MÓR-REU!
Há algumas semanas eu comecei a receber ligações a cobrar dalgum orelhão da periferia de Brasília. Como no começo eu não sabia do que se tratava, deixava a ligação se completar para então ouvir a voz de uma criança querendo falar com uma tal Adriana. Eu dizia que havia sido engano, mas em vão: daí algumas horas, ou alguns dias, lá estavam as ligações de novo.
Por um tempo eu continuei a avisar que o número que haviam discado não pertencia a Adriana nenhuma, e depois passei a sequer atender quando o número -- já conhecido -- aparecia no meu celular. Mas aí foi pior, porque a insistência aumentou deveras.
Na semana passada eu perdi a paciência. Quando tocou o telefone e eu vi que era o pessoalzinho de sempre, eu atendi e deixei completar a ligação. Perguntaram da Adriana e eu, fazendo uma voz séria e compungida, comuniquei que a Adriana havia morrido naquela noite. Passou muito mal, foi para o hospital, mas não teve jeito: o coração dela PAROU. E que alguém tinha que ir lá liberar o corpo.
A criança ouviu essa notícia e desligou. Em seguida ligou uma criança um pouco mais velha para ouvir a mesma história. E, por fim, ligou uma mulher para ter certeza de que Adriana tinha mesmo cantado para subir. E eu firme na voz triste e grave. Nunca mais ligaram.
Que Deus tenha Adriana em bom lugar.
Escrito
por Rindu às 12:47
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