"I can't go any further than this
I want you so badly, it's my biggest wish.

"Cool, I spend my time just thinking about you
Every single day, yes, I'm really missing you
And all those things we use to do
Hey girl, what's up? It used to be just me and you.

"Can you meet me halfway, right at the borderline?
That's where I'm going to wait, for you.
I'll be looking out,
night and day
-- You took my heart to the limit,
and this is where I'll stay.
I can't go any further than this
I want you so badly, it's my only wish.

"Girl, I travel around the world and even sail the seven seas
Across the universe I go to other galaxies.
Just tell me where to go, just tell me where you want to meet
I navigate myself to take me where you'll be."

"Meet Me Halfway"
Black Eyed Peas.








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RERIGUERI


Fim de semana passado eu voltei a Araguari, depois de sei lá quanto tempo, para comemorar o aniversário de 90 anos da minha avó paterna.

Eu sempre resisto em ir para Araguari, e não é porque não gosto da cidade ou de quem mora lá -- antes, muitíssimo pelo contrário: eu me considero viceralmente um araguarino no coração. O diabo é que a viagem é tão longa, tão cansativa, que eu penso duas mil vezes antes de embarcar nos esquemas bate-e-volta que costumam rolar. Esse negócio de rodar quase 500 km na sexta-feira de noite (ou às vezes sábado de manhã), e daí fazer o caminho todo de volta já no domingo é de matar. E nem é frescura da minha parte, vai: para quem tem metro-e-vinte de perna como eu, viajar tanto tempo assim de carro é uma tortura inominável.

A festa foi boa, como não podia deixar de ser. Eu sempre tive muito pouco contato com a família do meu pai, e praticamente só sei o nome de uma meia dúzia de parentes. Mas isso não me impede de ficar feliz de revê-los. Aliás, esse anos de afastamento crônico intercalados com encontros intensos, me fizeram perito na arte de conversar com alguém sem mostrar que eu não sei o seu nome, ou ainda ter um jogo de cintura ninja para os ocasionais "você sabe quem eu sou?" que vira e mexe aparecem pela minha frente.

Também foi muito bom rever a família da minha mãe. Com esses sim, eu tenho uma relação muitíssimo mais profunda do que a de meros primos. Somos todos verdadeiros irmãos, bem próximos, mesmo quando a rotina louca que todos já levamos nos faz ficar tempos sem nos vermos. Quando nos encontramos, não temos mais hora para nada: nos sentamos em volta de uma mesa e começamos a beliscar comidinhas e contar mil casos noite adentro. No domingo, então, fizemos uma sessão de fotos igual às que tanto nos divertiam quando éramos crianças, e isso rendeu muita risada. A gente sai de um encontro desses com a alma mais leve.

A surpresa desse fim de semana tão intenso foi a minha tia me mostrar dois diários da minha avó materna, que ela descobriu recentemente no meio da papelada da biblioteca do meu avô. São diários de 1985 e 1986, justamente os dois últimos anos de ouro da minha infância, que precederam à derrocada total da nossa família tal qual eu a conhecia. O que se seguiria de 1987 em diante seria um verdadeiro terremoto: em fevereiro meu avô morreu num infarto fulminante, em maio a minha avó foi diagnosticada com câncer de pulmão (e mais tarde também no rim), em julho de 1988 meu avô paterno morreu e, finalmente, em março de 1989 foi a vez da minha avó materna sucumbir.

Foi estranho ler as narrativas com a letrinha da minha avó, toda desenhadinha e levemente trêmula por causa do Parkinson, registrando coisas de que eu me lembro até hoje. Tipo a vez que meu avô paterno ficou hospitalizado e meu pai e todos nós voltamos de Rio das Ostras (RJ) numa verdadeira maratona. Ou quando fomos todos, avós, netos e tios, num passeio numa cachoeira. Até hoje eu lembro da minha irmã tocando "More Than I Can Bear" do Matt Bianco continuamente nesse dia, antes da gente sair de casa.

Também foi a primeira vez que eu vi alguma manifestação íntima da minha avó sobre a morte da mãe dela em maio de 1986, e da irmã, em setembro. Minha avó sempre me passou uma imagem de uma dama altiva, reservadíssima, e embora eu soubesse que a morte inesperada da mãe e da irmã haviam sido impactos muito fortes para ela e meu avô (inclusive atribuímos o seu infarto a isso), eu nunca a tinha visto se lamentando. E nesse diário eu encontrei diversas passagens em que ela pede a Deus por elas, tentando resignar-se. Foi triste.

Fechei os diários me sentindo estranho por ter lido aquelas coisas, e revivido aqueles momentos. Era estranho para mim ver a tranquilidade do cotidiano dos meus avós a tão pouco tempo de um período cheio de tanta perda, doença e dor... coisas que eles nem imaginavam que estavam vindo rápido ao seu encontro.

Pensar que eu também -- aliás, todos nós -- vivemos as nossas vidas como se tivessemos dias infinitos de bonança pela frente, me fez ter calafrios. Nada é para sempre, a começar por nossa própria existência.



 Escrito por Rindu às 18:10
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