"I remember when i first moved here,
a long time ago
´Cause I heard some song
I used to hear back then,
a lone time ago.
I remember when, even further back,
in another town,
´Cause I saw something written
I used to say back then,
hard to comprehend.

"And the question is,
was I more alive
then than I am now?
I happily have to disagree;
I laugh more often now,
I cry more often now...

I am more me".

"Objects Of My Affection"
Peter, Bjorn & John.








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A VIDA, O MUNDO E ARREPENDIMENTOS


OK, hoje é quinta-feira e, para mim, não há mau-humor que resista a uma quinta-feira. Daqui para frente é só festa -- pelo menos até domingo, né?

Então, ontem tive mais uma das minhas sessões de terapia com o Dr. Jason, que há duas semanas voltou das férias. Faz tempo que eu não falo da minha terapia aqui, mas isso não quer dizer que eu a abandonei ou que ela tenha se tornado menos importante. Eu estou curado da depressão, graças a Deus, mas estou sempre empenhado na batalha para que nunca mais eu volte para o atoleiro de onde levei uns bons três anos para conseguir sair. E, nessa luta, já se vão seis anos de terapia... cara, seis anos! A criança que nasceu no meu primeiro dia de terapia hoje já sabe ler! Impressionante como o tempo passa.

Aliás, se fomos ver bem, eu e o Dr. Jason nos conhecemos há bem mais tempo. Eu fui parar no consultório dele pela primeira vez aos 12 anos (vinte anos atrás!!!), porque detectaram na minha escola que eu tinha um Q.I. alto demais para a minha idade, e suspeitavam que por isso eu tinha dificuldades para criar vínculos e referenciais com as outras crianças da minha classe. Foi isso e também porque a minha mãe descobriu um vídeo de sacanagem no meio das minhas coisas naquela época (ah, o começo da adolescência, hahahaha).

Passei um ano e meio odiando as sessões nas manhãs de sábado, quando ele me mandava desenhar e depois jogar uns jogos idiotas com ele, nos quais eu sempre perdia. Eu já sacava que esse lance dos jogos era calculado para me ver surtar diante da derrota (a minha falta de espírito esportivo era legendária), e por isso eu me controlava e mantinha a linha nenligo só para frustrá-lo. Acho que foi uma grande escola para tornar-me o blasé que sou hoje.

Por outro lado, eu não sabia do que se tratavam os desenhos, e por isso deixava rolar. E acaba que até hoje esses rabiscos são desencavados de vez em quando, para me mostrar como traços inconscientes da personalidade do adulto de hoje têm raízes lá atrás, quando eu ainda era um fedelho. É estranho me ver desnudado nos desenhos já amarelados de uma criança.

Aos quase quatorze anos o Dr. Jason me dispensou da terapia. Acho que foi mais por causa da minha manifesta má-vontade de estar lá e colaborar com o tratamento do que por obter alta. Aos vinte e um eu voltei, dessa vez por vontade própria: uma decepção amorosa que já prenunciava algumas das questões da depressão que tive. Nessa segunda vez eu fiquei só por um ano, até que meu pai resolveu cortar a grana e acabar com a brincadeira (a minha mesada não dava para pagar o tratamento). E aos 26 eu comecei essa terceira fase, iniciada sob o canhoneio de três colapsos nervosos e uma depressão cerrada. É nessa que já estamos esses seis anos.

A gente já caminhou junto um monte, e eu aprendi bastante sobre mim mesmo. É meio clichê dizer isso, mas também não há como negar: hoje eu sou um cara completamente diferente do que era em 2002 -- e diferente no sentido de melhor, claro. Sou mais maduro, mais tranqüilo, mais consciente, mais em paz comigo mesmo. Não digo que o Dr. Jason foi o causador de tanta transformação -- na verdade ele as assistiu, não protagonizou -- mas certamente ele vem servindo como um catalizador para tudo isso.

Com a depressão superada, não conversamos mais tanto sobre minhas crises; graças a Deus eu já aprendi a contorná-las sozinho há algum tempo. Ultimamente as nossas conversas têm sido mais sobre aspectos conjunturais da minha vida, coisas que de maneira subliminar condicionam o meu agir e pensar. Ontem, por exemplo, a gente conversou sobre arrependimentos, e foi uma conversa bem intrigante.

Eu não me considero uma pessoa escrava de arrependimentos, cheia de remorsos. Não que eu jamais tenha feito uma bobagem (essas na verdade eu conto às centenas), mas também não sou do tipo que fica se autoflagelando pela vida afora por conta de um ou outro mau-passo no passado. Em geral eu levanto, sacudo a poeira, conserto o que dá para consertar, e sigo em frente tentando lidar com o que restou irreparável.

Mas se por um lado eu não tenho muitos remorsos, por outro eu tenho uma lista enorme de coisas que eu gostaria de fazer bem diferente, se pudesse voltar no tempo. A maioria são coisas bobas, tipo me arrepender de ter deixado essa ou aquela pessoa se aproximar de mim, ou de ter tido namoros que, na verdade, não passaram de grandes, enormes, titânicos erros. Sabe aquilo cuja lembrança leva a mão à testa e dizer "meu Deus, onde eu estava com a cabeça?!" -- então, isso.

Aliás, eu me pergunto onde eu estava com a cabeça para ter feito um monte de outras coisas. E essas tiveram conseqüências um pouco mais graves... tipo confiar em falsos amigos que mais tarde se revelam crápulas absolutamente sem caráter, ou se deixar levar para círculos de gente degenerada, que mais tarde você descobre que é indigna até mesmo de um bom-dia da sua parte, que dirá a sua amizade. Dos meus arrependimentos esses são bem mais sentidos do que os descritos no parágrafo anterior, já que vira-e-mexe eu tenho que dar de cara com essa escória pela vida afora.

E, por fim, é claro que eu tenho um GRANDE ARREPENDIMENTO da minha vida. O maior de todos. O pior. O mais irreversível. Aquele errinho insignificante, cometido anos atrás, que tornou-se na maior desgraça de  uma vida. Algo que até hoje se faz sentir sempre mais doloroso, angustiante, que reverbera e rimbomba na minha consciência num crescendo que acompanha o passar dos anos.

Conversando com o Dr. Jason, ontem eu consegui identificar os dois grandes equívocos que eu cometi na minha vida, e que hoje constituem as duas mais pesadas cruzes que eu carrego: um foi ter confiado muito numa pessoa baseado num mau julgamento; o outro foi ter deixado que outros fizessem uma escolha crucial por mim. Esses dois erros comprometeram toda minha vida, para sempre, até a minha morte.

Me perguntei qual dos dois seria o pior. Para pensar melhor, imaginei qual eu escolheria se Deus me permitisse desfazer só um desses erros. E foi aí que a resposta veio nítida: eu impediria que fizessem uma escolha por mim -- não permitiria que meu pais me influenciassem a escolher Direito, embora toda a minha vida até então eu tivesse sonhado em fazer Arquitetura. Esse erro, aparentemente tão insignificante, esse "X" que eu marquei num quadradinho errado nalgum formulário, desgraçou por completo toda a evolução da minha vida a partir dali. Quebrou-me as asas, prendeu-me numa caixa, tirou-me do caminho que por direito e obrigação eu deveria seguir.

Com esse erro eu aprendi que não dá para simplesmente se adaptar a vida, condicionando-a aos seus desejos e negando-se a vivê-la tal qual ela é. Aprendi que o seu coração é quem tem o poder de te guiar para a tua felicidade, e não ouvi-lo custa muito caro. Aprendi que todo mundo tem um chamado, uma missão, um envio, e não cumpri-lo é o mesmo que não viver. Aprendi que a vida não nos oferece muitas flechas para acertar o alvo, e que é irresponsável disparar as que se tem à guisa de experimentações. Aprendi que tudo, absolutamente tudo o que você faz na sua vida tem o seu preço, que eventualmente é cobrado... de modo que é importantíssimo estarmos sempre com a nossa contabilidade pessoal em dia.

E aprendi que ninguém mais pode ser responsabilizado pelos seus erros e acertos que não você mesmo.

Quanto ao outro erro... bem, esse pelo menos serviu para que eu amadurecesse muito e visse a vida, mim mesmo, os outros e o resto do mundo com outros olhos. É irônico (e paradoxal, para quem sabe do que se trata), mas é mais fácil viver com esse do que com o outro.

É assim, a vida. Paradoxal e irônica.



 Escrito por Rindu às 12:05
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NADA COMO UMA HORA DEPOIS DA OUTRA


Acordar no meio da noite, por causa da chuva que cai lá fora, é tão bom! E acordar de manhã e lembrar que hoje já é quarta-feira é ainda melhor. Isso quer dizer que amanhã é quinta-feira e nas quintas-feiras o mundo é melhor!

Eu fiquei todo feliz e lampeiro.

Aí eu vim para o Escritório e imediatamente passei a odiar a vida.



 Escrito por Rindu às 10:34
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BEDEL


Meu chefe voltou das férias hoje. Tão logo pôs os pés no Escritório hoje de manhã, ele... (marque a alternativa correta):

(a) ...saudou a todos com um largo sorriso e disse que estava morrendo de saudade da nossa companhia, e presenteou-nos com souvenires;

(b) ...decretou recesso para o resto da semana para todos nós, para que ele mesmo possa se recuperar da ressaca da viagem;

(c) ...pediu a folha de ponto do mês que esteve fora, para checar quem faltou ao trabalho na sua ausência;

(d) ...pediu um relatório sobre o prazo de cumprimento das pendências apresentadas ao Escritório;

(e) ...arrebentou os botões da camisa, deu o grito do Tarzan, um peidinho fino e saltou de banda com um sorriso amarelo;

(f) Nenhuma das alternativas anteriores.

Então, meus caros e interessados leitores... seria o meu chefe um homem doce e simpático como vemos na alternativa (a), ou um louco furioso e flatulento como está na alternativa (e)? Seria ele um gestor de resultados, como na alternativa (d), ou um maníaco anacrônico como está na alternativa (c)? Ou, quem sabe ainda, um bonachão fanfarrão trapalhão (e outros "ãos") como na alternativa (b)?

Será que alguém acertou?

.

.

.

.

.

Quem escolheu a alternativa (c), eu lamento informar que infelizmente acertou. Depois de quase um mês fora, o homem veio Escritório adentro imbuído do propósito de descobrir quem emendou o Carnaval, quem chegou tarde e quem saiu cedo. Que se danem as pendências, atendidas a tempo ou não, às favas os prazos cumpridos (ou não). Para ele, funcionário bom é funcionário que cola a bunda na cadeira das nove às doze, da uma e meia às seis e meia. E ponto final.

Como vocês podem ver, um grande administrador. Imaginem a motivação da galera que é chefiada por um bedel de colégio primário.

Quanto a mim, isso foi até bom. Eu não sou assim pontualíssimo quando chego de manhã, é verdade, mas por outro lado também não tenho pressa para ir embora no fim do dia -- e o meu saldo de horas extras ficou mais evidente ainda. Ah, e meus prazos e pendências são os cumpridos mais rápido e eficientemente dentro do Escritório inteiro.

Mas e daí, quem se importa com isso?



 Escrito por Rindu às 09:23
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PRONCOVÔ?


O outro Assistente aqui do Escritório voltou de férias hoje, o que cria a possibilidade de eu sair daqui, ir para algum lugar legal, tirar uns dias para pegar a rabeira do verão e descansar um pouco (e perder esse bronze-cera que eu ando exibindo). E eu preciso mesmo de uns dias, viu. Umas duas semanas, no mínimo, para descansar a cabeça, recarregar as energias e voltar pronto para enfrentar o resto do ano.

Lógico que eu já venho pensando sobre isso há algum tempo, e percebi que até agora eu só tinha pensado em ir para lugares como São Paulo e Belo Horizonte. Adoro essas cidades, mas a falta de maresia nelas não permite que eu as classifique como lugares de férias. Tradicionalmente para mim férias são iguais a litoral, e fim de papo.

Daí se abre todo um leque de possibilidades na minha frente. Fortaleza é uma delícia, mas eu não conheço mais ninguém lá. E para quem viaja sozinho como eu, ter algum ponto de referência no lugar para onde vou torna-se bem importante. Adoraria finalmente conhecer Fernando de Noronha, mas com quem iria? Morro de São Paulo, na Bahia, também seria uma ótima, ou outro lugar em Pernambuco. Mas encarar uma viagem sozinho, de novo, me dá uma preguicinha.

Tem o Rio de Janeiro, mas eu não a classifico como cidade de praia. Prefiro ir lá em agosto ou setembro, quando chove e faz frio. E também tem toda a impregnação de eu ter que pedir autorização a Roma para poder viajar para lá, tendo que informar todo o meu itinerário e meios de contato. Quem consegue relaxar numa viagem monitorada assim? Ademais, é meio roubada querer ir atrás do verão nas praias do Sudeste a esta altura do campeonato. Só se eu quiser pegar muita chuva e morrer de raiva.

Isso sem contar o quesito grana também. Não sou nenhum murrinha, mas também não gosto de sair por aí dando uma de Tieta do Agreste, esbanjando o que posso e o que não posso. Daí pagar quatro paus para passar uma semana em Fernando de Noronha é muito fora da minha realidade.

Acaba que eu vou terminar pedindo o apartamento de um amigo emprestado e indo para Guarapari mesmo, curtir chuva.

E sozinho.



 Escrito por Rindu às 11:36
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