CRESÇA E APAREÇA
Há uns anos atrás eu estava tão fora de forma que resolvi pegar pesado na academia. Para mim flacidez é mais sinal de desleixo do que banhas fartas, o que faz um magro sem-vergonha ser muito pior do que o qualquer gordo balofo. Então, em face do cós das minhas calças que teimava em dobrar-se, eu me meti a malhar na hora do almoço (ai, que saudade do tempo que eu podia fazer isso) e ainda voltava no fim da tarde para fazer aula de step. Um dia nessa época eu fui almoçar no shopping com um amigo, e cruzamos com um dos professores da academia pelos corredores. O cara foi gentil (coisa rara em se tratando de brasilienses) e me cumprimentou, inclusive me chamando pelo nome. Eu fiquei surpreso daquele cara me reconhecer, porque em geral esse povo de academia é tudo filho-da-puta; mas o meu amigo me lembrou que o fato de eu ser visto malhando de manhã e à tarde com certeza me ganhou o respeito da galera. É engraçado como as coisas funcionam nesse ecossistema das academias de musculação. Para quem vê de fora pode achar que nada demais acontece ali, mas a verdade conhecida pelos que frequentam o lugar é que há castas muito bem distintas entre aquelas pessoas -- castas que se ignoram mutuamente como se estivessem sozinhas em meio àqueles aparelhos. Por exemplo, os bombados, os instrutores e as gostosas se fecham num grupo inatingível, olímpico, que sequer toma conhecimento do resto de seres humanos normais que compartilha com eles o mesmo oxigênio. Há ainda o grupo dos adolescentes, facilmente identificável pela algazarra que fazem, pelos ombros estreitos e pelo uniforme que usam: bonés, bermudas largas e tênis novinhos. No meio desses há a vasta massa dos batalhadores, gente que está ali na sua, querendo malhar rápido e sem serem incomodados. E esses três grupos, por sua vez, ignoram completamente as tiazonas pelancudas, as cacuras magoadas e os gordos que deixam os aparelhos ensebados de suor. Por toda a minha vida eu pertenci ao grupo dos batalhadores: já chegava na academia querendo ir embora, e malhava calado e alheio, taciturno, ouvindo música. Nos intervalos entre as séries, olhava fixamente para o chão, para não correr o risco de cruzar olhar com nenhum gaiato que ousasse pedir para revezar no aparelho. Essa foi a época que, depois eu soube, o meu apelido entre o primeiro time era "o autista do MP3". De uns dois anos para cá eu resolvi acabar com essa aparência de cabide que sempre me definiu, e entrei num esquema mais organizado para malhar direito, visando ganhos mais substanciais. E toca eu comer todos os dias como um condenado, pegar pesado na academia, e gastar os tubos com nutricionista e suplementos. E embora devagar e às vezes sujeito a retrocessos ocasionais, a coisa tem ido em frente, sim: dos 74 quilos iniciais eu já estou consolidando 82 quilos. Pode parecer muito, afinal são quase 10 quilos, mas não é: eu mesmo não venho percebendo muita diferença. Só agora é que alguma coisa parece estar começando a mudar de verdade, pelo que eu pude ver por causa das roupas que eu tenho perdido: blazers, camisetas, casacos e camisas sociais tiveram que ser dispensadas porque começaram a ficar pequenos ou apertados demais. Eu só não perdi calças até agora, o que é ótimo sinal: minha barriga continua seca (embora as calças estejam um pouco mais apertadas nas coxas). Mas o que eu tenho percebido mudar mesmo é a atitude do povo da elite da academia em relação a mim. Se antes sequer notavam a minha presença, de repente passaram a me cumprimentar, e uns até já puxam papo. É como se eles só enxergassem as pessoas que têm um determinado volume corporal, tornando-se cegos e surdos para tudo o que estiver acima ou abaixo desse padrão. Eu, que antes não existia para eles, passei a existir de uma hora para a outra. Simples assim. Eu continuo me comportando como sempre me comportei (embora sem o MP3, porque ele quebrou faz uns meses). Mas admito que essa súbita simpatia tem conseguido me impedir de me encasular como antes, para não ser grosseiro. Acho que se a coisa correr assim solta, eu temo pelo dia em que, levado de pouco em pouco, eu acabe como um deles: vindo malhar de regata, usando um cordão de prata uó no pescoço e de gel no cabelo arrepiadinho. Se isso algum dia acontecer, por favor algum de vocês se compadeça da minha miséria e acabe com ela de uma vez por todas: atirem-me uma anilha de 20 quilos na cabeça.
Escrito
por Rindu às 16:47
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