EPIFANIAS DE ACADEMIA
Eu tenho a perna esquerda cerca de um centímetro e meio mais curta do que a perna direita. Descobri isso relativamente tarde, aos 22 anos, porque sentia dores excruciantes nas costas quando caminhava muito tempo ou ficava em pé. Na época eu achava que isso acontecia porque eu tinha a musculatura fraca, de tão magro que era. Malhava, malhava, malhava, e nada da dor passar. E foi aí que eu percebi que além da dor eu também tinha uma estranha assimetria no meu tórax. Por mais que eu malhasse, só o lado esquerdo parecia crescer.
Quando finalmente fui ver que diabos estava errado comigo, percebi o estrago: para compensar a perna mais curta, eu tinha desenvolvido uma escoliose bem acentuada que transformava a minha coluna numa espiral. Aí, ao malhar a parte superior do corpo eu roubava o exercício sem perceber, puxando primeiro e mais forte com o lado esquerdo. Era por isso que ele era mais alto e mais para frente que o direito, fazendo o meu peito ficar assimétrico.
Levei anos de malhação pesada para corrigir isso -- muitos dos quais eu perdi nas mãos de professores de educação física que não tinham a mínima idéia do que fazer para reverter esse quadro. As dores nas costas foram resolvidas com o uso constante de palmilhas (e contrassolas nos meus chinelos), mas a assimetria que a musculatura tinha adquirido em anos sendo torta seguia intocada. Ela e seus reflexos, tipo os meus ombros crepitantes, que pareciam querer sair dos caixilhos a qualquer hora.
Até que isso se equalizasse, eu nunca pude pegar pesado de verdade na academia. E também não podia malhar com pesos livres, porque invariavelmente voltava a roubar com o lado esquerdo. E assim passei anos malhando preso a máquinas e cabos, sempre pegando leve e fazendo exercícios compensatórios bem dolorosos (tipo fazer o crucifixo com o braço direito dois níveis mais atrás que o esquerdo). Só há coisa de um ano, ou talvez um ano e meio, essa assimetria praticamente desapareceu e enfim eu estava liberado para pegar mais pesado. Só que ainda preso nos aparelhos, porque meu corpo poderia estar corrigido, mas o meu cérebro ainda era teimoso e poderia me fazer continuar roubando.
Bem, a minha meta em 2008 foi transformar o meu corpo e eu venho conseguindo isso a duras penas. Já alcancei os 80 quilos, e percebo que as minhas roupas andam mais bem preenchidas ultimamente. Também a minha capacidade de levantar pesos na academia cresceu drasticamente, já que a minha musculatura ganha força muito rápido. E isso me animou a finalmente largar o rack para passar a fazer os supinos com pesos livres.
Outro dia estava eu lá deitado quando percebi que a barra que eu estava erguendo não estava bem alinhada. Na verdade, dava para notar que ela estava um pouco na diagonal da esquerda para a direita, e também subindo primeiro do lado direito. Ou seja, eu estava roubando de novo.
Na hora eu fiquei muito puto, pensando por que diabos eu não continuava no rack, preso aos cabos e condicionado a fazer o exercício certo. Mas então quase que imediatamente eu pensei numa coisa que nunca tinha pensado antes: eu percebi que para fazer o exercício certo, era tudo uma questão de eu fazer um pouco mais de esforço para evitar aquele desvio. E que, de esforço em esforço, dia a dia, aquele desvio iria enfim desaparecer.
Pode parecer uma coisa meio idiota para uma pessoa normal pensar, como se os ferros da academia estivessem me embotando para ficar como os caras que a gente encontra nesses lugares. Mas é que se a gente trouxer isso para um plano um pouco mais amplo, percebemos o valor dessa "revelação".
Hoje em dia a gente vive num tempo em que todo mundo procura um rack para fazer as coisas de suas vidas direito. Ninguém quer saber de se empenhar, mostrar esforço, ter garra por conta própria; preferimos delegar esse comprometimento que deveria ser só nosso para qualquer coisa que esteja fora de nós, e que por isso passa a ter o poder de condicionar-nos. Se formos ver bem, praticamente foi-se o tempo em que as pessoas modificavam suas vidas por força de sua própria determinação -- hoje preferimos pagar para que alguém faça isso por nós. Quer mudar o corpo? Pague um personal trainer e malhe mesmo que não queira. Quer emagrecer? Faça uma cirurgia no estômago e torne-se incapaz de comer além da conta, mesmo que queira muito. Quer parar de fumar? Entupa-se de remédios e ache que está livre do vício... até chegar a hora da próxima dose.
Quer parar de roubar com os pesos livres na malhação? Vá malhar num rack e continue com a sua musculatura toda viciada para o resto da vida.
Claro que não estou advogando pelo desemprego dos personal trainers (coitado do meu irmão), a abolição das cirurgias bariátricas ou a execração de quem precisa de tomar remédios para se livrar do vício da nicotina. O que eu estou falando é que lançar mão dessas coisas tornou-se o normal, o corriqueiro, a regra, ao invés de ser o suporte, a complementação, o apoio que facilita um esforço originalmente nosso.
Eu falo por mim mesmo. Tem uma série de coisas da minha vida que eu larguei de pensar em me esforçar para colocar no eixo: elegi uma rotina segura e é nela que me fio para não pisar na bola com muita frequência. E, se essa rotina falha, não tem para ninguém: me esculhambo mesmo, só para logo em seguida ficar me autocondenando e me sentindo péssimo. Com essa história toda na academia, percebi o óbvio: tenho que segurar a barra que tenho na minha mão com mais firmeza, e colocar a minha mente, o meu querer, em cada movimento que fizer com ela. E é assim, no esforço cotidiano, que eu vou conseguir corrigir de verdade os desvios que ainda teimam em existir -- até que, um dia, com o meu caráter fortalecido na forja do empenho pessoal, não haverá mais desvio algum.
Pode ser mais difícil, ou mais demorado, ou ainda mais dolorido. Mas tem a vantagem do mérito certo, e só meu, para eu nunca mais perder.
Escrito
por Rindu às 18:23
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