"I remember when i first moved here, a long time ago ´Cause I heard some song I used to hear back then, a lone time ago. I remember when, even further back, in another town, ´Cause I saw something written I used to say back then, hard to comprehend.
"And the question is, was I more alive then than I am now? I happily have to disagree; I laugh more often now, I cry more often now...
Brasilienses são famosos por uma estranha capacidade que lhes é bem peculiar: olham na cara de uma pessoa conhecida, mesmo a uma distância curtíssima, e ainda assim não a cumprimentam. Antes, fazem uma cara de "não te vi" (com variações de "te conheço?!" ou ainda "sai da minha frente"), reviram os olhinhos e pousam suas vistas nalgum outro ponto alguns centímetros ao lado ou além do desprezado em questão. O detalhe é que esse comportamento independe da ocorrência de qualquer abalo nas relações entre as pessoas.
E o pior acontece quando o carão é desconsiderado, e a abordagem ocorre ainda assim. Num esforço hercúleo de contenção de danos sociais, as feições imediatamente mudam-se para um "oh!" (que vem a ser uma coisa parecida com o instantâneo de um pula-pirata), e cumprimentam cheios de culpa e vergonha, apontando uma miopia fictícia pela tosquice manifesta.
É claro que os forasteiros interpretam isso puramente como falta de educação, jequice e provincianismo -- e acho que estão com toda a razão. Mas eu, como brasiliense que sou (e incluindo-me no grupo dos que fazem esse tipo de coisa), vejo isso tudo um pouquinho mais além. Acho que esse comportamento tem raízes no forte individualismo que é característica predominante em Brasília, e é também alimentado de alguma maneira pelo culto insano à imagem e ascensão social que -- isso sim -- é praga por aqui, vício de cidade muito jovem e desprovida de referenciais de tradição.
Seja como for, isso passou a ser um problema para mim, porque de repente eu me vi jogado num abismo de paradoxalidade: agia com maestria na arte de ser seboso e ignorante, ao mesmo tempo que fora daqui eu descia o pau inclementemente nesse mesmo hábito. Fato é que eu me sentia ridículo por agir como um típico brasiliense ao me deparar pasmo com a cordialidade de portoalegrenses, belorizontinos, cariocas e até paulistanos. OK, dizem que Curitiba é como Brasília (se não pior), mas eu nunca fui a Curitiba e não posso afirmar nada a esse respeito.
Daí eu resolvi parar com essa palhaçada, e fiz o propósito para 2008 de me civilizar de uma vez por todas. Então agora, se eu conheço a pessoa, ainda que só de vista, faço questão de procurar o olhar dela para cumprimentá-la, mesmo que à distância, com um sorriso cortês. É o mínimo que a boa educação manda que eu faça. E se não consigo cruzar meu olhar com o da pessoa -- deliberada ou inocentemente, não importa -- não estou disposto a me deixar intimidar. Vou até ela, recebo o "oh!" regulamentar que eu descrevi acima, e a cumprimento com um aperto de mão forte, um sorriso na cara e olho-no-olho.
Pode ser que eu seja olimpicamente ignorado assim mesmo, e esse é um risco bem real que eu corro se pensarmos que eu moro em Brasília. Mas aí, pensando bem, eu até posso pagar mico numa situação dessas, mas por outro lado quem sai dessa história com atestado de grosso é a cavalgadura em questão. Dos dois, provavelmente serei eu o que colocará a cabeça no travesseiro de noite e dormirá melhor.
Esse começo de ano está como todos os começos de ano costumam ser. Ou seja, modorrentos. Se não é o povo daqui do Escritório que está de férias, é o povo para quem prestamos serviços, o que dá na mesma: tudo está num ritmo bem lento, poucos e-mails a cada dia, tudo muito mais preguiçoso. Tudo esperando pelo Carnaval, que é quando o ano de fato começa.
Minha chefe está de férias, o chefe dela vai viajar nos próximos dias, e eu me pergunto todas as manhãs o que diabo eu estou indo fazer no Escritório assim tão cedo. Mas é a vida, não é mesmo? O que eu tenho que fazer é programar o meu verão da melhor maneira possível, de preferência dando um pulo no mar nalguma ocasião depois do Carnaval, que é quando o mundo volta para sua órbita usual e as multidões se dispersam.
Acabei de terminar de ler "Minhas Queridas", que é a compilação das cartas escritas por Clarice Lispector às suas irmãs durante o período em que ela esteve acompanhando o marido diplomata no exterior. Adorei o livro. É impressionante como ler cartas te proporciona uma noção da alma do autor que nenhum outro texto, poesia ou romance, pode mostrar. Quando dei por mim, estava imaginando em minúcias como era a casa de Clarice em Berna, ou em Washington, e acompanhando com interesse a infância dos dois filhos dela -- coisas que se passaram há mais de cinqüenta anos.
Isso sem contar a vontade que esse livro me deu de escrever cartas. Adoro escrever cartas, recebê-las, e respondê-las. E para mim não há MSN ou e-mail que substitua uma boa carta manuscrita, onde o ataque da caneta às linhas, o cheiro do papel, tudo ajuda a compor como que uma música de fundo de sentimentos inconfessos e pensamentos indefiníveis, que faz a mensagem ser transmitida de uma forma muito mais clara, mais pessoal e muito mais rica. Receber, por exemplo, uma carta contendo notícias tristes, e perceber nela a tinta borrada pelas lágrimas de quem escreveu, não tem equivalente nesse mundo.
Esse meu gosto -- preferência, até -- por cartas tradicionais não tem encontrado muita correspondência (perceberam o trocadilho?) atualmente. Daí que há meses que eu não sei o que é pegar papel, caneta, inspiração e derramar a minha vida em tamanho A4.
Mas estou sempre de prontidão, porque nunca se sabe.
"I mean, I always feel like a freak because I'm never able to move on like... this! You know. People just have an affaire, or even... entire relationships... They break up and they forget! They move on like they would have changed a brand of Cereals! I feel I was never able to forget anyone I've been with. Because each person have... you know, specific qualities. You can never replace anyone. What is lost is lost. Each relationship, when it ends, really damages me. I haven't fully recovered. That's why I'm very careful with getting involved, because... It hurts too much! Even getting laid! I actually don't do that... I will miss of the person the most mundane things. Like I'm obsessed with little things. Maybe I'm crazy, but... When I was a little girl, my mom told me that I was always late to school. One day she followed me to see why... I was looking at chestnuts falling from the trees, rolling on the sidewalk, or... ants, crossing the road... the way a leaf casts a shadow on a tree trunk... Little things. I think it's the same with people. I see in them in little details, so specific to each other, that move me, and that I miss, and... will always miss. You can never replace anyone, because everyone is made of such beautiful specific details. Like I remember the way... your beard has a little bit of red in it. And how the sun was making it glow that... that morning, right before you left. I remember that, and... I missed it! I'm really crazy, right?"