COMPARTILHADO E DIVIDIDO
Uma vez eu vi escrito em algum lugar uma frase mais ou menos assim: "se a alegria compartilhada é alegria dobrada, a tristeza partilhada é tristeza dividida". Uma grande e sábia verdade, essa. Não há quem nunca tenha experimentado o alívio que é abrir o coração e derramar todas as mágoas e aflições para alguém digno de confiança. Isso previne infartos e derrames, evita depressões e suicídios, melhora a pressão arterial e a auto-estima, e também serve como um indicador sem igual dos amigos verdadeiros que temos. Afinal, não é qualquer um que se alegra com a felicidade alheia ou partilha uma lágrima derramada. É uma tarefa espinhosa ser escolhido para confidente, do tipo que requer muita abnegação e equilíbrio. Isso porque a inveja, o julgamento e a indiscrição são características inerentes a praticamente todo ser humano, mas não podem de jeito nenhum se manifestar quando são os nossos os ouvidos escolhidos para um desabafo. Há quem se prepare anos e anos para dar conta disso, como os padres e os psicólogos, mas nem sempre quem precisa vai procurar essas pessoas -- na maioria das vezes somos nós, meros mortais, os pegos de surpresa na mira de um par de olhos que nos imploram acolhida. E aí o jeito é rebolar muito para dar conta do recado, sem errar demais. Eu não sei se é uma consequência da minha idade, e da maturidade que ela subentende (muitas vezes erroneamente), mas ultimamente eu tenho sido cada vez mais procurado por pessoas em busca de quem ouça as suas agruras e as acolha nalgum momento crítico de suas vidas. E também não sei se a complexidade dos problemas que me são confiados cresceu com o avançar da minha idade, mas a verdade é que eu tenho enfrentado barras cada vez mais difícies... E como isso tem sido difícil! Dar conselhos para namorados em crise é algo que todo mundo faz desde que entrou na adolescência, mas o que dizer quando o que está em jogo não é uma relação de alguns meses, mas um casamento consumado? Ou como agir diante de quem acabou de receber um diagnóstico grave e provavelmente mortal? Como acolher quem descobriu que o seu pai é viciado em drogas? Ou que confidencia, em prantos, que descobriu que a mãe sempre foi infiel, e que não é filha da pessoa que ela sempre acreditou ser o seu pai? Tento ficar calado e ouvir, até porque eu acredito que quem desabafa precisa mais falar do que escutar conselhos ou opiniões. Também acho importante olhar bem nos olhos, porque é um sinal de solidariedade. Enquanto a pessoa fala, o meu cérebro entra num esforço hercúleo para controlar as minhas feições, para que eu não mostre pelas minhas feições estar escandalizado, furioso ou condoído por tudo o que estou ouvindo. Ao mesmo tempo, busco quais as melhores palavras para dizer, e tento descobrir qual é o melhor momento para dizê-las. Nessas horas eu chego a suar frio. Também evito banalizar o contato físico, por uma série de motivos: tocar demais pode ser sufocante, e também pode ser interpretado como uma demonstração de pena. Eu acredito que, na sua essência, a pena é um sentimento nefasto, que diminui as pessoas em sua dignidade. Justamente por isso eu me esforço por mostrar que apesar de tudo, eu nunca sinto pena de ninguém. Sofro junto, mas não sinto pena. Aliás, sofro junto mesmo! Tem dias que eu saio dessas conversas querendo chorar, e levo horas para dissipar a urucubaca que se instala no meu peito. Sinto como se o conhecimento do turbilhão que antes afligia outra pessoa acabasse por fazer com que o meu coração seja também fosse arrebatado por ele... bem, se isso for assim porque eu tomei para mim parte da angústia que oprimia o outro, aliviando-o um pouco desse peso, isso tudo terá valido a pena. É a minha única esperança.
Escrito
por Rindu às 12:48
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