"I can't go any further than this
I want you so badly, it's my biggest wish.

"Cool, I spend my time just thinking about you
Every single day, yes, I'm really missing you
And all those things we use to do
Hey girl, what's up? It used to be just me and you.

"Can you meet me halfway, right at the borderline?
That's where I'm going to wait, for you.
I'll be looking out,
night and day
-- You took my heart to the limit,
and this is where I'll stay.
I can't go any further than this
I want you so badly, it's my only wish.

"Girl, I travel around the world and even sail the seven seas
Across the universe I go to other galaxies.
Just tell me where to go, just tell me where you want to meet
I navigate myself to take me where you'll be."

"Meet Me Halfway"
Black Eyed Peas.








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DIVAGANDO SE VAI AO LONGE


É engraçado como a nossa mente funciona para associar idéias e, com isso, trazer à tona lembranças. E quando a gente está distraído, ou entediado, essas associações são as mais loucas e inesperadas.

Por exemplo, outro dia eu estava contando o tempo entre as minhas séries no Graviton da academia. Para quem não sabe, o Graviton é um aparelho que auxilia com contrapesos e roldanas quem não tem força para puxar o próprio peso pendurado numa barra. Funciona assim: a vítima se ajoelha numa plataforma acolchoada, segura na barra acima de sua cabeça, e se esforça para se suspender até ultrapassar a barra em questão com o queixo. Na hora de descer da plataforma eu esbarrei a canela, e na mesma hora comecei a viajar numa lembrança do tempo que eu estava na segunda série do Colégio Marista -- que, coincidentemente, fica bem em frente à minha academia.

Eu costumava esperar a minha mãe num canteiro gramado ao lado do estacionamento dos professores, onde eu passava o tempo brincando ou mexendo nas velas que acendiam na igreja de Santa Rita de Cássia, ali do lado (afinal eu tinha só oito anos e sempre fui piromaníaco). Um dia depois da aula, eu estranhei quando vi uma aglomeração de gente ali. De longe dava para notar o nervosismo, e alguns carros parados na rua e o choro de uma criança mostravam que algo grave estava acontecendo. Quando me aproximei mais, vi que todo mundo estava em volta de um menino mais ou menos da minha idade, que chorava no colo de uma mulher. Na canela dele, o branco do osso fraturado, exposto. Tinha sido atropelado.

Na mesma hora senti uma fisgada tão profunda no meu períneo que cheguei a tremer de dor. Acho que, de alguma forma, também comecei a sentir o que sentia aquele menino que eu sequer conhecia. Quando ele finalmente foi levado para o hospital (acho que estavam esperando a mãe dele aparecer), eu fiquei ali sozinho numa agonia sem fim. Rezei pelo pobre, de joelhos na grama, e poucas vezes senti tanto a demora da minha mãe em vir me buscar para me levar para casa. Aquela experiência me marcou para o resto da vida.

Eu nunca mais vi o menino, nunca mais ouvi falar dele nem nada, embora estudássemos no mesmo colégio. Daí que 25 anos depois, quando eu esbarrei a canela na plataforma do Graviton, eu me lembrei dele e me peguei imaginando como ele estaria hoje. O engraçado foi que eu não o imaginei tendo hoje a minha idade (senão mais), sendo já um homem feito, provavelmente casado, com filhos e exercendo uma profissão: achei que o encontraria no meio da criançada que estava brincando no pátio do Marista há dois dias atrás.

Isso acontece comigo direto, achar que o tempo só passa para mim. Que as pessoas que eu conheci quando era criança, e que por alguma razão nunca mais voltei a ver, continuam por aí usando calças curtas e brincando de pique-esconde. É como se todos esses anos que se passaram na minha vida não fossem nada mais do que um sonho, bem vívido mas ainda assim sonho. E que eu posso acordar a qualquer hora para ver que ainda tenho oito anos, e o meu reinado no meio das jaboticabeiras da casa da minha avó me espera para mais brincadeiras.

Mas acaba que não é sonho coisa nenhuma. Aliás, um pesadelo, porque sonhar que só você no mundo cresceu e ficou adulto é um sonho muito, muito ruim.



 Escrito por Rindu às 15:18
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A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM


Meu, convenhamos: pior do que começar a malhar, só mesmo voltar para a academia depois de um tempo cabulando os ferros.

Ontem eu resolvi voltar à carga com o meu compromisso com a moldagem do meu corpo. Fora a questão de auto-estima e estética, o que mais tem me movido é a necessidade de fazer valer os tubos que eu gastei com nutricionista, suplementos e academia pelo ano afora, sem contar todo o trabalho que eu já tive comendo o que não gostava quando não queria.

E aí que lá estava eu na academia ontem de noite, me arrastando de um lado para o outro como um zumbi. Meu corpo me pedia preguiça, um sofá, um seriado do Warner Channel e um pacote de Bono de chocolate, mas eu fui teimoso e insisti nos ferros. Praticamente um mês sendo irregular ou completamente ausente dos treinos teve um preço alto: tive que voltar as cargas para o peso mínimo de outrora, abstraí das dores e queimações que eu já não sentia havia algum tempo, e me forcei a insistir apesar do cansaço que me fazia querer sentar no chão e chorar.

Tenho amigos que não malham _porra_nenhuma_ e mesmo assim têm os braços bem feitos, as pernas das calças devidamente preenchidas, e as camisetas recheadas por algo como um peitoral genérico (porque me recuso a admitir que, sem exercício algum, ali haja algum músculo). Já eu, se relaxar da rotina de ruminar o dia inteiro para depois ir castigar-me na academia, viro um espantalho, um cabide, um vara-pau. Metro-e-oitenta-e-seis de altura, metro-e-vinte de pernas, e nenhuma sustança.

Quinta-feira eu tenho uma consulta com o meu nutricionista, e já estou me preparando para ouvir-lhe a gargalhada quando ele checar os resultados de um mês inteiro de desordem numa rotina que vinha antes sendo tão rígida. Talvez fosse melhor se eu tivesse pego R$ 150,00 e queimado, ou dado para caridade -- quem sabe assim a sensação de dinheiro perdido seria mais palatável, justificada por um acesso de demência momentâneo ao invés de culpada por uma preguiça deslavada.

OK, não vou ser meu algoz e tentar não ser tão severo comigo mesmo: tenho que admitir que no mês passado eu não tinha mesmo cabeça para ir malhar, ou comer direito, e por causa disso o resultado não poderia ser outro. Mas pensar nisso não ajuda muito, porque logo eu fico indignado por ser incapaz de usar a academia como válvula de escape para o stress, como tanta gente faz. Na verdade, comigo é o contrário: malhar me estressa, me desgasta. É algo que, não importa quanto tempo eu venha levando uma rotina constante e aplicada, eu sempre tenho que me forçar a fazer. A realidade é que eu devo ser insenível às endorfinas.

Hoje vou voltar lá, claro. Compromisso é compromisso, no pain - no gain e coisa e tal. E hoje eu vou justamente malhar costas, que eu absolutamente odeio. E bíceps, que desde antes eu já não estava dando conta das cargas. Uma alegria só.

Meu reino pelos genes certos!



 Escrito por Rindu às 12:33
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HO HO HO


Pois é, eu voltei. Ou quase isso, até porque esse caminho de volta à normalidade tem se revelado bem gradual e lento. Mas constante.

Me sinto como um navio que foi pego de supresa por uma dessas tempestades de proporções épicas, em pleno alto mar -- daquelas que contrariam qualquer previsão meteorológica e chegam de surpresa, transformando de repente um céu luminoso e um mar de azeite no próprio caldeirão do apocalipse. Sem ter para onde fugir, longe de qualquer porto seguro, tive que escolher entre enfrentá-la com garra ou entregar logo os pontos e soçobrar. Graças a Deus, o meu instinto de sobrevivência falou mais alto e eu resolvi tentar segurar as pontas.

Consegui.

Mas agora que a bonança parece ter se firmado, eu tenho estado às voltas com os danos: mastros partidos, leme quebrado, velas rasgadas, os porões alagados... mas toda a tripulação bem viva, e o barco acima da linha d'água -- que são na verdade as duas únicas coisas que realmente importam.

Daí que agora é tocar a bola para frente. As coisas vão aos poucos voltando ao normal, e sei que logo estarei dando meus passos no ritmo de outrora. Todas as mazelas que castigaram o meu corpo por causa do stress estão desaparecendo, e esta semana eu até estou pilhado para voltar para a rotina da academia, que eu totalmente mandei para as calendas gregas no último mês. E assim a vida vai recuperando as suas cores.

O fato de já estarmos em dezembro ajuda muito, muito mesmo. Na minha vida inteira a época do Natal sempre me causou com um entusiasmo todo diferente, e dezembro parece ter um tipo de aura mágica que faz os dias terem uma atmosfera peculiar, que não é a mesma que respiramos o resto do ano. Não saberia explicar como isso se dá (afinal, como toda mágica, essa também é inexplicável), mas para mim parece que em dezembro todos os dias são sexta-feira, entendem?

Esse deslumbramento talvez seja um resquício da época do colégio, já que nessa época começavam as intermináveis férias de verão -- coisa que aliás já nem me pertence mais. Era um tempo bom, aquele: as provas finais, a despedida dos professores, o colégio ficando deserto... e depois os dias longos, preguiçosos, passados de bermuda em casa, comendo doce de leite na frente da televisão sem culpa nenhuma. Tudo isso recheado com a feliz sensação de plenitude pelo dever cumprido, e o ano seguinte garantido.

Isso sem contar a expectativa de ver a decoração de Natal sendo montada, os presentes surgindo debaixo da árvore, e a espera pela noite de Natal. E depois, é claro, o entusiasmo pelas férias na praia, depois do ano novo!

Dezembro tem uma carga enorme de boas memórias, que parecem resistir a qualquer coisa. Então tudo indica que, apesar dos pesares, o meu Natal ainda assim será ótimo. Deus é mais.

E díngou béus para geral aí.



 Escrito por Rindu às 13:01
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