O FIM DO MUNDO
Quinta-feira passada o Supremo Tribunal Federal, num placar apertado, rejeitou a inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança e passou a permitir o uso de embriões humanos nas pesquisas de terapias à base de células-tronco.
Em poucas palavras, o STF autorizou um genocídio.
Eu acho as pesquisas com células-tronco uma das fronteiras mais instigantes da medicina moderna. Pensar que em breve poderemos ter a cura para diabetes, paralisias eu um sem-número de moléstias que afligem a humanidade é algo muito impressionante. E eu acredito veementemente que essas pesquisas devem continuar até que se possa alcançar todos os benefícios que essa nova terapia pode nos oferecer.
Mas, por outro lado, não acredito que seja aceitável que, para isso, se sacrifiquem seres humanos.
É tudo questão de uma equação muitíssimo simples: a vida começa na concepção. Ponto final. O fato de um embrião não ter olhos, nariz ou boca, e se constituir em seus primeiros momentos num amontoado de células, não lhe despe de sua dignidade de ser vivo. E, no caso em questão, um ser humano que merece ter a sua vida -- ainda que ainda restrita ao campo das possibilidades -- defendida a todo custo.
Eu já fui um esse amontoado de células por um período da minha vida. Você, que está lendo este post, também já foi. Não é perturbador pensar que nós dois tivemos a oportunidade de chegarmos ao atual estágio de nossas existências, ao passo que a outros -- os pobres que serão liquidados por conta dessas pesquisas -- não será dada essa chance?
Sabe-se que embriões humanos não são a única fonte de células-tronco; só são a fonte mais barata, mais imediata e mais lucrativa. Mais barata porque o processo (que já foi descoberto, por sinal) para fazer células-tronco adultas regredirem para seu estado embrionário certamente é mais caro do que simplesmente ir a um banco de embriões, pegar lá alguns congelados e bater no liquidificador como quem bate amoras para um coquetel. Mais imediata porque o processo de regressão de células-tronco adultas ainda requer aperfeiçoamentos para lhe garantir uma eficácia segura. E mais lucrativo porque há todo um mercado mundial muito rico de bancos de embriões, que está ávido por encontrar uma saída lucrativa que lhes garanta fluxo de caixa.
Sim, vão começar a vender gente. Só que se antes isso era feito por navios-negreiros para escândalo de quem assistisse a cena, hoje a coisa é na base de tubos de ensaio, sob o aplauso da patuléia manipulada pela mídia.
Aliás, o papel da mídia foi absurdamente ridículo durante todo esse processo. Provavelmente a soldo de todo um cartel de interesses financeiros nessa causa, não foi dada voz de debate em lugar nenhum sobre o que realmente são células-tronco, e quais as alternativas para consegui-las além dos embriões humanos. Na Folha de São Paulo, por exemplo, foi publicado um infográfico que vinha mostrando o que é um embrião, o que são células-tronco... e de repente mostrava a retirada dessas células de uma forma que levava a crer que o embrião permaneceria vivo depois do processo. Como se o embrião fosse "doar" as células, ao invés de ser totalmente destruído para que elas pudessem ser manipuladas. Ou seja, só se fez muito barulho, manipulou-se muito, mas não se esclareceu absolutamente nada.
Por outro lado, a mobilização da militância contra a liberação do uso de embriões humanos para pesquisas científicas foi patética, primária, risível. Liderada primordialmente pela Igreja Católica (porque evangélicos e outros credos pareceram não estarem muito interessados em defender a vida), a mobilização também fugiu do debate. Ao invés de mostrar como e por que a vida começa na concepção, e assim demonstrar como e por que o uso de embriões como fonte de células-tronco é imoral, indigno e criminoso, limitaram-se às passeatas inócuas, à reza do terço na porta do Congresso Nacional ou do STF, e à exibição de imagens dos bebês despedaçados que são o "subproduto" de clínicas de aborto.
Aliás, eu já disse para um monte de gente que enquanto a militância pró-vida não se livrar dessas imagens cruentas de infantes trucidados, não será levada a sério. Eu mesmo outrora já fui um defensor aguerrido do aborto, e imagens nojentas de mãozinhas e perninhas emergindo de um monte de tripas e sangue nunca me comoveu, e nem me ensinou nada. Foi só quando eu morei nos Estados Unidos que eu tive a oportunidade de vivenciar um debate maduro entre os argumentos pró-aborto e os pró-vida, no qual obviamente os últimos prevaleceram. Aliás, independente de cultura ou credo, não há como eles não prevalecerem.
Agora o estrago está feito, e vamos todos assistir ao circo de horrores e decadência que será instalado à nossa volta nos próximos tempos. Com essa decisão o STF abriu as portas para a institucionalização do aborto no Brasil, de modo que logo a coisa será feita quase que como uma intervenção estética, de tão banal.
E viva a promiscuidade, viva a irresponsabilidade.
Isso sem contar as mulheres pobres que logo serão pagas para gerar embriões, em gravidezes em série, para serem colhidos e usados como fonte de células-tronco. Serão fábricas de embriões para o bem da ciência e, daqui a pouco, também da estética. Porque se células-tronco são usadas na regeneração de queimaduras, por que não usá-las também para o rejuvenecimento facial, para quem puder e estiver disposto a pagar por isso?
A lição que eu tiro disso tudo? Basta olhar na História: todas as culturas que perderam seus referenciais de moral, ética e dignidade, entraram num declínio caótico que lhes custou a existência. Não acho que conosco será diferente.
Escrito
por Rindu às 12:45
[
]
[
envie esta mensagem ]
|