A VIDA, O MUNDO E ARREPENDIMENTOS
OK, hoje é quinta-feira e, para mim, não há mau-humor que resista a uma quinta-feira. Daqui para frente é só festa -- pelo menos até domingo, né?
Então, ontem tive mais uma das minhas sessões de terapia com o Dr. Jason, que há duas semanas voltou das férias. Faz tempo que eu não falo da minha terapia aqui, mas isso não quer dizer que eu a abandonei ou que ela tenha se tornado menos importante. Eu estou curado da depressão, graças a Deus, mas estou sempre empenhado na batalha para que nunca mais eu volte para o atoleiro de onde levei uns bons três anos para conseguir sair. E, nessa luta, já se vão seis anos de terapia... cara, seis anos! A criança que nasceu no meu primeiro dia de terapia hoje já sabe ler! Impressionante como o tempo passa.
Aliás, se fomos ver bem, eu e o Dr. Jason nos conhecemos há bem mais tempo. Eu fui parar no consultório dele pela primeira vez aos 12 anos (vinte anos atrás!!!), porque detectaram na minha escola que eu tinha um Q.I. alto demais para a minha idade, e suspeitavam que por isso eu tinha dificuldades para criar vínculos e referenciais com as outras crianças da minha classe. Foi isso e também porque a minha mãe descobriu um vídeo de sacanagem no meio das minhas coisas naquela época (ah, o começo da adolescência, hahahaha).
Passei um ano e meio odiando as sessões nas manhãs de sábado, quando ele me mandava desenhar e depois jogar uns jogos idiotas com ele, nos quais eu sempre perdia. Eu já sacava que esse lance dos jogos era calculado para me ver surtar diante da derrota (a minha falta de espírito esportivo era legendária), e por isso eu me controlava e mantinha a linha nenligo só para frustrá-lo. Acho que foi uma grande escola para tornar-me o blasé que sou hoje.
Por outro lado, eu não sabia do que se tratavam os desenhos, e por isso deixava rolar. E acaba que até hoje esses rabiscos são desencavados de vez em quando, para me mostrar como traços inconscientes da personalidade do adulto de hoje têm raízes lá atrás, quando eu ainda era um fedelho. É estranho me ver desnudado nos desenhos já amarelados de uma criança.
Aos quase quatorze anos o Dr. Jason me dispensou da terapia. Acho que foi mais por causa da minha manifesta má-vontade de estar lá e colaborar com o tratamento do que por obter alta. Aos vinte e um eu voltei, dessa vez por vontade própria: uma decepção amorosa que já prenunciava algumas das questões da depressão que tive. Nessa segunda vez eu fiquei só por um ano, até que meu pai resolveu cortar a grana e acabar com a brincadeira (a minha mesada não dava para pagar o tratamento). E aos 26 eu comecei essa terceira fase, iniciada sob o canhoneio de três colapsos nervosos e uma depressão cerrada. É nessa que já estamos esses seis anos.
A gente já caminhou junto um monte, e eu aprendi bastante sobre mim mesmo. É meio clichê dizer isso, mas também não há como negar: hoje eu sou um cara completamente diferente do que era em 2002 -- e diferente no sentido de melhor, claro. Sou mais maduro, mais tranqüilo, mais consciente, mais em paz comigo mesmo. Não digo que o Dr. Jason foi o causador de tanta transformação -- na verdade ele as assistiu, não protagonizou -- mas certamente ele vem servindo como um catalizador para tudo isso.
Com a depressão superada, não conversamos mais tanto sobre minhas crises; graças a Deus eu já aprendi a contorná-las sozinho há algum tempo. Ultimamente as nossas conversas têm sido mais sobre aspectos conjunturais da minha vida, coisas que de maneira subliminar condicionam o meu agir e pensar. Ontem, por exemplo, a gente conversou sobre arrependimentos, e foi uma conversa bem intrigante.
Eu não me considero uma pessoa escrava de arrependimentos, cheia de remorsos. Não que eu jamais tenha feito uma bobagem (essas na verdade eu conto às centenas), mas também não sou do tipo que fica se autoflagelando pela vida afora por conta de um ou outro mau-passo no passado. Em geral eu levanto, sacudo a poeira, conserto o que dá para consertar, e sigo em frente tentando lidar com o que restou irreparável.
Mas se por um lado eu não tenho muitos remorsos, por outro eu tenho uma lista enorme de coisas que eu gostaria de fazer bem diferente, se pudesse voltar no tempo. A maioria são coisas bobas, tipo me arrepender de ter deixado essa ou aquela pessoa se aproximar de mim, ou de ter tido namoros que, na verdade, não passaram de grandes, enormes, titânicos erros. Sabe aquilo cuja lembrança leva a mão à testa e dizer "meu Deus, onde eu estava com a cabeça?!" -- então, isso.
Aliás, eu me pergunto onde eu estava com a cabeça para ter feito um monte de outras coisas. E essas tiveram conseqüências um pouco mais graves... tipo confiar em falsos amigos que mais tarde se revelam crápulas absolutamente sem caráter, ou se deixar levar para círculos de gente degenerada, que mais tarde você descobre que é indigna até mesmo de um bom-dia da sua parte, que dirá a sua amizade. Dos meus arrependimentos esses são bem mais sentidos do que os descritos no parágrafo anterior, já que vira-e-mexe eu tenho que dar de cara com essa escória pela vida afora.
E, por fim, é claro que eu tenho um GRANDE ARREPENDIMENTO da minha vida. O maior de todos. O pior. O mais irreversível. Aquele errinho insignificante, cometido anos atrás, que tornou-se na maior desgraça de uma vida. Algo que até hoje se faz sentir sempre mais doloroso, angustiante, que reverbera e rimbomba na minha consciência num crescendo que acompanha o passar dos anos.
Conversando com o Dr. Jason, ontem eu consegui identificar os dois grandes equívocos que eu cometi na minha vida, e que hoje constituem as duas mais pesadas cruzes que eu carrego: um foi ter confiado muito numa pessoa baseado num mau julgamento; o outro foi ter deixado que outros fizessem uma escolha crucial por mim. Esses dois erros comprometeram toda minha vida, para sempre, até a minha morte.
Me perguntei qual dos dois seria o pior. Para pensar melhor, imaginei qual eu escolheria se Deus me permitisse desfazer só um desses erros. E foi aí que a resposta veio nítida: eu impediria que fizessem uma escolha por mim -- não permitiria que meu pais me influenciassem a escolher Direito, embora toda a minha vida até então eu tivesse sonhado em fazer Arquitetura. Esse erro, aparentemente tão insignificante, esse "X" que eu marquei num quadradinho errado nalgum formulário, desgraçou por completo toda a evolução da minha vida a partir dali. Quebrou-me as asas, prendeu-me numa caixa, tirou-me do caminho que por direito e obrigação eu deveria seguir.
Com esse erro eu aprendi que não dá para simplesmente se adaptar a vida, condicionando-a aos seus desejos e negando-se a vivê-la tal qual ela é. Aprendi que o seu coração é quem tem o poder de te guiar para a tua felicidade, e não ouvi-lo custa muito caro. Aprendi que todo mundo tem um chamado, uma missão, um envio, e não cumpri-lo é o mesmo que não viver. Aprendi que a vida não nos oferece muitas flechas para acertar o alvo, e que é irresponsável disparar as que se tem à guisa de experimentações. Aprendi que tudo, absolutamente tudo o que você faz na sua vida tem o seu preço, que eventualmente é cobrado... de modo que é importantíssimo estarmos sempre com a nossa contabilidade pessoal em dia.
E aprendi que ninguém mais pode ser responsabilizado pelos seus erros e acertos que não você mesmo.
Quanto ao outro erro... bem, esse pelo menos serviu para que eu amadurecesse muito e visse a vida, mim mesmo, os outros e o resto do mundo com outros olhos. É irônico (e paradoxal, para quem sabe do que se trata), mas é mais fácil viver com esse do que com o outro.
É assim, a vida. Paradoxal e irônica.
Escrito
por Rindu às 12:05
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