RASTRO-DE-ONÇA
Ontem Dom Cappio, Bispo de Barra, resolveu encerrar a sua greve de fome que já durava 23 dias e que rendeu-lhe um pulinho na U.T.I. recentemente. O resultado do seu protesto foram mesmo só alguns quilos perdidos e uma fome desgraçada, porque as obras das transposição do Rio São Francisco seguem em frente, inexoráveis.
Ou seja, foi tudo em vão.
Eu não tenho opinião formada em relação a essa obra. Acredito mesmo que o impacto ambiental será mesmo muito grande, mas por outro lado é bem apelativo o argumento de que ela encerrará de uma ver por todas a histórica e famigerada indústria da seca no Nordeste. Desse modo, eu era indiferente ao protesto do Bispo, embora o achasse legítimo. Não o apoiei nem o critiquei, mas fiquei atento esperando o resultado disso tudo. Afinal, poderia sair daí um fato histórico: as políticas de Lula gerarem um mártir, ou o Estado dobrar-se a um protesto pacífico.
E aí que não aconteceu nem uma coisa, nem outra. Sem mais nem menos, o Bispo resolveu largar tudo de mão e fazer as coisas voltarem a ser como eram antes no Quartel de Abrantes. Dom Cappio seguirá vivo e robusto, enquanto Lula toca em frente a obra que certamente assinalará o seu governo nas páginas da História -- para o bem ou para o mal.
Entendam, não é que eu queria ver uma tragédia acontecer. Só acho que quem toma uma decisão séria como essa de fazer uma greve de fome, tem que estar convicto e disposto a levá-la até o fim, até as últimas conseqüências. Mesmo que isso implique chegar ao ponto de imolar-se pela causa.
Se acha que na hora do vamos-ver não vai dar conta, que vai pedir arrego, então para quê começar? Para quê chamar tanta atenção para si? Se não agüenta, por que veio?
Uma vez iniciado, a decisão de abandonar um protesto desse tipo exige satisfações muito bem fundamentadas dos seus motivos. Isso porque uma greve de fome comove muita gente, mobiliza multidões, desperta consciências, suscita solidariedade... e isso tudo torna o grevista devedor de algum resultado desse seu sacrifício.
Com Dom Cappio não foi diferente. Ele despertou debates, protestos, greve de fomes solidárias de norte a sul do país. Letícia Sabatella pagou o mico de discursar em cima de uma cadeira em plena Praça dos Três Poderes, e depois chorou em público quando o STF levantou a liminar que paralisara as obras. O Palácio do Planalto e a CNBB estavam tensos e mobilizados por conta do protesto, e multidões acorriam a Sobradinho, onde o Bispo havia se retirado, enquanto a imprensa narrava tudo o que acontecia ali com cores vivas. O Brasil inteiro, solidário, já se lamentava pelo sacrifício de mais um mártir político.
Tudo isso para quê? Para nada.
Hoje as obras seguem, enquanto o Bispo voltou a se alimentar normalmente. Letícia Sabatella que enxugue suas lágrimas, as multidões que se dispersem, e o Rio São Francisco e seus ribeirinhos, tão ameaçados conforme o credo de Dom Cappio, que se danem. E que Lula siga feliz, de mãos limpas.
Essa história ficou parecendo a daquela mulher que é maltratada pelo marido e vive se queixando disso para os parentes e amigos. Leva porrada, é posta para fora de casa, é traída pública e notoriamente, é humilhada na frente dos filhos. E aí de vez em quando se revolta, quebra uns pratos, grita que vai embora, que vai pedir o divórcio e viver de pensão alimentícia, arranjar alguém mais digno e refazer a vida.
Ameaça, ronca e fuça, volta para a casa dos pais com armas e bagagens... só para daí uns dias voltar toda sem-vergonha para a convívio do seu marido-algoz. E que se foda quem perdeu tempo indignando-se ao ouvir a sua cantilena de lamúrias e ameaças.
Ou seja: Dom Cappio é mulher-de-malandro, nos termos da minha falecida avó. Até que a sua primeira greve de fome foi interrompida justificadamente, por causa da trégua pedida pelo Governo Federal; no entanto a segunda aparentemente acabou-se mesmo por covardia ou histrionismo do Bispo, já que o Executivo manteve pulso firme e determinado o tempo todo, e não hesitou um instante sequer.
E agora o religioso não tem mais moral para querer se fazer ouvir de novo. Como na fábula do pastor que divertia-se dando falsos alarmes contra ataques de lobos, a influência política do Bispo de Barra acabou devorada por uma alcatéia.
Uma greve de fome de Gandhi fez parar uma guerra entre muçulmanos e hindus na Índia recém-independente. E isso só aconteceu porque ele chegou ao ponto de realmente quase morrer, forçando os líderes da época admitirem que aquele protesto e aquela obstinação certamente se transformariam em uma mancha em suas mãos. Ninguém quer carregar consigo a culpa pela morte de um quase-santo, e assim a paz foi feita.
Mas homens como Gandhi, que morrem por suas convicções, não existem mais. Pelo menos não no Brasil.
Escrito
por Rindu às 11:50
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