"I remember when i first moved here, a long time ago ´Cause I heard some song I used to hear back then, a lone time ago. I remember when, even further back, in another town, ´Cause I saw something written I used to say back then, hard to comprehend.
"And the question is, was I more alive then than I am now? I happily have to disagree; I laugh more often now, I cry more often now...
CARA, TEM COISAS QUE EU NÃO CONSIGO DEIXAR DE ODIAR
Sair na noite underground de Brasília é um prato cheio para qualquer antropólogo urbano. É impressionante a variação dos matizes de gente que pulula pelo Landscape, Espaço Galeria, Mansão Ferrugem ou porões do Teatro Dulcina. Eu, que me entendo tão convencional, previsível e quadrado, me divirto ao me expor à convivência com gente tão diversificada. Me dá uma sensação gostosa de comopolitismo, além de ser um grande repertório para referências de estilos. Isso sem falar no incrível exercício de tolerância que essa convivência proporciona.
Ontem eu resolvi matar as saudades de sair com um amigo que eu não via há muito, e topei ir dar com os cornos no Projeto Quinto, no Espaço Galeria. Festa estranha, com gente esquisita -- é impressionante perceber o quanto o público muda de festa para festa, embora sejam todas mais ou menos do mesmo naipe. O pessoal das Ferrugens não é o mesmo que o da Sbornia, que não é o mesmo do Quinto, que não é o mesmo das festas do Fernando Cunha. Como curingas nessas festas todas, só eu (que nem saio tanto assim), o Willy e uns outros obstinados.
Ontem eu acho que me deparei ali com o underground do underground. E olha que eu já vi muita coisa nessa minha vida. Digo isso porque pela primeira vez eu vi certas coisas que eu nunca tinha visto nas outras festas, tipo uma patricinha-modelete batendo uma carreira de cocaína em cima de uma mesa suja, na maior cara-de-pau.
A desgraçada tirou sua trouxinha da bolsa, espalhou na mesa (eu sempre achei que usassem espelhos, pratos ou bandejas para isso), fez a carreira com um cartão de crédito e em seguida cheirou tudo com uma nota de dois reais (!) enrolada. Cheirou e depois olhou em volta com a cara de "olha como eu sou foda". Cara, juro que tive ganas de cobrir aquela cara empoada de sopapos.
EU ODEIO DROGADOS. EU ODEIO VICIADOS. EU ODEIO MACONHEIROS. EU ODEIO GENTE QUE ACHA A COISA MAIS NORMAL DO MUNDO CHEIRAR COCAÍNA.
EU ODEIO GENTE QUE USA ECSTASY COMO SE FOSSE UM DIREITO SEU, E QUE SE ACHA SUPER DESCOLADO POR CAUSA DISSO.
EU ODEIO GENTE QUE ACHA QUE SE USAM DROGAS É PROBLEMA DELES E DE MAIS NINGUÉM.
EU DESEJO ARDENTEMENTE QUE ESSAS PESSOAS TODAS, SEM EXCEÇÃO, MORRAM COMO MERECEM: OVERDOSADOS, LARGADOS ESPUMANDO PELA BOCA NUMA SARJETA QUALQUER, OU COM UM TIRO DE .12 NO MEIO DA CARA.
Caralho, fico pensando em quanta gente morreu, ou teve a vida arruinada, para a putinha rampeira desclassificada que eu vi ontem pudesse ter um lampejo de entusiasmo, ainda que artificial, na sua vidinha vazia e insignificante. Meu, vocês não têm nem mesmo a mínima noção do tanto que eu quis pegar aquela piranha pelo cabelo -- ela e a sua entourage drogadita e patética que lhe aplaudia a imbecilidade -- e fazer-lhe cheirar aquele pó espalhado pelo chapisco na parede ali do lado. Cara, que vontade de dar-lhe voz de prisão, se pudesse. Que vontade de humilhá-la perante a família e a sociedade para arrancar-lhe da cara tamanha empáfia e orgulho por ser o que há de mais desprezível neste mundo: egocêntrica, vulgar, desclassificada e, sobretudo, burra.
Mas, na hora mesmo, não havia nada que eu pudesse fazer. Numa perspectiva micro, como aquela, limitada àquela ocasião, aquilo era mesmo um problema dela que não me dizia respeito.
Então dei-lhe as costas, voltei a dançar, e rezei muito por ela no meio das batidas eletrônicas.
Hoje de manhã passou por mim no trânsito um Vectra preto, a toda velocidade, vidros escurecidos. Lá dentro, o vulto do que entendi ser um homem de certa idade no banco de trás, e na frente uma moça de tailleur, sorridente. Atrás desse carro, bem colado nele, um Ômega verde com todas as janelas abertas. Dentro, homens fortes, de terno e gravata, visivelmente tensos e armados. Armados e a postos: deu para ver pela janela o cabo de um fuzil, que estaria com a mira apoiada no chão entre as pernas do passageiro da frente. Atrás desses carros, vinham ainda outros, acompanhando a velocidade do primeiro. Todos com faróis estroboscópicos ligados.
Observei que esses outros carros não deixavam que o Vectra ficasse próximo de outros motoristas. O Ômega vinha sempre atrás, meio carro para fora da faixa, seguido pelos demais que tentavam fazer como que um círculo em torno do carro de vidros escuros. Nenhum dos carros tinha chapa azul, ou branca, ou bandeiras de qualquer país. Não havia os batedores que costumam escoltar os chefes de Estado em visita ao Brasil. Foram embora e me deixaram na dúvida.
Alguém sabe se há algum figurão muito ameaçado andando por aí?
Já é legendária a minha habilidade para meter os pés pelas mãos e me dar mal. Pareço ter uma inclinação toda especial por situações em que eu, mesmo estando em franca rota de colisão com um muro, engato uma terceira e piso no acelerador.
E o pior é que em várias ocasiões eu consegui perceber isso, até que bem a tempo de evitar muitos cataclismas desnecessários por que passei. Mas mesmo assim não consegui evitar a trombada. Aliás, eu não sei dizer direito se não consegui ou se, no fundo, não quis. Afinal, muitas vezes essas histórias envolveram até mesmo viagens interestaduais, tipo de coisa que não se faz só na base do impulso. Ou não, sei lá.
De certa maneira, acho que passo por essas coisas porque, na verdade, de alguma forma eu preciso dessas experiências. Noites chorando até dormir, o choro mudo em salas de embarque, passar meses curando feridas me tornaram mais humano, me fizeram conhecer-me mais profundamente. E, sobretudo, fizeram-me mais forte também.
OK, posso até embarcar noutra historinha um dia desses. Outra busca pelo que pode vir a ser uma rica mina de ouro, ou a minha sepultura -- só vou saber quando chegar no fundo. Mas, dessa vez, protejo o meu coração aventureiro com uma carapaça de racionalidade.
Estou beirando os meus trinta e dois anos de idade, mas a adolescência não sai de mim. Como se já não bastasse a minha cara de moleque (de que me salvo só graças às minhas mechas já grisalhas), vez por outra eu retrocedo aos quatorze anos e tenho surtos de acne. Meu, surtos de acne aos 32 é inaceitável.
Domingo eu fui a um festival de tortas e, quando dei por mim, havia uma câmera digital na minha mão. Como perguntar se eu gosto de fotografar é o mesmo que perguntar a um macaco se ele gosta de bananas, meu dedo logo começou a coçar. Brinquei com cores e texturas, luzes e efeitos, e de fato algumas fotos ficaram bem legais. Principalmente algumas que eu tirei num ângulo diferente, meio de baixo para cima. Fiz uns retratos legais e resolvi experimentar comigo mesmo um pouquinho (afinal eu também tenho um perfil no Orkut) -- foi aí que eu constatei a tragédia.
O ângulo bom, a luz boa, o sorriso legal, o cabelo mais ou menos. Mas a pele... céus, o que era aquilo? Uma foto praticamente perfeita foi arruinada por conta de um vulcão que apareceu bem em cima do meu osso zigomático, entre o olho esquerdo e a orelha. Outra, de baixo para cima, captou todas as minhas imperfeições por conta da barba que já apontava, além de uma e outra espinhazinha que deu o seu ar da graça no meu pescoço. Tive vontade de sair correndo e me atirar no Lago Paranoá, ali pertinho.
O pior é que, com as configurações da máquina alteradas justamente para contrastar cores e estourar a luz, tudo o que era mancha, pinta, pêlo encravado, cravo, impingem, pano branco, micose, frieira e impetigo ficou evidenciado à quinta potência. Um verdadeiro massacre estético.
E o meu cabelo? Essa coisa "Playmobil meets Cotonetes Johnson" que está acima da minha testa esses dias merece um post à parte.
Pois então: o feriadão veio e foi-se, e eu o passei num retiro de silêncio. Graças a Deus ele foi organizado por mexicanos, de modo que a célebre hora da siesta foi muitíssimo bem-vinda e eu não saí de lá com o sono atrasado. E no fim das contas, essa oportunidade de ficar calado, rezando, lendo e pensando na vida, com o tempo tempestuoso típico de um Dia de Finados em Brasília, foi muito boa.
Isso tudo posto de lado, o que me chamou a atenção mesmo foi a história da casa que nos abrigou nesse retiro. Eu já tinha ouvido falar dela antes, mas foi diferente conhecê-la de perto e ouvir os relatos de quem sabe ainda mais do que já haviam me contado.
Imaginem uma casa magnífica, bem projetada e construída. Cinco suítes enormes, chão e o teto da sala cobertos de ipê da melhor qualidade, um acabamento primoroso: louças, metais, mármores de primeira, portas maciças, iluminação dicróica. Isso tudo num terreno de 40 mil metros quadrados, todo planejado. O jardim é um espetáculo à parte: uma pérgula, espelhos d'água, iluminação aterrada, uma piscina enorme, os caminhos pavimentados com tijolos. Um campo de futebol e uma churrasqueira respeitável, ampla, com dois vestiários, compõem o pacote.
Agora, a história: ali vivia bem feliz uma família até meados da década de 80. Acho que bem feliz mesmo, porque deu para perceber que a casa foi feita para receber amigos: a sala avarandada, a casa térrea, o campo de futebol, os vestiários, a grande churrasqueira mostram que muita gente freqüentava aquele lugar.
Isso até que um dia alguma coisa muito séria aconteceu.
Alguns dizem que foi a morte prematura do pai num desastre de automóvel, mas não há certeza. O assunto parece ser meio tabu. A verdade é que essa família um dia resolveu sair daquela casa levando consigo apenas as suas roupas. Largaram para trás absolutamente tudo: móveis, eletrodomésticos, panelas, cristais, louças, prataria, obras de arte, até brinquedos. Tudo. Tudo mesmo.
Recentemente, quase 20 anos depois, a casa foi emprestada para ser usada para os retiros. As primeiras pessoas que entraram ali contam que encontraram os brinquedos das crianças jogados pelo chão dos quartos como se há pouco estivessem sendo usados. Ainda havia louça lavada para ser guardada, na pia da cozinha.
Nas portas da varanda dos quartos das crianças, vi adesivos de lojas da década de 80 que nem existem mais. Coisas tipo Phillippe Martin, Fiorucci, O.P., Company, Destak (uma loja de skates no Parkshopping, que tinha uns adesivos degradê que fizeram sucesso). Até o adesivo da inauguração da já extinta Rádio Manchete 97,7 FM estava lá.
Parecia que o tempo tinha parado ali. Foi muito estranho.
De resto, nesses quase 20 anos fechada, a casa se deteriorou bastante. A parte elétrica ainda funciona, mas a parte hidráulica entrou em colapso. O piso está danificado em vários lugares, e os decks de madeira, que praticamente circundam a casa, estão todos podres, a ponto de desabar. A piscina está quase vazia, e a água que ainda está lá dentro está tão verde e turva que não se pode ver o fundo.
Fiquei pensando que ruptura possa ser tão forte a ponto de fazer alguém decidir-se por abandonar algo tão significativo como aquela casa, assim tão radicalmente, da noite para o dia. Deve ter sido algo que atirou aquelas pessoas numa necessidade vital, repentina, por uma vida nova. A casa nova e móveis novos só serviriam de cenário para o recomeço.
Assim tão bela e tão abandonada, aquela casa parecia ser testemunha de uma história muito triste. Aquelas paredes devem estar impregnada de muito sofrimento.