"I can't go any further than this
I want you so badly, it's my biggest wish.

"Cool, I spend my time just thinking about you
Every single day, yes, I'm really missing you
And all those things we use to do
Hey girl, what's up? It used to be just me and you.

"Can you meet me halfway, right at the borderline?
That's where I'm going to wait, for you.
I'll be looking out,
night and day
-- You took my heart to the limit,
and this is where I'll stay.
I can't go any further than this
I want you so badly, it's my only wish.

"Girl, I travel around the world and even sail the seven seas
Across the universe I go to other galaxies.
Just tell me where to go, just tell me where you want to meet
I navigate myself to take me where you'll be."

"Meet Me Halfway"
Black Eyed Peas.








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NÃO ME FAÇAM PERGUNTAS DIFÍCEIS


Que eu ando profundamente embucetado com o meu trabalho e minha carreira profissional não é segredo para ninguém. Ando mesmo frustrado com o rumo que a minha vida tem seguido, porque para mim fica cada dia mais claro que, ao passo em que eu tenho que cada vez mais arcar com esforços crescentes, desgastes extenuantes e responsabilidades imensas, cada vez menos tenho obtido realização pessoal ou profissional.

Por cima disso tudo, a noção de que o meu ganho financeiro em troca disso tudo tem sido bem medíocre, só me enfurece ainda mais. Para mim é muito foda parar para pensar que eu já tenho 33 anos e até agora não consegui construir nada de relevante, seja em termos materiais, seja em termos de crescimento como ser humano. O tempo passa, o tempo voa, e tudo na minha vida continua uma bosta.

E aí eu resolvi dar um basta nisso. Mandei às favas a minha birra contra concursos públicos e resolvi embarcar nessa também, como todo mundo nessa cidade esquecida por Deus. Cansei de chefe doido, de instabilidade de contrato, de salário chorado, de férias usurpadas e de sobrecarga de trabalho e de responsabilidades. Se eu tiver que vender os meus idealismos para poder ter estabilidade, um salário digno, férias decentes, potencialmente menos encheção de saco e uma carreira bem modorrenta, que seja. Ando sentindo que querer realização pessoal, profissional e material num pacote só é o mesmo que correr atrás da Lua: um delírio. Então vou ceder daqui e de lá, e vamos tentar conquistar isso por partes.

Conversei sobre isso com um amigo, que trabalha justamente num dos muitos cursinhos preparatórios para concursos públicos que existem aqui. Perguntei-lhe se ele achava melhor que eu me matriculasse um cursinho especializado num certo concurso, ou fizesse cursinhos para uma ou outra matéria específica, de maneira genérica. E ele não me respondeu na hora: falou para eu dar uma passada na casa dele depois que saísse do Escritório.

Quando eu cheguei lá, ele se sentou na minha frente e, como uma esfinge, me atirou à cara o mais complexo enigma que eu tenho enfrentado nos últimos anos:

"o que você quer fazer da sua vida?"

Suei frio à medida em que vasculhava a minha mente em busca de uma resposta. Tentei vislumbrar qualquer idéia minimamente realista de algo que eu gostaria de fazer, e que eu pudesse passar a fazer num curto prazo. Para o meu desespero, em meio a um monte de coisas que eu já sei que não gostaria de fazer, não consegui pensar em absolutamente nada. As alternativas não eram muitas: voltar a ser advogado, trabalhar com prestação jurisdicional? De jeito nenhum. Mexer com números, valores? Não mais. Há algum concurso decente em vista, para alguma posição burocrática e administrativa? Não.

Tive que resignar-me e assumir para mim mesmo que eu sou um perdido na vida. E também vi que a razão pela qual vago sem rumo pelo mundo é justamente porque sou incapaz de tomar uma direção e segui-la decidido. E não adianta querer a Lua se eu sou incapaz de tirar o meu pé do chão primeiro. E de pés e mãos atados frente a esse dilema, eu acabo me cansando de buscar uma luz para me sentar no chão e esperar a vida passar. É exatamente isso o que eu venho fazendo todos esses anos.

Aí eu me pergunto: o que fazer?



 Escrito por Rindu às 13:44
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CRESÇA E APAREÇA


Há uns anos atrás eu estava tão fora de forma que resolvi pegar pesado na academia. Para mim flacidez é mais sinal de desleixo do que banhas fartas, o que faz um magro sem-vergonha ser muito pior do que o qualquer gordo balofo. Então, em face do cós das minhas calças que teimava em dobrar-se, eu me meti a malhar na hora do almoço (ai, que saudade do tempo que eu podia fazer isso) e ainda voltava no fim da tarde para fazer aula de step.

Um dia nessa época eu fui almoçar no shopping com um amigo, e cruzamos com um dos professores da academia pelos corredores. O cara foi gentil (coisa rara em se tratando de brasilienses) e me cumprimentou, inclusive me chamando pelo nome. Eu fiquei surpreso daquele cara me reconhecer, porque em geral esse povo de academia é tudo filho-da-puta; mas o meu amigo me lembrou que o fato de eu ser visto malhando de manhã e à tarde com certeza me ganhou o respeito da galera.

É engraçado como as coisas funcionam nesse ecossistema das academias de musculação. Para quem vê de fora pode achar que nada demais acontece ali, mas a verdade conhecida pelos que frequentam o lugar é que há castas muito bem distintas entre aquelas pessoas -- castas que se ignoram mutuamente como se estivessem sozinhas em meio àqueles aparelhos. Por exemplo, os bombados, os instrutores e as gostosas se fecham num grupo inatingível, olímpico, que sequer toma conhecimento do resto de seres humanos normais que compartilha com eles o mesmo oxigênio. Há ainda o grupo dos adolescentes, facilmente identificável pela algazarra que fazem, pelos ombros estreitos e pelo uniforme que usam: bonés, bermudas largas e tênis novinhos. No meio desses há a vasta massa dos batalhadores, gente que está ali na sua, querendo malhar rápido e sem serem incomodados. E esses três grupos, por sua vez, ignoram completamente as tiazonas pelancudas, as cacuras magoadas e os gordos que deixam os aparelhos ensebados de suor.

Por toda a minha vida eu pertenci ao grupo dos batalhadores: já chegava na academia querendo ir embora, e malhava calado e alheio, taciturno, ouvindo música. Nos intervalos entre as séries, olhava fixamente para o chão, para não correr o risco de cruzar olhar com nenhum gaiato que ousasse pedir para revezar no aparelho. Essa foi a época que, depois eu soube, o meu apelido entre o primeiro time era "o autista do MP3".

De uns dois anos para cá eu resolvi acabar com essa aparência de cabide que sempre me definiu, e entrei num esquema mais organizado para malhar direito, visando ganhos mais substanciais. E toca eu comer todos os dias como um condenado, pegar pesado na academia, e gastar os tubos com nutricionista e suplementos. E embora devagar e às vezes sujeito a retrocessos ocasionais, a coisa tem ido em frente, sim: dos 74 quilos iniciais eu já estou consolidando 82 quilos.

Pode parecer muito, afinal são quase 10 quilos, mas não é: eu mesmo não venho percebendo muita diferença. Só agora é que alguma coisa parece estar começando a mudar de verdade, pelo que eu pude ver por causa das roupas que eu tenho perdido: blazers, camisetas, casacos e camisas sociais tiveram que ser dispensadas porque começaram a ficar pequenos ou apertados demais. Eu só não perdi calças até agora, o que é ótimo sinal: minha barriga continua seca (embora as calças estejam um pouco mais apertadas nas coxas).

Mas o que eu tenho percebido mudar mesmo é a atitude do povo da elite da academia em relação a mim. Se antes sequer notavam a minha presença, de repente passaram a me cumprimentar, e uns até já puxam papo. É como se eles só enxergassem as pessoas que têm um determinado volume corporal, tornando-se cegos e surdos para tudo o que estiver acima ou abaixo desse padrão. Eu, que antes não existia para eles, passei a existir de uma hora para a outra. Simples assim.

Eu continuo me comportando como sempre me comportei (embora sem o MP3, porque ele quebrou faz uns meses). Mas admito que essa súbita simpatia tem conseguido me impedir de me encasular como antes, para não ser grosseiro. Acho que se a coisa correr assim solta, eu temo pelo dia em que, levado de pouco em pouco, eu acabe como um deles: vindo malhar de regata, usando um cordão de prata uó no pescoço e de gel no cabelo arrepiadinho.

Se isso algum dia acontecer, por favor algum de vocês se compadeça da minha miséria e acabe com ela de uma vez por todas: atirem-me uma anilha de 20 quilos na cabeça.



 Escrito por Rindu às 16:47
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