COME UN PAZZO A GRIDAR
Em julho de 2000 eu levei uma delegação de quatro crianças de Brasília para um dos villages do CISV, nos Estados Unidos. Fui para Biloxi, uma das cidades do Estado do Mississippi que fica bem no Golfo do México, e que foi completamente devastada pelo Katrina em 2006. Não sei como as coisas ficarm lá depois do furacão, mas na época Biloxi era conhecida por ter a maior praia artificial do mundo -- areia do Rio Mississippi que aterrou parte do mangue do delta, o que também causou um dos maiores acidentes ecológicos do planeta -- e pelos seus cassinos.
Aliás, os cassinos de Biloxi eram algo muito estranho. A legislação do Estado do Mississippi proíbe expressamente que haja jogo em seu território, mas de certa forma se omite a respeito de suas águas. Assim, embora em Biloxi houvesse dezenas de cassinos, não havia nem uma única máquina de caça-níqueis em terra firme. Todos os cassinos eram construídos sobre barcaças gigantescas, que ficavam permanentemente atracadas ao longo do litoral.
Ninguém nota isso ao passar pela rodovia ao longo da costa, porque os cassinos são edifícios absolutamente normais, altos e luxuosos. Mas me disseram que quando há uma tempestade mais forte, ou um furacão (o que é comum naquela região), as barcaças são rebocadas para dentro do Rio Mississippi para sua melhor segurança. Deve ser interessante ver arranha-céus flutuando no meio do Rio.
Pois bem: em 2000 eu ouvia falar do Cirque Du Soleil só por causa dos flashes que passavam no meio do "Fantástico". Só que bem por alto, porque aqueles eram tempos de Cid Moreira todo fanfarrão perguntar ao mágico Mr. M se ele era espada ou não em rede nacional, e por isso eu preferia passar as minhas noites de domingo fazendo algo melhor. Então foi com uma certa indiferença que eu ouvi os organizadores do village nos contarem que tínhamos sido convidados por um dos cassinos a ir com as crianças assistir "Alegria", que era o espetáculo da temporada em sua casa de espetáculos.
Acho que essa indiferença inicial foi o tempero que fez o maravilhamento que se seguiu ser ainda mais intenso. Foi de longe o melhor espetáculo que eu vi na vida, seja de música, seja de circo, seja de teatro. As crooners cantando "Vai Vedrai", "Querer", "Irna" e "Alegria" enquanto um festival de cores, formas e absurdos se desenrolava diante dos meus olhos foi algo que marcou meu cérebro para sempre. E o melhor foi ter ao meu lado na platéia crianças de 12 países diferentes, e ver o quanto cada uma delas teve uma percepção completamente diferente da apresentação. Isso, para mim, é o que define arte.
Ontem à noite fui assistir ao "Alegria" novamente. E como há sete anos atrás, novamente me emocionei: em vários momentos fui tão envolvido pela música que lágrimas me vieram aos olhos. Tudo tão perfeito, tudo tão belo, tudo tão inocente. O riso solto corria pela platéia, toda tornada criança novamente. Um momento tão mágico. A qualidade do som na tenda de circo não era tão boa quanto a do cassino, mas isso era algo facilmente relevável. Foi uma noite perfeita.
A minha foto nova no Orkut mostra isso. 
Escrito
por Rindu às 16:07
[
]
[
envie esta mensagem ]
|