CHEGA LOGO, PORRA
Aconteceu rápido: no meio do barulho de carros à espera e gente chegando e saindo do Aeroporto, um estrondo seco fez tudo em volta calar-se por alguns segundos.
O susto me fez parar exatamente onde estava, apreensivo, como se qualquer respiração em falso pudesse fazer mais alguma coisa grave acontecer. Sim, porque aquele estrondo, e a mudança que ele trouxe ao ambiente, só poderia ter sua origem em algo muito grave.
Olhei em volta, cauteloso, para tentar entender o que estava acontecendo. E do súbito silêncio surgiu uma agitação bem diferente da que se ouvia antes. Um burburinho crescente desagüou em gritos, e logo gente começou a correr em volta de mim, aparentemente sem rumo. Levei alguns instantes para perceber que, na verdade, tanta gente corria em direção a um pilar que ficava a uns quinze ou vinte passos à minha frente.
Ali, bem no meio de tanta agitação, estirado no granito frio do chão, estava um sapato, um corpo, um homem. Da cabeça, sangue se espalhava vermelho, pulsante. Um homem morto.
Um suicida.
"Saltou da praça de alimentação!", eu ouvi de alguém que vinha escada rolante abaixo. "E sem avisar! Pulou o guarda-corpo, fez o sinal-da-cruz e saltou sem olhar para baixo", completou outro. Ou seja, se eu estivesse mais alguns passos à frente, o pobre-diabo poderia ter caído em cima de mim -- e seríamos então dois os finados naquela tarde de sexta-feira (não que eu achasse essa possibilidade de todo má).
Não quis chegar perto. Diferente de tanta gente que estava ali naquela hora, nenhuma curiosidade mórbida me moveu. De longe mesmo, fiz uma oração por aquela alma desesperada, que certamente cometeu aquilo buscando paz para uma vida que lhe parecia irremediavelmente desgraçada. Segui em frente com a minha vida, tentando deixar aquela experiência para trás, debaixo do lençol manchado de vermelho que já cobria o seu autor.
Mas naquela noite mesmo uma dor no meu ombro travou completamente os movimentos do meu braço direito. Sentia algum músculo específico tenso como uma corda de violino, mas não conseguia relaxá-lo nem à base de massagens. Poderia ser algum subproduto da malhação compulsiva que virou o meu mantra este ano, mas não me lembrava de ter feito nenhum excesso. Daí o jeito foi fazer compressa fria, tomar Voltaren (e fritar o estômago por causa disso) e descarregar na Valeriana.
Não fui malhar no domingo, nem na segunda-feira. E na terça, no meio da tarde, do nada, voltou a misteriosa travada no meu ombro. No fim do dia voltei para casa suando de dor, dirigindo com uma mão só. Mais gelo, mais Voltaren, mais valeriana. E hoje eu vou para a minha primeira sessão de acupuntura, para controlar o stress.
Está assim a minha semana, na verdade desde a sexta-feira passada.
E olha, chega domingo mas não chega esse diabo de sexta-feira.
Escrito
por Rindu às 18:49
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