DA CAIXA DE PAPELÃO
Aconteceu no fim da manhã de terça-feira. Quando eu voltei para o trabalho, depois do almoço, me chamaram para ir ver: num caixote no chão, encolhido de medo da curiosidade que causava, estava um gavião. A asa quebrara-lhe, diziam, e fora recolhido dali perto por um dos funcionários do Escritório. Então, além do pavor, o pobrezinho devia estar sentindo também muita dor.
Agachei-me perto da caixa para poder ver melhor, e o meu olhar se cruzou com os olhos penetrantemente amarelos do bicho. E eu vi tristeza neles. É claro, vi dor e terror, mas também, e sobretudo, muita tristeza.
Encolhido sob uma das abas da caixa, com todo aquele papelão à sua volta, o gavião trazia no olhar um desespero resignado ao dali ver o céu de onde viera e, provavelmente supunha, nunca mais voltaria. Para um predador como ele, aquele aprisionamento devia doer-lhe mais do que a própria asa fraturada. Ter a sua natureza livre tão dramaticamente cerceada pesava-lhe como uma morte em vida.
Um gavião numa caixa. Morte em vida.
A minha identificação foi instantânea, e inevitável.
Soube que o Ibama viria buscar o coitado, e secretamente torci para que ele se recuperasse e voltasse para casa. Da minha parte, respirei fundo, resignado, e voltei para a minha caixa de papelão, tentando abstrair da dor pelas minhas asas quebradas.
Escrito
por Rindu às 17:33
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