DE DORES E TORPORES
Eu achei bem interessante a proposta de pauta que o Hermano fez nos comentários do post anterior. E eu resolvi escrever mesmo sobre ela, apesar de a idéia de vocês proporem pautas era inicialmente só retórica (até porque ninguém anda lendo esse blog e eu achei que ninguém responderia à minha sugestão). Como esse tem sido um assunto que tem ocupado bem muito o meu pensamento ultimamente, acho que esta é uma boa oportunidade para falar dele: dor-de-cotovelo.
Eu sou um cara que começou a amar tarde. Me lembro de ter paixonitezinhas platônicas -- sobretudo aos doze, dezesseis e dezoito anos -- mas nada que se compare aos amores adolescentes que eu vejo se desenrolando ao meu redor por aí. Nesses meus proto-amores eu até cheguei a padecer um pouco; fui trocado, chorei muito por isso e fui romanticamente curar dor-de-cotovelo alhures. E isso me bastou para julgar-me já sofrido e calejado.
Mas a verdade é que quando finalmente aconteceu de eu verdadeiramente me apaixonar -- e nisso já se iam meus vinte e tantos anos -- eu fui pego completamente desguarnecido. Não tinha anticorpos, cacife nem cancha, não tinha maturidade, jogo-de-cintura e nem quaisquer outros instrumentos para lidar com aquilo. E aquilo me consumiu por completo: como é da minha natureza, essa paixão foi avassaladora, desmedida, descontrolada. E, não obstante ter durado quase nada, quando acabou ela me deixou sem chão sob meus pés. E, num contexto particularmente complicado da minha vida àquela época, o resultado dessa combinação não poderia ser outro: enlouqueci.
E daí que toda a cancha, cacife e jogo-de-cintura que me faltavam me foram ensinados da pior maneira possível. Sofri calado e sozinho por meses, anos. Confiei em pessoas que hoje eu me esforço por esquecer que sequer conheci um dia. Fiz-me de ridículo para gente que, hoje eu sei, não é digna nem de amarrar os meus sapatos. Fui humilhado incansavelmente até que finalmente, depois de muitas e muitas tentativas e erros, pareci encontrar um caminho seguro de volta para casa. Vivo, graças a Deus, mas muito, muito ferido depois de tudo pelo que passei.
Espero que ainda seja cedo para eu chegar a conclusões definitivas, mas a verdade é que eu tenho a impressão de que por esse aprendizado todo, e tamanha experiência, paguei um preço muito alto: a minha capacidade de apaixonar-me, e conseqüentemente de amar. De uma pessoa outrora passional, impulsiva e espontânea, pareço ter me tornado um ser contido, metódico e calculista depois desses anos.
Ou um morto em vida, se formos olhar bem.
Hoje em dia é muito difícil que eu sofra verdadeiramente por um amor. Talvez passe por um dia ou dois de agonia, quem sabe seguidos de meses de saudades, mas nada nem perto da torrente de emoções que antes convulsionava a minha vida. E tamanha frieza às vezes parece traduzir-se como indiferença até para mim mesmo -- o que me leva a crer que o fato de eu hoje sofrer menos talvez tenha a sua origem numa provável incapacidade de me apaixonar ou, mais fundo ainda, até mesmo de amar.
Sempre de maneira automática e inconsciente, os meus relacionamentos atuais são cuidadosamente calculados de forma a manter um fosso de segurança entre eu e a pessoa que arrisca entrar na minha vida. E sempre, não importa o quão bem as coisas estejam indo, eu sempre me apanho tendo um plano "B" à mão, uma rota de fuga em vista, um pé na porta, um salva-vidas previamente atado.
E, o que é pior: tal qual uma Penélope diligente em desmanchar a sua manta, eu também sempre me empenho em, à noite, desfazer os sentimentos que eu mesmo construí durante o dia. Assim, mantendo o relacionamento sempre à míngua, não haverá como sofrer muito quando ele acabar (porque com tanta sabotagem, ele fatalmente TERÁ que acabar um dia).
Como todo mecanismo perverso, esse também se retro-alimenta, e a cada despedida, a cada decepção anunciada e produzida por mim mesmo, eu me sinto afundar mais e mais num poço de apatia e indiferença. É seguro ser assim, mas é muito triste também. Vejo pessoas maravilhosas entrando na minha vida, e então assisto impassível elas se esvaírem pelos meus dedos como areia fina. E me preocupa constatar que isso me faz sofrer só nalgum nível bem periférico da minha existência.
Por outro lado, vivo numa constante angústia, buscando dentro de mim vestígios dessa chama que antes era tão perceptível. Me atiro em qualquer possibilidade de redenção só para, mais tarde, encontrar ainda mais decepção e a culpa por ter magoado mais uma pessoa inocente e bem-intencionada. Acho que quando se morre em vida, inevitavelmente morre também uma boa parte do mundo à sua volta.
Eu sinceramente gostaria de poder sentir dores-de-cotovelo novamente. Ser capaz de voltar a chorar abraçado ao meu travesseiro até cair no sono, tudo por causa de uma grande e verdadeira paixão. Sentir os joelhos bambos ao surgir um certo nome na tela do meu celular, ansiar por pôr os meus olhos novamente no rumo de olhos que me seriam tão caros, tocar as mãos que fariam todo o meu dia, semana, mês, até mesmo ano valer a pena. Gritar para todo mundo ouvir que sim, EU ESTOU AMANDO e justamente por isso eu me sinto tão vivo.
Hoje, tudo o que sai de mim é um sorriso encabulado, e uma afirmação reticente, tímida e vaga. Pareço não querer comprometer nem mais os meus próprios sorrisos ou as minhas palavras.
Como eu faço para voltar a ser o Rindu de antes de 2002?
Escrito
por Rindu às 05:34
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