É NÓIS NO DVD
Pois é, ando sumido, mas não é nada sério, não. Digamos que eu fui ali e voltei.
Ou melhor, antes tivesse sido isso. A falta de posts reflete diretamente a falta do que escrever aqui. Ou, se inspiração há, me falta tempo. Daí, quando eu finalmente sento na frente do computador, um grande nada se apodera de mim. Writer's block, dizem. Mas vamos lá:
Sexta-feira retrasada eu fui a um banquete de gala no Palácio do Itamaraty, em benefício da ABRACE pela conclusão da construção do Hospital do Câncer Infantil de Brasília. Geralmente essas féerie já me dão preguiça antes mesmo de acontecerem: você fica ali dentro de um smoking alugado (e por isso mesmo com um caimento engraçado) vendo um monte de velhas bem loucas, desfilando verdadeiros pedregulhos nos pescoços e dizendo "você conhece Frank Sinatra? Ele morreu" [/misskittin]. Come-se mal, fica-se em pé horas a fio, e raramente encontra-se algum ser minimamente interessante para se entabular uma conversa. Ou seja, tudo acaba sendo um sacrifício enorme e caro em nome de umas fotos bonitas.
Mas dessa vez a festa seria no Palácio do Itamaraty, que pela primeira vez em pelo menos dez anos reabriria os seus salões para uma gala. E, se eu não fosse nesse banquete, quais seriam as chances de eu ter outra oportunidade de estar presente numa festa ali, na condição de convidado? Acho difícil que algum dia eu esteja na lista dos bailes presidenciais, não sou diplomata, e não pretendo algum dia passar a trabalhar como garçom. Então o jeito era me meter num smoking de novo e ir tentar me divertir no meio da velharada empetecada.
E foi legal. Hebe Camargo estava lá, mas foi embora logo. Luísa Brunet também, linda como não pode deixar de ser, muito simples e sempre simpatissíssima com todo mundo. Dom João de Orleans de Bragança, José Alencar e D. Marisa Gomes, muitos políticos, alguns governadores, ministros dos tribunais superiores, embaixadores, socialites e subcelebridades locais circulavam pelas mesas no jardim e salas Brasília, Debret e Portinari.
O Amaury Jr. entrevistou a maioria, e me impressionou por ser tão baixinho, tão magro, tão cabeçudo, tão embotocado e tão diva. Teve uma hora que a guei surtou de um jeito tal com um cara da sua equipe, que eu pensei que sairia nos tapas. Medo, muito medo -- dele e do Carlinhos Beauty, que estava lá saído diretamente dos meus mais terríveis pesadelos. Aquela semi-trava é o meu personal Freddy Krueger.
Só faltou o Presidente Lula, que tinha presença confirmada (daí a guarda dos Dragões da Independência na porta da festa), mas na última hora teve que viajar e mandou em seu lugar uma mensagem protocolar que foi lida pelo mestre de cerimônias. Menos mau, já que de qualquer forma a presença dele seria no mínimo constrangedora: o Palácio do Planalto havia comunicado que, embora o traje obrigatório fosse gala, o Presidente iria de terno e gravata. Sim, ele é presidente de um dos países mais relevantes do mundo e não usa blacktie. Palhaçada, mais uma.
O motivo da festa foi comemorar os 200 anos da vinda da Corte Portuguesa para o Brasil, e por causa disso houve uma encenação até legalzinha no mezanino do salão principal, no caminho entre o coquetel e o jantar. Como foi uma vedadeira aula de história, e a sociedade de Brasília é conhecida e reconhecida pela sua estupidez galopante, era visível a impaciência do pessoal para cair logo na boca-livre que nos aguardava lá em cima. Daí que eu vi que realmente o hábito não faz o monge: muito tafetá, pedras preciosas e um smoking não incutem nada mesmo em quem os veste. Você pode até tirar o bugre da vulgaridade, mas não tira a vulgaridade do bugre nem com reza braba.
O mais engraçado nessa hora foi perceber um sutil constrangimento generalizado quando a peça retratou o drama da Imperatriz Leopoldina, que teve o marido e a honra roubados pela Marquesa de Santos: em Brasília também temos a nossa Domitila de Castro. Assim como D. Pedro I, o governador do Distrito Federal, assim que tomou posse, mandou a esposa de longa data passear e a trocou por uma guria com a metade da idade dele. E os dois estavam presentes, ela gravidíssima, com um sorriso sem graça, tipo "oi, peidei".
De resto, a festa foi legal. Comi a contento, bebi champagne de primeira, tirei fotos, conversei com quem dava para conversar. A maior parte do tempo eu vaguei pelo salão observando as pessoas, e me distraí um bocado lutando para manter o meu colarinho e a gravata borboleta no lugar -- e mesmo assim em algumas fotos eles saíram zoados. Ando percebendo que usar smoking não é coisa fácil; talvez por causa disso a atitude do Presidente da República possa ser compreendida.
No fim da noite, cheguei em casa mancando como D. Carlota Joaquina, porque o meu sapato de cromo alemão havia mais uma vez devorado partes do meu pé. Pois é, o glamour tem o seu preço.
Escrito
por Rindu às 10:59
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