HOJE
Hoje eu acordei triste. Na verdade, já faz algum tempo que isso vem acontecendo, e até agora a minha atitude foi não dar muita atenção a isso. Mas hoje não deu para simplesmente deixar para lá e esperar passar: a tristeza que tem me visitado nas últimas manhãs parece que escolheu essa segunda-feira para fazer uma chegada triunfal. A verdade é que eu tenho me sentido ultimamente como um daqueles mamutes que eram caçados pelos homens das cavernas: os bichos eram grandes demais para sucumbirem com um golpe só, mas tantas eram as flechadas que recebiam, que uma hora não resistiam mais. E meu, eu ando parecendo São Sebastião de tanta flecha que eu tenho recebido. Hoje em dia qualquer coisa parece contribuir para mais uma flechada que drena as minhas forças ainda mais um pouco. Começo a sentir mais intensamente a urgência de tomar uma atitude em relação a minha carreira profissional, e por isso tenho sentido o meu corpo retrair-se e retesar como o de um gato que se prepara para um salto... Ando sonhando com com isso à noite, e de dia raramente consigo pensar em outra coisa. De vez em quando me pego me despedindo de pessoas e lugares, e frequentemente sou assombrado pelo medo de enfrentar o futuro, me imaginando morrendo na praia, fracassado, tendo perdido o que tenho e sem ter conseguido alcançar o que busco. Parece que recentemente tudo vem assumindo por si só uma dimensão exagerada, como que sob uma lupa diabólica, que amplifica as coisas a ponto de me fazer duvidar se terei as forças necessárias para vencer os desafios sem naufragar. Em suma, medo. Muito medo. Medo de trocar o certo pelo incerto, o conforto pela batalha, a terra natal pela estrangeira. Um medo que desproporciona as coisas e me tira do eixo de equilíbrio. Junto a isso tudo há ainda a minha eterna insatisfação com o meu trabalho, que me faz ir trabalhar todos os dias movido por um misto de abnegação, resignação e tristeza. O único consolo que tenho é pensar que a cada dia que passa, falta menos para a minha libertação desse jugo. Mas aí sofro ao tentar imaginar para que, para quem e para onde será essa libertação... Certamente viver a vida de sexta-feira em sexta-feira não é o que define uma pessoa realizada, mas há de se ter um rumo definido para poder sair disso de uma vez por todas. Só que eu não consigo ter a certeza de ter encontrado esse rumo, e acabo que vivo às apalpadelas pela vida afora. Além de todas essas coisas, eu também tenho tido a impressão de ter meus passos seguidos por uma alcatéia furiosa e surdina. Gente que se indigna contra a minha teimosia a respeito da fé que professo, apesar da forma com que a minha vida se apresenta para mim. Rosnam pelos cantos, raivosos, contra a minha ousadia de continuar sendo católico, viver a minha fé ao máximo da plenitude que consigo, e ainda por cima permanecer atuante na Igreja. Isso é o que tem me chateado mais. Sinto como se quisessem tirar de mim algo que me é muito precioso, só porque aos olhos de uns e de outros eu não sou suficientemente digno dela (como se eles, por outro lado, o fossem). E por causa disso me vejo imerso num oceano de falsidades e mentiras, de gente que da mesma maneira que me saúda pela frente, me condena pelas costas. Acredito que boa parte dessa mágoa venha da minha convicção pública de que erros são erros, e ponto final. Que a frequência ou a intenção com que eles são cometidos, não importa por qual razão ou por quem, simplesmente não têm o poder de transformá-los em acertos. E com a vida eu aprendi que isso fere corações acostumados a reputarem-se como justos e acima do bem e do mal. Pessoas que acham um absurdo que justo alguém como eu ouse lembrar-lhes de que há um longo caminho de conversão para quem quer mesmo se dizer católico verdadeiro. Que esquecem que pecado é pecado, e que embora tenham nomes diferentes, o meu e o deles têm exatamente a mesma natureza -- e que por isso mesmo tanto eu como eles temos que admitir que erramos muito, demais até. E que isso é uma obrigação de todo cristão, não uma escolha pessoal. Juro que tem horas que eu penso em desistir de tudo, sabe? Ficar quieto na minha, e me esforçar para simplesmente sumir e não chamar mais atenção de quem quer que seja. Mas aí eu lembro que é justamente isso que essas pessoas querem. E é a indignação que se apodera de mim nessa hora que me faz erguer o queixo e teimar em ir em frente, contra tudo e contra todos. Afinal, o único que pode me julgar é Deus, e com esse eu consigo me entender sem precisar de jurados. Ademais, o que eu faço na Igreja não faço por mim, mas por algo bem maior do que eu, e muito mais importante do que esse tipo de conversinhas de comadres despeitadas. Afinal, essa gente está mais a serviço de si mesma e do mal do que de Deus. Como se já não bastasse o desgaste de cada dia, ter que lidar com isso também fere muito o meu coração. Uma ferida grande, calada, e que me deixa triste.
Escrito
por Rindu às 12:11
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