O VIGILANTE
Sono é um problema muito grande para mim, assim como também é para muita gente. Entretanto, no meu caso o problema é um pouquinho diferente do que a grande maioria enfrenta por aí. Se tanta gente reclama que não consegue dormir, ou dorme mal, e a cama toda noite acaba virando uma arena de gladiadores, para mim a coisa é justamente o extremo oposto.
Eu durmo demais. E muito pesado.
Dez horas de sono, para mim, é o mínimo para eu me auto-declarar descansado. Para um bom repouso, doze. E, para os dias de gandaia, catorze. Sim, eu sou capaz de dormir catorze horas, non-stop. Chega eu acordo com a cara resplandescente (e bem inchada, hahahaha). Não raro a dor no corpo por ficar tanto tempo deitado é que me expulsa da cama.
E eu durmo em qualquer lugar, sob qualquer circunstância. Sou uma péssima companhia para a cama, porque eu me ferro no sono e deixo quem quer que seja falando sozinho. Durmo em boates, com a cabeça apoiada numa parede ou numa mesa, completamente alheio ao som alto e à bagunça ao meu redor -- e durmo a ponto de sonhar e ficar com a boca aberta. É ridículo. Dormir em aulas sempre foi a minha praxe, a ponto dos professores me indagarem se eu tinha algum emprego noturno (no segundo grau me chamavam de nightboy -- e não era por causa do meu corpo avantajado de cabide). Hoje em dia eu luto para não dormir em reuniões, mas vez por outra eu me pego pescando na cara do meu interlocutor. E sim, eu já dormi bem na frente do meu chefe, enquanto ele estava falando comigo.
Para conseguir aguentar o tranco da tarde, eu tenho uma necessidade fremente de ir almoçar em casa e tirar um cochilinho de vinte minutos antes de voltar para o Escritório. Do contrário, eu fico feito um zumbi, caindo no sono ainda que fazendo alguma coisa. Não foi nem uma nem duas vezes que eu me dei conta que havia pescado, e a sala inteira estava rindo da minha cara enquanto o documento que eu estava digitando ficava sem fimmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm.
Mas aí vocês devem estar pensando: "Ah, que maravilha. Ele chega em casa, bate a cabeça no travesseiro e pow! Dormiu". -- mas na realidade a coisa não é bem assim, não. O meu sono tem vontade própria, e só se manifesta quando quer. Eu posso chegar em casa exausto, mas misteriosamente me acendo todo à noite. E ir para a cama nesse estado não dá certo: o sono fica superficial, e eu acordo em poucas horas sem sono algum. Aí fico o resto da noite me revirando na cama, só para me levantar no dia seguinte me sentindo como se tivesse levado uma surra de bambu.
Daí que toda noite eu fico me degladiando com o sono até que finalmente ele me vence e nocauteia -- isso lá pelas duas da manhã, mais ou menos. E esse horário é indiferente à hora em que eu acordei, ou ao que eu fiz ou deixei de fazer durante o dia. E por causa disso não tem sido incomum eu dormir de roupa, com a luz acesa, TV e computador ligados, sem tomar banho nem escovar os dentes. Acordo de madrugada com frio, o pescoço doendo por causa do fouton duro da minha cama, a boca acarpetada e o corpo se ressentindo de uma ressaca hormonal.
Essa noite foi assim, e me chamou a atenção para o fato que eu tenho que me disciplinar melhor. Nem que seja já me preparar para dormir embora não esteja com sono: tomar banho logo, escovar os dentes, vestir o pijama e arrumar a cama. Assim, quando Morfeu chegar todo impetuoso, eu já estarei preparado para dar conta dele.
Escrito
por Rindu às 12:54
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