KARMA IS A BITCH
Quando eu tinha dezessete anos, procurei uma psicóloga para fazer um teste vocacional. Já estava na época de eu decidir para que cursos me inscreveria nos vestibulares, e de tanto insistirem que eu deveria fazer direito ao invés de arquitetura, que sempre fora o meu desejo, eu estava deveras confuso. O resultado do teste não foi nem um pouco conclusivo e nem me ajudou muito, como pode se ver na minha vida hoje em dia. Mas uma parte dele foi extremamente marcante, porque já naquela ocasião trouxe à luz coisas das quais eu só tomaria consciência mais de uma década depois: o teste HTP (house-tree-person). Para quem nunca ouviu falar desse teste, ele é muito simples: consiste em você fazer livremente quatro desenhos: uma casa, uma árvore, e duas figuras humanas: uma masculina e outra feminina. Por meio desse teste os psicólogos têm como revelar facetas impressionantes da personalidade de um indivíduo, passando desde como ele se situa no mundo à sua volta até como ele se vê e vê os outros ao seu redor. Não houve nada extraordinário quando eu desenhei a casa e a árvore, mas algo digno de nota surgiu quando eu desenhei as figuras humanas. A mulher eu desenhei primeiro: bem posicionado no meio do papel, o desenho trazia os detalhes do rosto razoavelmente bem traçados, um cabelo arrumado, as mãos bem detalhadas (inclusive com esmalte nas unhas), boca maquiada e pés calçados em sapatos de salto alto firmemente plantados no chão. Havia ainda um colar de pérolas no pescoço, uma blusa e uma saia que denotavam uma proporção minimamente harmoniosa em seu corpo --isso, depois eu soube, representa o equilíbrio entre os campos mental, emocional e sexual. Já a figura masculina... era o próprio caos. Apressado porque o tempo para fazer os desenhos já ia terminar, o homem que eu desenhei saiu completamente distorcido. Era uma figura grande, desproporcional, atirada a esmo no papel. Como eu comecei o desenho a partir de uma cabeça muito grande, desenhada um pouco acima da metade da folha, o corpo acabou ficando também grande demais para o espaço que restava, e acabou ficando sem pés, com as pernas inconclusas na altura das canelas. O cabelo era uns poucos riscos, o rosto trazia olhos arregalados, a boca contrita e rasgada, e os braços estavam erguidos como quem se rende, pede desculpas ou se defende de um ataque. As mãos eram indefinidas, com todos os dedos do mesmo tamanho e em número maior ou menor do que o normal. O corpo não trazia divisões definidas: a linha do queixo era o que separava a cabeça do tronco, que seguia até uma linha da cintura abrupta. As mangas se estendiam até os pulsos e as calças, assim como as pernas, também não tinham fim. Esses testes HTP são uma fonte riquíssima de interpretações, havendo quem diga que se pode praticamente decifrar uma pessoa completamente a partir desses desenhos tão bobos. Em especial, a análise das figuras humanas que eu criei trouxe luz a uma série de conflitos internos que eu ainda sequer sabia que existiam (alguns inclusive relativos à minha sexualidade), ou que lutava ferrenhamente para esconder. A interpretação foi categórica: entre outras coisas, a psicóloga me disse que havia graves discrepâncias entre a imagem que eu tinha dos outros (a figura feminina, o "não-eu" no jargão psicológico) e a que eu tinha de mim mesmo (a figura masculina). Assim: ao passo que eu enxergava os demais à minha volta como seres equilibrados, com todas as áreas de suas existências harmoniosamente coordenadas, eu me via em meio a uma balbúrdia onde o mental e o emocional se duelavam de maneira cruel e completamente apartada do sexual. E isso não era tudo: enquanto para mim o mundo era feito de pessoas bem situadas, pés plantados no chão e mãos bem-feitas, eu me via numa constante queda, sem pés, sem chão, e desprovido de mãos que pudessem me ajudar a criar vínculos e me firmar no mundo. A própria posição do desenho da figura masculina na folha de papel, quase "caindo" dela, apontava para essa sensação de estar sempre em queda, vendo as coisas passarem por mim sem contudo delas conseguir tomar parte. Frente a isso tudo, os braços em defensiva e os olhos arregalados da figura no desenho praticamente explicam-se por si mesmos. Saber desse resultado foi uma experiência extremamente pertubadora para mim naquela época, e hoje eu vejo essas observações da psicóloga quase que como uma profecia para as décadas que se seguiriam àquele dia em setembro de 1993. Isso porque toda a harmonia que eu enxergo no mundo encontra o seu fim a um centímetro da minha pele: para qualquer um é algo normal e corriqueiro ter uma relação amorosa estável, uma vida profissional minimamente realizada e uma vida que pelo menos pareça que está cumprindo uma trajetória linear. Para mim, não é: os meus relacionamentos passam por mim como coisas escorregadias, às quais eu simplesmente não consigo me vincular. As pessoas entram e saem da minha vida como que por passe de mágica, na maioria das vezes completamente ignorantes do estrago que causam. Me falta um chão aos pés, onde eu possa me sentir construindo alguma coisa valiosa e prática para a minha vida; ao contrário disso, tudo o que eu tenho é um trabalho onde a minha mais recente conquista foi terminar de ler todas as mais de 430 páginas do blog Fuck My Life (qualquer relação do título com a minha vida não é mera coincidência). E de resto, a minha vida parece seguir uma trajetória em espiral descendente, seguindo errática e às topadas pelos anos afora. Ou seja, o tipo de coisa que serve perfeitamente de material para um seriado de TV de humor negro. Mas querem saber? Pode até parecer mentira, mas eu não constato isso com mágoa, ou uma pretensa autopiedade. Acho que depois de tantos anos eu simplesmente aprendi a compreender isso tudo como uma característica meio ingrata da minha vida, mas que dela faz parte. De maneira que cabe a mim aprender a lidar com ela, mais do que negá-la ou me lamuriar pela sua existência. Sei lá, isso tudo pode ser o que algumas religiões entenderiam por karma mais do que uma maldição. Talvez lutar com tudo isso possa ser um meio de eu me tornar uma pessoa melhor e, quem sabe um dia, mais feliz. Por favor, torçam por mim.
Escrito
por Rindu às 17:17
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