SARTRE, BEAUVOIR E RINDU
Quando eu era criança, meu avô me dizia que eu tinha um olhar de poeta, e minha avó completava que minhas mãos eram de pianista. Cresci para ser nenhuma das duas coisas: meus arroubos poéticos sempre foram tímidos e escassos, graças a Deus, e nem o "Bife" eu sei tocar direito. Eu canto, se muito, e mesmo assim olha lá.
Talvez a única característica eminentemente artística que eu tenha de verdade seja o existencialismo. Desde que me conheço por gente, sempre fui uma pessoa sofredora por natureza. Daquelas que são afetadas por absolutamente tudo que se passa em suas vidas, e que mesmo o mínimo estímulo encontra um eco ribombante em suas almas. Por causa disso mesmo as coisas corriqueiras, que são naturalmente encaradas e superadas todos os dias pelos demais mortais, sempre me deixaram marcas profundas.
Quando estava na escola, era um sofrimento o primeiro dia de aula, e o último também. Mudanças e despedidas sempre foram as minhas maiores algozes. Viagens de excursão, então, eram um suplício: voltava da viagem cansado, como todo mundo, mas também profundamente deprimido porque não mais veria aquelas pessoas todas com a intensidade com que havia me acostumado. Eu choro em velório de gente que eu não conheço, ao ver a dor da despedida de quem o morto deixa para trás. Eu choro vendo filme da Sessão da Tarde, fim de novela e clipe musical.
Por toda a minha vida eu sempre me empenhei em construir uma certa carapaça de alienação e indiferença à minha volta, que é uma tentativa de imitar como eu vejo agirem por aí as pessoas normais. De certa forma, eu até que obtive algum sucesso no intuito de me proteger, mas sou forçado a admitir que eu não consegui ainda descobrir como algumas pessoas fazem para serem felizes e entusiasmadas o tempo todo.
Eu sou um cara de altos e baixos. E esses estados alternam-se várias vezes por dia, em questão de horas. Vitalidade não é algo que me sobra, e eu tento aproveitá-la ao máximo quando ela se faz disponível. Euforia, entusiasmo, então, nem se fala. Queria ter a animação de um professor de aeróbica o tempo todo, mas não consigo. Daí me resta fazer a linha emo mesmo.
Em duas épocas do ano, especificamente, eu fico mais propenso a arroubos ainda mais existencialistas do que o normal: o período que começa no meu aniversário e termina no ano-novo, e o inverno. São fases em que eu me pergunto "que diabos eu estou fazendo da minha vida" com mais intensidade do que o costume. Nelas mesmo os problemas mais simples passam a ser intransponíveis, verdadeiras sentenças irrevogáveis de uma vida desgraçada. Minha conta parece que nunca mais vai sair do vermelho, a malhação parece não estar fazendo efeito e ser uma grande perda de tempo e dinheiro, e eu me sinto mais sozinho ainda.
Ontem eu tive um surto desses. Me vi falido, gordo (e magro, paradoxalmente ao mesmo tempo), fracassado, arruinado, morto em vida. Custou uma noite de sono para eu ver que o sol sempre volta no dia seguinte.
Tem um povo que não veio a este mundo a passeio. E eu sou um desses.
Escrito
por Rindu às 12:57
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