UNS VÃO, OUTROS FICAM
Eu fiz o propósito quase religioso de não assitir ao Big Brother este ano. Aliás, este ano não: já há uns três ou quatro anos que eu me recuso a dar audiência para aquele poço de baixaria e boçalidade, e sempre dou um jeito de sair da sala ou mudar de canal quando o idiota do Pedro Bial aparece chamando aquele bando de desequilibrados de "nossos heróis". Na boa, atribuir aquela gente como meus heróis subestima tanto a minha inteligência que me sinto insultado. Mas tem dias que não dá para escapar, e o jeito é recostar na poltrona e assistir àquele lixo. E foi assim que outro dia eu vi a Naiá chorar porque não queria que a Ana Carolina fosse eliminada do programa. Em prantos, a mulher dizia que a vida dela sempre foi uma sucessão de despedidas, que ela até já estava acostumada com aquilo, mas que mesmo assim se entristecia. Nessa hora foi impossível eu não me identificar com ela. Eu sempre tive a certeza de ser aquele que vê as pessoas indo embora, mas que não vai a lugar algum. Aprender a sobreviver às despedidas passou a ser ponto crucial na minha existência, uma vez que são sempre as pessoas à minha volta que se vão: ou porque morrem, ou porque se mudam, ou porque a vida se encarrega de levá-las mansamente na sua correnteza para bem longe de mim, para onde as memórias se tornam vagas e o esquecimento faz morada. Isso cria cicatrizes profundas no coração de uma pessoa. Tantas, que o fato de conhecer alguém novo e começar a se apegar a essa pessoa passa a ser motivo de angústia para gente como eu: fatalmente chegará também o dia da despedida, e quanto mais forte for o apego, mais doloroso será o adeus. Daí vive-se uma vida toda controlada, dosando o grau de dedicação devotado aos que te cercam, como quem raciona a água de um cantil no meio do deserto. Paradoxalmente, também nos assalta uma necessidade tremenda de tirar o máximo proveito desses bons encontros que a vida nos proporciona, justamente porque são fadados a serem efêmeros. Cada dia, cada conversa, cada instante tem o seu valor único, e precisa ser aproveitado como se fosse o último porque nunca se sabe se e quando haverá outra oportunidade. E, caso uma dessas oportunidades é perdida, fica a melancolia de uma nostalgia cheia de remorso. Recentemente eu tive que me despedir mais uma vez: um grande amigo, desses que surgem do nada nas nossas vidas e sem mais nem menos se tornam nossas almas gêmeas, mudou-se para o Rio de Janeiro. Mais uma vez, as pessoas se vão, e eu fico: neste caso, lá foi ele buscar o seu crescimento pessoal, e cá fiquei eu na vida mais ou menos de sempre. O saldo disso tudo, só muita saudade e um grande vazio. Amigos de verdade são difíceis de se achar. Eles deviam ser difíceis de se perder também.
Escrito
por Rindu às 18:30
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