CRENÇA E FÉ
Dado os meus sumiços aqui do Quarto 1222, há quem pense que eu ando desistindo de postar, relegando o blog à uma morte lenta e melancólica, à míngua de posts. Na verdade não é bem assim. Por um lado, eu ando tão cansado, tão desmotivado com tudo, que me falta ânimo e inspiração para sentar e escrever. Praticamente não há novidades na minha vida nos últimos tempos. E quando aparece alguma coisa, eu confesso que prefiro ficar sem fazer nada, morgando, do que sentar para elaborar alguma coisa a respeito. Eu estou numa fase da minha vida em que praticamente tudo à minha volta parece ser de mentira, sem sentido ou estar fora do lugar. E admito que pensar sobre isso me angustia deveras -- daí quando me sobra tempo eu prefiro me alienar do que ficar elaborando uma forma de por em texto todo esse enorme nada que me cerca. Por outro lado (porque tudo neste mundo tem dois lados), essa fase niilista e existencialista tem me cobrado o seu preço. Tenho sentido cada vez mais frequentemente uma verdadeira maré de convicções subir e descer dentro da minha alma, me deixando cada vez mais confuso porque por causa dela ora me inclino para um lado, ora para outro. E porque eu conheço bem essa minha natureza passional e impulsiva, isso me deixa inseguro e instrospectivo: gasto uma energia enorme me escrutinando, em busca do que eu quero mesmo para a minha vida, para só então pensar em tomar qualquer atitude. Quem me conhece minimamente já deve ter deduzido que eu estou falando do meu lugar neste mundo, da minha vocação e, mais especificamente, da minha vida profissional. Ando descobrindo que as coisas como estão, na verdade, se parecem com um vulcão constantemente à beira de uma erupção: estou o tempo todo no limite da minha capacidade de abnegação por viver uma vida que, suspeito fortemente, não é a minha. E se, de repente, mesmo que uma ínfima pressão é acrescentada a esse sistema já tão crítico, eu desmorono. E o mar tão pacífico de abstração e tolerância que me preenche subitamente torna-se revolto com ondas furiosas de indignação e desespero. A urgência de se tomar alguma providência para por as coisas nos eixos passa a ser fremente. E aí me assalta um misto de sentimentos. De um lado a pressa para que se faça algo logo; de outro o chamado à prudência para que não se meta os pés pelas mãos. E, contra tudo isso, a covardia de preferir o conforto do certo desagradável ao incerto transformador. E tenho aí formado o turbilhão que tem consumido os meus dias. Uma conversa que tive com um amigo outro dia me deixou pensativo. Ele me dizia que a gente tem que parar de ficar pelos cantos reclamando, se sentindo miserável enquanto espera um milagre cair dos céus, e lutar para contribuir com Deus para que as coisas aconteçam nas nossas vidas. Que a responsabilidade por nossas existências nos é inalienável, e que somos obrigados a tomar posse dela. Ou seja: se eu quero que Deus me ajude a dar uma guinada na minha vida, ao invés de esperar que surja um desvio miraculoso na estrada bem à minha frente, sou eu que tenho que pisar no freio e girar o volante. Já a parte de não capotar nessa manobra fica por conta d'Ele. É um problema não só de coragem, mas de fé. Há de se ter os culhões para fazer isso. Esse meu amigo coincidentemente também anda buscando um novo rumo para a sua vida, e segundo ele nós dois somos muito mal acostumados. Nascemos em berço de ouro, sempre tivemos tudo o que quisemos entregue numa bandeja, e nunca tivemos que lutar e nos sacrificar de verdade por absolutamente nada nas nossas vidas. Isso nos fez fracos, imaturos, hesitantes e demasiadamente apegados. O esforço para se conquistar o que sabemos ser essencial para nós fica desproporcionado, e por isso acabamos escolhendo vender nossa realização pessoal pelo conforto de um carro do ano e a possibilidade de fazer uma boa viagem nas férias. Isso me fez ver que se eu quiser mesmo que a minha vida mude, sou eu que tenho que estar disposto para arcar com o custo dessas mudanças. E o mais importante: arregaçar as mangas para meter as mãos na massa, e fazer as coisas acontecerem. É preciso encarar os sacrifícios que me forem exigidos não como perdas ou retrocessos, mas como um investimento que eu faço num futuro como um ser humano realizado: que seja eu ficar sem carro e usar transporte público, abandonar temporariamente a minha independência financeira, ou ir morar em algum lugar que não seja bem o que eu considere apropriado para mim a esta altura da minha vida. Agora eu estou na fase de discernimento. Evito pensar demais sobre as hipóteses que aparecem na minha cabeça, mas também evito deixar de pensar nelas para que a minha intenção não esfrie, e meus planos caiam no esquecimento. Daqui para junho eu vou ter que amadurecer isso de vez, para já no semestre que vem começar a tomar as providências necessárias, se for o caso. Tenho 33 anos e não dá para ficar esperando mais tempo. Haja medo. E também fé.
Escrito
por Rindu às 13:37
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