adoro fazer, topei na hora. Isso sem contar com a animação para um feriado inusitado e, é claro, a curiosidade para ver como as missões de fato acontecem sem a responsabilidade de me envolver com elas.
O contexto para as missões não poderia ser pior: as áreas mais miseráveis de Brazlândia e Ceilândia, duas das cidades-satélites de Brasília. Um calor senegalesco, umidade baixíssima, a poeira que penetra nos poros e no cabelo e deixa uma listra marrom-avermelhada na gola da camiseta. Ou seja, o tipo de cenário que, eu imaginava, faria qualquer filhinho-de-papai pedir arrego para ir passar o feriado tomando sol no deck de sua lancha, no meio do Lago Paranoá, ao som de trance.
Quanto engano.
Era impressionante ver a motivação desse pessoal -- rapazes, garotas, famílias com filhos de colo -- para saírem debaixo de sol, encardindo-se de poeira, para levar à frente o Amor que sentem em seus corações. Sério, era comovente ver os meninos, por exemplo, que estavam abrigados nas condições mais toscas possíveis, tendo que dormir praticamente ao relento e tomar banho de mangueira, andarem pela rua tocando violão e sempre trazendo um sorriso no rosto apesar do desconforto, calor, poeira e da sede. Os depoimentos que eu ouvi enquanto filmava, as fotos que tirei, atestam para mim que algo muito maior do que a mera vontade de farrear ou a necessidade de sentirem-se bons movia aquelas pessoas.
Eu percebi que várias das minhas convicções a respeito das missões não passavam de mitos. Os missionários da JM mais ouvem do que falam (por isso todos sempre dizem que recebem mais do que dão), e isso acaba fazendo de cada visita uma grande oportunidade de desabafo para muita gente que vive angustiada, sem ter quem as ouça.
Também há um respeito absoluto à fé confessada pela família visitada -- vi a visita à casa de uma evangélica da Igreja Universal do Reino de Deus na qual a conversa se desenrolou tranqüila, sem qualquer debate teológico. Os missionários fizeram um levantamento para um senso que a paróquia estava realizando, conversaram com a dona da casa, e no final rezaram todos um Pai-Nosso -- oração comum às duas denominações religiosas -- juntos. Foi bonito.
Entendi que a intenção dos missionários não é pregar a Palavra de Deus, mas testemunhá-la por uma palavra, um olhar, um sorriso, um gesto. Eles batem à porta das casas de estranhos para, primeiramente, mostrar que há alguém que se importa com eles e que está disposto a ouvi-los. Se são recebidos, paulatinamente (e de modo inconsciente, na verdade) revelam para o anfitrião que há um Deus que cuida dele e que o ama, e que está louco para se achegar mais -- tanto que enviou emissários especialmente para proporcionar esse encontro.
Como eu disse, muitas vezes (ou quase sempre) as visitas se tornam experiências muito intensas de troca de experiências de vida. Uma, particularmente, me tocou: um casal que, embora fosse louco por crianças, descobriu-se infértil e ainda assim agradecia a Deus por esse infortúnio. Percebi na hora que o que para uns pode parecer a manifestação de uma resignação covarde, era na verdade uma vontade de ler e tirar o melhor da vontade de Deus posta diante deles. Os dois resolveram adotar uma criança, e dedicar a ela e às demais crianças de sua comunidade todas tão largadas pelas ruas do lugar, o amor que têm para compartilhar. Pareciam resignados, mas bem felizes.
Acabou que, no final, eu fui me soltando e dando alguns pitacos nas casas que visitei, pouco a pouco deixando a minha verve missionária (será que eu tenho mesmo alguma?) manifestar-se. Voltei para casa no domingo cogitando entrar no esquema da próxima Semana Santa, só para ver como é de perto.
Deus às vezes me surpreende na paciência que tem comigo.
Escrito
por Rindu às 11:03
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