TUDO PASSA
Quando eu tinha lá meus 19, 20 anos, tinha um amigo muito estranho. Bem, amigo mesmo eu acho que nunca chegamos a ser, mas ele era amigo de amigos meus, e por isso a gente convivia com uma certa freqüência até porque ele também fazia parte do mesmo movimento na Igreja que eu.
Do alto do conservadorismo que marcou a minha adolescência e juventude, eu o achava um cara perdido na vida. Mal-e-mal tinha terminado o ensino médio, preferiu arranjar um emprego do que entrar numa faculdade. E dizia que se daria melhor assim do que o resto de nós, universitários em cursos renomados sustentados pelos pais. Fez tatuagens quando isso ainda era coisa de gente desajustada, e nunca se constrangeu para contar as bandalheiras que armava nas noitadas com mulherada de moral questionável.
Um dia eu o ouvi dizer que cometeria suicídio ao completar 30 anos, porque não queria envelhecer. Eu fiquei chocado com aquilo, mas não quis dar muita vazão ao assunto. Ele não era assim um cara que eu consideraria "ilustrado", e certamente qualquer argumentação sobre um assunto tão subjetivo descambaria para algum bate-boca eivado por todo tipo de ignorâncias. Aliás, as nossas poucas conversas sempre foram marcadas por um "é... tem razão" da minha parte.
O tempo passou, caminhamos por trilhas diferentes, e nos afastamos muito. Ele passou a ser aquela pessoa que eu via de longe, de relance, do qual eu sabia de notícias esporadicamente e sempre pelos outros. Foi assim que soube que ele tinha finalmente entrado no curso de Direito, e que estava adorando. Que tinha conhecido uma garota legal, e que iria se casar. Essas notícias me alegravam, porque eu via que não só ele tinha largado aquela idéia esdrúxula de se matar aos 30, como também aparentemente tinha encontrado um eixo e agora estava vivendo de maneira mais construtiva.
Há três meses ele se casou com uma moça que eu tive a oportunidade de conhecer, quando ele ma apresentou nalgum dos nossos encontros fortuitos. Eu, que tenho uma memória horrível, não lembro da sua cara ou do seu nome, mas lembro que ela me deixou uma impressão muito boa. Ouvi contar sobre a festa de casamento, e fiquei feliz.
Domingo passado eu o vi na missa. Eu estava sentado quando ele passou por mim, e não pude deixar de notar a aliança de casamento e o anel de rubi de bacharel de direito brilhando na sua mão esquerda. Geralmente eu acho muito brega usar anel de formatura, mas no caso dele eu compreendi que aquilo era o símbolo de uma grande vitória, um troféu de alguém que lutou muito para conseguir o que tinha. Ali, calado mesmo, fiquei feliz por ele, mais uma vez.
Ontem fiquei sabendo que a esposa dele costumava ter dores de cabeça freqüentes, que ela sempre tratou como se fossem enxaquecas corriqueiras, como algumas mulheres costumam ter. Entretanto, durante a lua-de-mel na Disney, as montanhas-russas a incomodaram tanto que ela finalmente resolveu ir a um médico para tratar disso. Radiografias mostraram uma mancha bem grande no cérebro, que já começava a comprometer a região da visão. Era coisa para operar, e operar logo.
Fizeram a cirurgia na quinta-feira passada. O prognóstico de recuperação acabou não sendo muito bom, porque o tumor estava muito grande e espalhado. Seqüelas eram dadas como certas. Então houve algumas complicações sérias no pós-operatório, e ontem constataram a morte cerebral.
Hoje os dois completam três meses de casados.
Fiquei muito triste com isso tudo. Não via esse rapaz havia muito tempo, mas secretamente torcia pela sua felicidade. Quando soube de um revés tão grande, me perguntei de onde esse cara tiraria as forças para se reagrupar de novo e não se perder pelo caminho.
São acontecimentos assim que nos dão a certeza do quão frágeis e fugazes nós somos. Um dia estamos aqui, cheios de vida e de planos, e no dia seguinte sequer existimos mais. É tudo uma questão de instantes, sem aviso prévio, sem justificativa antecipada. Quando chega a sua hora, chegou. E ponto final.
De nada adianta dinheiro, poder, beleza, juventude. Admiração pública, então, só garante um velório cheio, e olha lá. Arrogância, orgulho, a ilusão de se achar melhor do que o resto dos viventes... para quê isso, se vamos todos ter o mesmo fim, indistintamente? O sol nasce para todos, e a vida também se encerra para todos nós. A morte é o grande valão que reduz absolutamente todos ao que somos: meras criaturas de vida curta e existência insignificante.
E é nessa hora que chegamos mais perto da percepção da existência de Deus. O homem, por mais que tente acreditar-se o contrário, é mortal e passageiro; só Deus é eterno. E tudo, absolutamente tudo, está nas mãos d'Ele -- daí para que preocupar-se à toa com coisas que não dependem da nossa vontade ou capacidade para acontecerem ou não?
Não sei bem como terminar este post, que já se vai longo. Fui pensando e escrevendo, sem me preocupar muito com a coesão das minhas idéias. Talvez só quisesse dizer para mim mesmo que tudo Deus provê, e que eu posso confiar nisso com tranqüilidade.
Talvez essa seja a única certeza que valha a pena se ter nesta vida.
Escrito
por Rindu às 12:23
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