SOCIOCARCINOMA*
Outro dia eu conversava com um amigo sobre como algumas pessoas se revelam verdadeiras caixinhas de surpresas nas nossas vidas -- ou talvez o termo correto seja caixas de Pandora. Acho que já aconteceu com todo mundo: uma hora achamos que ganhamos um novo amigo que, de repente, deixa cair a máscara que usava e revela-se uma víbora traiçoeira. Descobrimos que estamos praticamente dormindo com o inimigo, lidando com alguém que, embora seja capaz de agir de um modo insuspeito, na verdade é falso e desleal. Essa é inegavelmente uma da piores experiências que qualquer pessoa pode passar na vida. E embora cada um reaja a ela de uma maneira pessoal, geralmente essa reação tem a mesma natureza: afastar a pessoa em questão o mais rápido possível. A diferença é que alguns são mais incisivos nessa operação do que outros. Meu amigo, por exemplo, me disse que prefere adotar o que ele chama de "quarentena": ele se afasta de quem ele sabe que não presta, e se coloca a uma distância segura de todas as pessoas que estão entre ele e seus detratores. Não rompe com ninguém de vez, mas vai observando o comportamento de todos cuidadosamente por um período de tempo. Só toma medidas mais drásticas depois de identificar quem está do lado dele, quem não está, e quem é perigosamente ambíguo. Já eu não sei agir assim, com toda essa parcimônia e sangue-frio. Identificado uma ameaça, concentro imediatamente todo o meu poder de fogo nela. E como um médico que, ao extirpar um câncer, também retira todo o tecido adjacente ao tumor como medida preventiva contra uma metástase, eu igualmente me empenho em cavar entre mim e o ex-amigo um abismo intransponível. Torna-se essencial me livrar de quem mais possa estar contaminado com o mau-caráter do outro, custe o que custar. "Diga-me com quem andas e eu te direi quem és", dizia a minha avó, e eu acho que ela estava coberta de razão. Quem anda com gente mau-caráter, boa índole não deve ter. Mas essa "filostomia" (neologismo: "extirpação de amigos") não é assim irrevogável e peremptória, e nem tem que ser. Eu não poderia ser cruel ou ignorante a esse ponto; qualquer um que já teve marimbondos na boca ou nas pontas dos dedos, ao falar ou escrever qualquer bobagem levado por alguma emoção idiota -- e eu nem preciso dizer que me coloco num lugar de destaque entre esses -- sabe o valor que tem uma segunda chance, ou um pedido genuíno de perdão. Entretanto, a cartada da reaproximação é algo que só pode ser usada uma vez, e uma vez somente: feito e desperdiçada, é guerra declarada. Quando isso acontece, suspeitas de malignidade viram certezas incontestáveis, todas apontando para uma falha séria e incurável na moral da pessoa -- o que só serve para me fazer preferir a companhia do diabo que a do indivíduo em questão. Nesse caso, o corte é profundo: queimo pontes, destruo laços, elimino quaisquer vestígios meus na vida da pessoa e de quem mais a cercar. Orkut, MSN, Twitter, Last.fm, e-mails e tudo mais é bloqueado, apagado, esquecido. E eu não sei quanto a elas, mas da minha parte não sinto remorso algum em ver essas pessoas fora da minha vida. Não consigo enxergar qualquer perda; na verdade, é só o ganho de um alívio enorme de perceber que me transformei numa lembrança vaga e distante em suas memórias. * SOCIOCARCINOMA: neologismo significando "câncer social".
Escrito
por Rindu às 02:52
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