EM BRASÍLIA, DEZENOVE GRAUS
Chove lá fora e aqui faz tanto frio. Esta semana está sendo duro sair de casa de manhã cedo para vir trabalhar, deixando para trás todo o resto da família bem silenciosa e adormecida, enfiada nas cobertas até mais tarde. Dirigir por ruas cada dia mais desertas, e se despedir dos amigos que estão de saída para lugares mais divertidos do que esse quadradinho infame que me serve de lar, também não faz as coisas mais fáceis.
Aí você pensa: "ah, mas é a semana do Natal. O ritmo do trabalho deve estar bem mais tranquilo. O cara está reclamando de barriga cheia". Pois bem: ontem eu fiquei preso no Escritório até as onze horas da noite, numa reunião que começou às dez da manhã -- treze horas de reunião com uma gorda pernóstica e porca, que largou a sua bolsa arreganhada mostrando o Intimus Gel Megablaster Poweplus Deluxe dela para quem quisesse ver e saber que ela estava "naqueles dias".
Sequer pude sair para ir almoçar. Foi meu santo anjo da guarda que me avisou para trazer uma feijoada que rolou lá em casa no sábado, para eu comer por aqui mesmo, rapidinho. E eu não sei como eu não vomitei tudo depois, de raiva e de nojo.
De modo geral, eu ando bem de saco cheio com as coisas por aqui. É foda você trabalhar num lugar que te exige mundos e fundos, mas é incapaz de adiantar qualquer coisa para o seu lado. Por exemplo, ontem eu saí daqui às onze da noite, sem intervalo para o almoço, certo? Pois bem: se eu tivesse chegado às nove e quinze hoje de manhã, encontraria narizes torcidos para mim. Nego não quer saber, eu é que me foda. Tenho milhões de horas extras registradas, mas nada disso me serve para poder ficar em casa amanhã, por exemplo.
Depois fica a chefia se perguntando por que é que o staff anda desmotivado, uns pulando na jugular dos outros, conspirando pelos cantos. É incrível a quantidade de fofoca e bate-boca que rola num Escritório onde trabalham menos de vinte pessoas. Um verdadeiro lugar de loucos.
Tudo bem que eu acho que boa parte disso se deve ao fato de que a maioria das pessoas que trabalham aqui são mulheres. Ao passo que homens abstraem dos detalhes e constumam resolver suas diferenças às claras, mulheres já são ladinas por natureza. E dá-lhe fofoca, falsidade, umas dando conta da vida das outras... e quem paga o pato por isso tudo acaba sendo o Escritório inteiro.
Aí eu me vejo no meio desse salseiro todo (isso quando eu não sou o Judas da vez) e me pergunto: precisa? E até agora não encontrei a resposta.
Escrito
por Rindu às 11:52
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